#67 Vivemos em uma Sociedade Pós-moderna?
Pergunta
No seu artigo na revista Christianity Today, o senhor disse:
Seja como for, alguns podem pensar que o ressurgimento da teologia natural em nossos dias é só trabalho perdido. Afinal, não vivemos numa cultura pós-moderna, em que apelar para argumentos apologéticos como esses já não surte efeito? Argumentos racionais a favor da verdade do teísmo supostamente já não funcionam. Por isso, alguns cristãos aconselham que simplesmente compartilhemos a nossa narrativa e convidemos as pessoas a participar dela.
Esse tipo de pensamento comete um erro desastroso de diagnóstico da cultura contemporânea. A ideia de que vivemos numa cultura pós-moderna é um mito. Na verdade, uma cultura pós-moderna é uma impossibilidade; seria praticamente impossível viver nela. As pessoas não são relativistas quando se trata de ciência, engenharia e tecnologia; são relativistas e pluralistas, isso sim, em questões de religião e ética. Mas isso, é claro, não é pós-modernismo; é modernismo! É apenas o velho verificacionismo, segundo o qual tudo o que não se pode provar com os cinco sentidos é questão de gosto pessoal. Vivemos numa cultura que continua profundamente modernista.
Pedi a um amigo que comentasse, e ele disse: “Acho que, neste ponto, precisamos tanto aceitar quanto rejeitar parte da hipótese de Craig. Certamente vivemos numa cultura em que o relativismo é aceito e os absolutos estão sendo seriamente questionados, mas o fato de vivermos uma cultura mais modernista do que literalmente pós-modernista não quer dizer que o pós-modernismo, tal como é definido hoje, não esteja presente na nossa cultura.
“O que Craig deixa claro aqui é que, embora as pessoas se digam de mentalidade pós-moderna, só agimos desse modo em certas esferas da vida. Concordo com Craig que, embora a maior parte da influência pós-moderna esteja nas áreas mais relativistas (reais ou percebidas) da cultura (religião, arte, música, ética, filmes, etc.), nós vivemos em um mundo que é marcado por uma tendência de não ver uma grande narrativa na história (uma meta-narrativa) em que exista uma coesão lógica e realista do começo ao fim. Em vez disso, também isso foi relativizado, e assim muitos dos argumentos racionais que continuam válidos são deixados de lado, porque implicam (com razão) uma verdadeira meta-narrativa que existe para a vida.”
Acho que ele acertou. O senhor concorda?
John
United States
Pergunta traduzida pela equipe Fé Razoável a partir do original em inglês.

Dr. Craig responde
Não, eu não concordo, John. Estou convencido que a cultural Ocidental, como resultado do iluminismo, permanece em essência profundamente modernista e, portanto, deve ser abordada como tal. Isso não quer dizer, é claro, que não existem poderosas correntes pós-modernas influenciando parte de nossa cultura. O pós-modernismo está impregnado na subcultura universitária em departamentos como literatura, estudos femininos e, de forma significativa, estudos religiosos. Mas com respeito a nossa cultura como um todo, esses radicais estão relativamente isolados - de fato, mesmo dentro da universidade como um todo eles são uma minoria. Estou orgulhoso que meu campo – a filosofia - tem bravamente à invasão do pós-modernismo.
A maioria das pessoas não pensa, nem por um minuto, que não existem padrões objetivos de verdade, racionalidade e lógica. Como eu disse no artigo, uma cultura pós-moderna é uma impossibilidade; seria praticamente impossível viver nela. Ninguém é um pós-moderno quando o assunto é ler as bulas em uma caixinha de medicamentos versus numa caixinha de veneno de rato. (Se você tiver uma dor de cabeça, é melhor você acreditar que os textos tem significado objetivo!). A ideia de que nós vivemos em uma cultura pós-moderna é, eu temo, um mito perpetuado em nossas igrejas por pastores jovens sem orientação.
Seu amigo parece pensar que enquanto as pessoas vivem suas vidas como modernistas na maioria das esferas, nós podemos ver a influência do pós-modernismo “nas áreas mais relativistas (reais ou percebidas) da cultura (religião, arte, música, ética, filmes, etc.).” Mas o que eu estou afirmando é que o relativismo naquelas áreas da cultura é, precisamente, uma expressão do modernismo. A primeira metade do século vinte foi dominada por uma filosofia chamada Verificacionismo. Nessa visão, qualquer coisa que não pode, em princípio, ser verificado através dos cinco sentidos, isto é, através da ciência, é sem sentido. Já que afirmações religiosas e éticas não podem ser verificadas dessa forma, segue-se que elas não têm conteúdo factual nenhum. São meramente expressões de emoções e gostos pessoais.
O influente livro Linguagem, Verdade e Lógica, do filósofo Britânico A. J. Ayer serviu como um tipo de manifesto para esse movimento. Ayer foi bastante explícito sobre as implicações teológicas de seu Verificacionismo. Se pela palavra “Deus” você quer dizer um ser transcendente, disse Ayer, então a palavra “Deus” é um termo metafísico, e então “não pode nem mesmo ser provável que um deus existe.” Ele explica, “Dizer 'Deus existe' é fazer uma elocução metafísica que não pode ser nem verdadeira nem falsa. E, pelo mesmo critério, nenhuma frase cujo objetivo é descrever a natureza de um deus transcendente pode possuir qualquer significado literal.”.
Espero que você entenda o significado dessa visão. Nessa perspectiva afirmações sobre Deus não tem nem mesmo a dignidade de serem falsas. São apenas palavras ou sons insignificantes proferidos no ar. Se você diz a alguém, “Deus te ama e tem um plano maravilhoso para sua vida,” você não disse nada mais significativo do que se você tivesse declarado, “Estava brillig; e o slithey toves fez gyre e gimble no wabe.”
Não foram apenas declarações teológicas que Ayer via como insignificantes. Declarações éticas - afirmações sobre certo e errado, bom e mal - também foram declaradas insignificantes. Tais afirmações são simplesmente expressões emocionais dos sentimentos do usuário. Ayer diz, “se eu digo 'Roubar dinheiro é errado' eu produzo uma declaração que não tem qualquer significado factual. ... É como se eu tivesse escrito, 'Roubar dinheiro!!'...está claro que não há nada dito aqui que pode ser verdadeiro ou falso.” Assim, ele conclui que julgamentos de valores “não tem qualquer validade objetiva.” O mesmo serve para declarações estéticas a respeito de beleza e feiúra. De acordo com Ayer, “Tais palavras estéticas como 'bonito' e 'horrendo' são empregadas..., não para fazer afirmações factuais, mas simplesmente para expressar certos sentimentos. ...”
Você pode apreciar o impacto que tal filosofia teria sobre religião, arte e ética? Produziria o caos relativista e anarquista que aflige a cultura Ocidental hoje. Crucifixos de urina tornam-se obras de arte e libertinagem sexual está a solta. Dado que afirmações religiosas não são afirmações factuais, é perfeitamente apropriado para um não-crente responder ao evangelho dizendo, “Pode ser verdade pra você, mas não é verdade para mim.” Tal resposta seria louca com relação a tecnologia de engenharia que existe para construir uma ponte ou até mesmo um secador de cabelo, mas faz perfeito sentido com respeito às expressões de gosto pessoal. Cristãos (ou Muçulmanos) que afirmam que suas visões religiosas são a verdade objetiva e que aqueles que discordam deles estão errados serão vistos como pessoas de mente-fechada e intolerantes dogmáticos, no mesmo nível de alguém que diz, “Baunilha é mais gostoso do que chocolate, e todos que pensam de outra forma estão errados.” Como uma expressão subjetiva de gosto pessoal, tais julgamentos não têm verdade objetiva e a pessoa que pensa que eles têm está enganada.
Dessa forma, o meu ponto é que precisamente o modernismo é que tem espalhado o relativismo e o pluralismo naquelas áreas da cultura mencionadas pelo seu amigo.
Mas e o comentário dele de que “nós vivemos em um mundo que é marcado por uma tendência de não ver uma grande narrativa na história (uma meta-narrativa) em que exista uma coesão lógica e realista do começo ao fim”? Isso é um produto do pós-modernismo? Não mesmo. É novamente o fruto direto de uma perspectiva modernista que vê homem e universo como subprodutos acidentais de forças cegas do acaso e da necessidade. Olhe para as palavras mordazes de Bertrand Russell escritas em 1903:
...ainda mais insignificante, mais destituído de significado é o mundo que a Ciência nos apresenta. Dentro de tal mundo é que nossos ideais, daqui em diante, devem encontrar um lar. Que o homem é produto de causas que não tinham nenhuma previsão do fim ao qual chegariam; que sua origem, seu crescimento, suas esperanças e temores, seus amores e crenças não passam do resultado do posicionamento acidental de átomos; que nenhum heroísmo, nenhum grau de pensamento ou de sentimento pode preservar a vida individual após a morte; que toda a labuta dos séculos, toda a devoção, toda a inspiração, todo o intenso brilho do gênio humano estão destinados à extinção na vasta morte do sistema solar; e que todo o templo da conquista humana deverá inevitavelmente ser soterrado sob os escombros de um universo em ruínas—todas estas coisas, ainda que possam ser disputadas, são quase certamente inevitáveis, de forma que nenhuma filosofia que as rejeita pode ter a esperança de permanecer de pé. Somente baixo do andaime destas verdades, somente sobre o firme fundamento do desespero inflexível, pode a habitação da alma ser construída com segurança . . . (“A Free Man’s Worship”).
Foi o naturalismo científico que destruiu a esperança do homem moderno em encontrar sentido e significado para a vida. O desespero da cultura Ocidental flui do naturalismo científico que molda sua visão de como o mundo realmente é.
Tudo isso é importante porque uma resposta efetiva a nossa cultura requer um diagnóstico preciso dessa cultura. Na mente de muitos cristãos, já que vivemos em uma cultura pós-moderna, devemos abandonar qualquer tentativa de recomendar nossa fé racionalmente como a verdade sobre a realidade. Ao invés disso, nós simplesmente compartilhamos nossa narrativa e convidamos pessoas para participar dela. Se eu estiver certo, no entanto, este é um caminho suicida. Esse caminho destruirá, em todos os sentidos, a afirmação da igreja de que ela conhece a verdade sobre como o mundo realmente é - essa verdade será oferecida pelo naturalismo científico - e o Cristianismo será visto apenas como mitologia.
Meu colega J. P. Moreland já avisou sobre o perigo que está diante de nós:
[Tal] igreja ... se tornará... impotente para se levantar contra as poderosas forças do secularismo que ameaçam enterrar as ideias Cristãs debaixo de uma capa de pluralismo sem alma e cientificismo enganoso. Em tal contexto a igreja será tentada a medir seu sucesso em termos de números - números que serão atingidos por meio de acomodação cultural à personalidades vazias [empty selves]. Dessa forma, ...a igreja se tornará seu próprio coveiro; seus meios para obter “sucesso” a curto prazo se transformarão na causa de sua marginalização a longo prazo (Love Your God with All Your Mind, pp. 93-94).
“Aqui se requer mente sábia” (Apocalipse 17.9).
William Lane Craig*
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