Perguntas e Respostas

#696 O destino dos que viveram bem antes de Cristo

Pergunta

Olá, Dr. Craig.

Sou cristão, mas tenho lutado quanto ao que fazer com Adão e Eva. Acredito que Deus criou o mundo, já que a ideia de que a realidade simplesmente calhou de existir me parece absurda. Creio que tanto a sua teoria quanto, para falar a verdade, uma espécie de versão modificada da teoria de Swamidass sobre o Adão histórico funcionem.

Porém, o que me incomoda como cristão e, para ser honesto, tem me levado a duvidar, é a quantidade de tempo entre o presente e os primeiros humanos. Quinhentos mil anos é muito tempo mesmo. Pense em toda a humanidade que existiu entre Adão e Abraão. Parece ter simplesmente havido tempo demais para a vida humana que existiu fora do escopo da história de Deus. O que pensa a esse respeito? Será que Deus tinha um plano para todos esses homens? Será que Cristo morreu por eles? Eles terão um lugar nos novos céus e nova terra? Acho que eu seria um tolo se ignorasse as provas a favor do cristianismo por uma coisa dessas. Porém, o intervalo de tempo me incomoda profundamente. Parece um grande desperdício. Tenho certeza de que algumas dessas questões já passaram por sua mente! Obrigado!

John

Estados Unidos

Dr. William Lane Craig

Dr. Craig responde

Trato desta questão no meu livro a ser lançado, In Quest of the Historical Adam [Em busca do Adão histórico] (Grand Rapids: Wm. B. Eerdmans, 2021). Se Adão e Eva eram, como defendo, os ancestrais dos neandertais e outros humanos arcaicos, segue que estes, como Adão e Eva, foram criados à imagem de Deus, pois estão incluídos nas afirmações genéricas de Gênesis 1.26-27. Enquanto seres humanos criados à imagem de Deus, neandertais e outros humanos arcaicos têm, portanto, valor moral intrínseco e partilham da vocação do homem.

A ideia de que neandertais e outros humanos arcaicos tenham sido criados à imagem de Deus e partilhem da nossa vocação leva à surpreendente compreensão de que, enquanto membros da família humana, neandertais, denisovanos e outros mais eram, assim como nós, pessoas que Deus ama e pelas quais Cristo morreu. Paulo descreve como Deus “não levou em conta os tempos de ignorância” (Atos 17.30) e “deixou de punir os pecados anteriormente cometidos”, aqueles praticados antes do advento de Cristo (Romanos 3.25). A morte de Cristo propiciou os pecados da humanidade passada, voltando até ao pecado de Adão. A menos que se adote o estranho ensino da expiação limitada, a morte expiatória de Cristo deve ter, portanto, envolvido os pecados desses humanos arcaicos.

Embora situar Adão e Eva centenas de milhares de anos antes de Cristo, como eu faço, talvez acentue nas nossas mentes o problema do destino daqueles que viveram antes de Cristo, não consigo enxergar como a duração maior da era humana pré-cristã acrescenta algo de relevância filosófica à questão.[1] De fato, a questão não é essencialmente diferente da questão do destino das pessoas vivas hoje que ainda não ouviram o evangelho. Qualquer solução ao problema, como o apelo à revelação geral de Deus na natureza e na consciência, pode ser aplicada, mutatis mutandis, aos neandertais e demais humanos arcaicos.[2]

Na verdade, como é que sabemos que os neandertais não foram mais receptivos à revelação de Deus na natureza do que, digamos, Homo sapiens, e, assim, muitíssimos deles são herdeiros da vida eterna?

Talvez até venhamos a ver neandertais, denisovanos e outros humanos arcaicos no céu, e penso que teremos alegria em fazê-lo.


[1] Vale também lembrar que, durante a maior parte da sua história, a população humana mundial era contada apenas aos milhares, chegando enfim a um milhão somente por volta de 10000 a.C. Só no início do século XIX foi que a população mundial atingiu a marca de um bilhão de pessoas. Aproximadamente 100 bilhões de pessoas viveram entre 50000 a.C. e o dia atual. Ver https://www.worldatlas.com/feature/how-many-people-have-ever-lived-on-earth.html. Para estimativas dos tamanhos da população de neandertais em dezenas de milhares, ver “Genetics Spills Secrets from Neanderthals’ Lost History”, Quanta Magazine, 18 de setembro de 2017, https://www.quantamagazine.org/genetics-spills-secrets-from-neanderthals-lost-history-20170918/. Da população mundial atual de 7,4 bilhões, estima-se que entre 15-25% ainda precisam ouvir o evangelho de Cristo.

[2] Para uma discussão da doutrina da salvação por meio de Cristo somente e os desafios dela decorrentes, ver os meus artigos “Como é possível Cristo ser o único caminho para Deus?” ou “‘No Other Name’: A Middle Knowledge Perspective on the Exclusivity of Salvation through Christ”.

William Lane Craig*

* Leia o original em inglês no Reasonable Faith

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