Fé Razoável com William Lane Craig

Excursão na Teologia Natural (Parte 31): O Problema do Mal e do Sofrimento 2/4

William Lane Craig · Seção 04 / Aula 31 ·

Resumo da equipe Fé Razoável, preparado com auxílio de IA

William Lane Craig continua a análise da versão lógica do problema do mal e questiona a suposição de que um Deus perfeitamente bom necessariamente preferiria um mundo sem sofrimento. A aula discute bens maiores, liberdade e mundos possíveis e apresenta uma afirmação cuja possibilidade, segundo Craig, mostra a consistência entre Deus e o sofrimento, antes de introduzir a versão evidencial.

Recapitulação da versão lógica do problema do mal

Da última vez, começamos a olhar a versão lógica do problema do mal. Você vai se lembrar que essa versão do problema afirma que a coexistência de Deus e o sofrimento no mundo é logicamente impossível. Dado o sofrimento e o mal no mundo, é logicamente impossível que Deus exista. Agora, as declarações: 1. Um Deus todo-poderoso e todo-amoroso existe e 2. O mal e o sofrimento existem não são explicitamente contraditórios entre si. Então o ateu deve estar assumindo algumas premissas ocultas se ele pensa que isso é uma contradição implícita – premissas que trariam à tona a contradição e a tornariam explícita. Identificamos duas dessas premissas. A primeira foi: (3) Se Deus é todo-poderoso (como os cristãos afirmam) então ele pode criar qualquer mundo que quiser, incluindo um mundo sem mal e sem sofrimento.

Em segundo lugar, que (4) se Deus é totalmente bom então ele preferiria um mundo sem sofrimento a um mundo com sofrimento. E como Deus é todo-poderoso e totalmente bom, seguiria-se portanto, que o sofrimento não existe. Como o sofrimento existe, pode-se concluir que, portanto, Deus não existe. Começamos a olhar para essas suposições ocultas e a nos perguntar: elas são necessariamente verdadeiras? E vimos, antes de tudo, que aquela suposição de que “se Deus é todo-poderoso, ele pode criar qualquer mundo que ele quiser”, não é necessariamente verdadeira porque se é sequer possível que os seres humanos tenham liberdade de vontade, então pode haver mundos que em si mesmos são logicamente possíveis mas não são viáveis para Deus criar porque as pessoas não fariam livremente o que Deus quer que elas façam.

É logicamente impossível fazer alguém fazer algo livremente. Se há liberdade de vontade (ou se essa possibilidade existe), segue-se que não é necessariamente verdade que Deus pode simplesmente criar qualquer mundo que ele queira criar. Com base apenas nisso, o argumento do ateu desmorona e é falacioso. Agora, antes de olharmos para a próxima suposição de que se Deus é totalmente bom, ele prefere um mundo sem sofrimento, existe alguma questão final ou discussão sobre essa primeira suposição de que se Deus é todo-poderoso, então ele pode criar qualquer mundo que quiser?

Bens maiores e razões para permitir sofrimento

Muito bem, vamos em frente então, para a segunda suposição: “Se Deus é todo-amoroso e totalmente bom, então ele preferiria um mundo sem sofrimento.” Isso é necessariamente verdade? Bem, eu não acho. Não parece ser. Porque Deus poderia ter outras razões superiores para permitir o sofrimento no mundo. Todos nós conhecemos casos em que permitimos ou até mesmo infligimos sofrimento por causa de algum bem maior que pode ser alcançado. Eu me lembro de um comentário feito por C. S. Lewis no sentido de “O que as pessoas querem dizer quando dizem ‘Eu não tenho medo de Deus porque sei que ele é bom.’ Eles nunca foram ao dentista?” Lembre-se, isso foi escrito quando dentistas trabalhavam sem Novocaína!

Aqueles de nós que se lembram daqueles dias sabem que, embora o dentista seja bom, ainda assim, isso pode infligir um sofrimento considerável. Então, simplesmente não é verdade que um mundo sem sofrimento é automaticamente melhor do que um mundo com sofrimento. O ateu pode dizer que um Deus todo-poderoso não é limitado da maneira que, digamos, seu dentista é. O Deus todo-poderoso poderia trazer esse bem maior diretamente sem o sofrimento. Mas, novamente, claramente dada a liberdade de vontade, isso pode não ser possível. Alguns bens, por exemplo virtudes morais, só podem ser alcançados dada a liberdade de vontade. É apenas através da cooperação livre das pessoas que o crescimento moral e a virtude moral são possíveis.

Então pode muito bem ser o caso de que um mundo com sofrimento seja, no conjunto, um mundo globalmente melhor do que um mundo que não envolveria sofrimento. Isso é, eu acho, pelo menos possível, e isso é tudo o que precisa ser dito para derrotar a alegação do ateu de que essa suposição é necessariamente verdadeira.

Discussão sobre liberdade, sofrimento e mundos possíveis

Algum comentário ou pergunta sobre essa suposição? Sim, Joe.

Estudante: Bill, você tem sido realmente claro sobre apenas a mera possibilidade de uma resposta – isso é suficiente para derrotar o argumento. E se alguém disser: eu tenho uma mera possibilidade contra o seu argumento teleológico. A mera possibilidade de existir um multiverso é suficiente para eu ignorar todas as implicações de design que vejo ao meu redor. Quando alguém tenta usar isso...

Dr. Craig: Sim, isso não seria relevante para o argumento teleológico porque não se está fazendo afirmações de necessidade – de que por necessidade lógica isso é o caso. Isso seria relevante para o argumento ontológico. Lá, se ele pudesse mostrar que é possível que Deus não exista, então você está absolutamente certo que isso teria essas ramificações. Mas é tão importante ter em mente aqui que o ateu está fazendo uma afirmação muito, muito forte na versão lógica – que é logicamente impossível para Deus e o sofrimento no mundo coexistirem. E é por isso que, como eu disse, se é sequer possível que as pessoas tenham livre arbítrio, isso mostraria que as premissas-chave não são necessariamente verdadeiras.

Cindy?

Estudante: Eu acompanho seu argumento inteiramente, exceto por uma coisa que preciso de clareza. Eu entendo que se Deus criou um mundo com seres humanos que têm livre arbítrio que por conta própria podem escolhê-lo ou não escolhê-lo – teria que haver mal. Correto?

Dr. Craig: Não que teria que haver.

Estudante: Mas a possibilidade de que o mal pudesse existir.

Dr. Craig: Certo. A possibilidade do mal, e pode ser o caso de que em qualquer mundo de criaturas livres que tenha tanto bem quanto este mundo tem, também haveria tanto sofrimento e mal. Nós simplesmente não sabemos. O ateu está apenas conjecturando aqui.

Estudante: Então você inclui Satanás e o impacto do pecado e que somos caídos, isso apenas magnifica – a possibilidade do pecado e do mal estarem presentes.

Dr. Craig: Isso mesmo. Eu não menciono Satanás porque isso realmente não acrescenta nada. A ideia aqui é que existe liberdade criatural, e isso pode ser criaturas humanas, ou Klingons, ou pode ser demônios e Satanás.

Estudante: O que eu não estou acompanhando muito bem é o sofrimento material. Essa não é a palavra certa. Sofrimento por causas naturais – não por atos malignos – seja, como você mencionou na semana passada, com a criança que foi soterrada nos escombros. Não houve causa de uma vontade humana que criou essa situação. Acho que para mim é aí que teremos mais dificuldade em tentar explicar ou racionalizar. Talvez não explicar. Certo?

Dr. Craig: Acho que você está certa, e esse é exatamente o ponto. Não se está tentando aqui oferecer uma explicação. Você não está tentando dar uma explicação de por que existe mal e sofrimento no mundo. O que você está fazendo é simplesmente minar a alegação do ateu de que um Deus onipotente poderia criar um mundo sem mal e sofrimento e que um Deus todo-amoroso criaria um mundo (ou preferiria um mundo) sem mal e sofrimento. E estamos simplesmente dizendo que essas duas suposições não são necessariamente verdadeiras. Mas você não está oferecendo nenhuma explicação aqui sobre o mal natural ou outros tipos de males no mundo.

Estudante: Mas nós, em sua aula, somos pessoas muito curiosas então... [risos]

Dr. Craig: Acho que a resposta se tornará mais relevante quando chegarmos à versão evidencial ou probabilística do problema do mal. Lá precisaremos abordar essas questões, eu acho, mais diretamente.

Estudante: Há algo que você acha no fato de que o mundo está sofrendo por causa da dominação por Satanás, e que está clamando em dor assim como a raça humana e portanto até mesmo o mundo está capturado, por assim dizer, por...

Dr. Craig: Eu mencionei isso na semana passada. Alvin Plantinga diz que é logicamente possível que o mal natural no mundo seja o resultado de Satanás e seus asseclas – que vivemos neste universo caído onde eles causam todo tipo de desastres e coisas. Isso pode parecer enormemente improvável, mas desde que seja logicamente possível, isso mostra que o ateu falhou em provar essas premissas cruciais que mostrariam que a existência de Deus com a existência do mal é impossível. Kevin.

Estudante: E se alguém alegar que um Deus totalmente bom deveria ter se abstido de criar em vez de criar criaturas com livre arbítrio que ele sabia que sofreriam?

Dr. Craig: Sim... Acho que isso não é essencialmente diferente porque um mundo em que não há universo físico – em que apenas Deus existe – ainda é um mundo possível. Esse é um mundo possível. Então a alegação aqui, por parte do ateu, é que se Deus é todo-amoroso, ele preferiria um mundo sem sofrimento a um mundo com sofrimento. E um mundo em que apenas Deus existe seria um mundo possível desse tipo – um mundo sem sofrimento. E acho que a resposta continua sendo a mesma. Podemos ter razões moralmente suficientes para permitir que o sofrimento ocorra, e, portanto, um mundo com criaturas caídas que vêm a conhecer Deus através da salvação em Cristo pode ser um mundo melhor do que um mundo sem sofrimento – que é um mundo em que Deus não cria nada e apenas existe por si mesmo.

Então, é realmente o mesmo ponto novamente. O ateu tem que mostrar que é logicamente impossível que possa haver bens em mente que Deus tem e que o levam a criar um mundo de criaturas que caem em sofrimento e mal.

Estudante: Acho que cedemos terreno demais porque não tenho certeza de que eles possam provar que este mundo não é perfeito como é agora. Porque não temos conhecimento total. Nós não sabemos que Deus não é perfeitamente justo e não compensa a criança e o sofrimento nos escombros em uma área diferente. Então o mundo poderia ser perfeito e sempre ter sido perfeito por causa de um plano maior que não podemos ver agora.

Dr. Craig: A versão lógica do problema do mal está tentando expor uma inconsistência dentro da cosmovisão cristã. Está tentando dizer: Vocês, cristãos, estão comprometidos com a verdade de que Deus é todo-poderoso e todo-amoroso e com a realidade do mal. Vocês mesmos reconhecem que este não é um mundo perfeito; que este é um mundo caído, em que há mal. E então o ateu vai afirmar que a cosmovisão cristã é internamente contraditória. Não acho que seria uma resposta teologicamente aceitável dizer que este mundo é perfeito. Isso seria dizer que o pecado é ilusório. Isso é realmente uma visão hindu do mundo que diz que a distinção entre bem e mal é parte de Maya ou do mundo da ilusão.

Acho que, como cristãos, estamos comprometidos com a verdade dessa premissa de que o mal e o sofrimento realmente existem.

Estudante: O mal existe. Não é isso. Sofrimento é uma injustiça. O que estou dizendo é que Deus pode ter orquestrado coisas que ainda não conseguimos ver – para cada indivíduo isso se equilibra.

Dr. Craig: Sim, acho que esse é o mesmo ponto que estou fazendo. Como o dentista, pode haver bens superiores que Deus tem em mente que superam o sofrimento. Acho que isso é certo. Mas eu evitaria a palavra “perfeito.”

Estudante: Tenho razões para seguir nessa linha, mas... A razão pela qual estou tentando dizer isso é por causa da falta de conhecimento completo que só parece...

Dr. Craig: Vamos falar mais sobre isso quando chegarmos à versão evidencial.

Estudante: Obrigado. Dr. Craig, vou usar uma parábola simples para ilustrar o que vemos como mal. Ou seja, se um bebê dorme em um berço e à medida que ele cresce, se continuarmos a deixá-lo no berço, vai se tornar cada vez mais difícil e causar sofrimento. Ok, então esse tipo de sofrimento é quase como se Deus tivesse embutido esse mecanismo de crescimento e, se não crescermos com ele (o pecado de omissão), nós cairemos no sofrimento. Nesse sentido, o sofrimento é necessário para promover esse crescimento.

Dr. Craig: Acho que esse é o ponto que eu estava tentando fazer com relação às virtudes morais. Se Deus simplesmente nos deixasse como pessoas infantis protegidas de todo sofrimento e de toda disciplina, nunca seríamos capazes de crescer e nos tornar agentes morais maduros que podem tomar decisões sábias e realizar atos de bondade e sacrifício e nos tornarmos o tipo de pessoas morais que devemos ser. Seríamos como, como você disse, essas crianças mimadas e infantis ainda no berço. Em certo sentido, acho que você está certo. Isso é pior. Isso é mais sofrimento do que a pessoa que, através de golpes duros, disciplina e as vicissitudes da vida, aprende a ser uma pessoa madura, generosa, corajosa, paciente que desenvolve essas virtudes morais.

Então acho que esse é um bom ponto.

Estudante: Voltando à primeira premissa oculta, parece-me que o ateu poderia dizer que, como cristãos, nós absolutamente acreditamos em um Deus que pode criar um mundo sem dor e sofrimento, porque acreditamos que ele fará exatamente isso na eternidade.

Dr. Craig: Bem, agora lembre-se, Eric, isso é tão crucial – por “mundo” aqui não queremos dizer um universo, queremos dizer um mundo possível. E um mundo possível é uma descrição máxima da realidade que inclui passado, presente e futuro. Então o mundo atual em que vivemos é um em que há mal real e sofrimento real, mesmo que o segmento inicial tenha começado muito bem, não continuou assim. E mesmo que o segmento final será restaurado (como acreditamos), ainda assim, no meio, há esse segmento de mal genuíno, sofrimento horrível. Não devemos tentar minimizar isso. Quando falamos sobre um mundo (um mundo possível), queremos dizer tudo – passado, presente e futuro.

Estudante: Parece quase como se o argumento lógico do ateu sobre isso fosse simplista demais. Eles não estão levando em conta todas as leis naturais da física. Até mesmo a mortalidade do homem – radicais livres que destroem o corpo e todo tipo diferente de coisa que pode acontecer a uma pessoa que pode fazê-la sofrer, o que pode não ter nada a ver com outra pessoa causando isso. Você sabe, gravidade – se você decidir pular de um prédio – provavelmente vai se machucar. Tsunamis e coisas assim.

Dr. Craig: Sim, acho que, se posso falar pelo ateu, ele diria que isso está assumindo que a lei da gravidade é logicamente necessária. Talvez Deus pudesse ter criado um mundo operando segundo leis da natureza diferentes em que esses incidentes infelizes não ocorreriam. Mas então acho que sua resposta a isso deveria ser, com razão, “Como você sabe? Isso é apenas conjectura.” O ateu realmente não tem como provar que em um mundo operando sob leis da natureza diferentes haveria menos mal e sofrimento do que neste mundo.

Estudante: Acho que quando você combina os dois – as diferentes leis que as pessoas têm que obedecer (você mal pode contorná-las, seja o que for, até mesmo uma consciência moral ou leis da natureza), e então você tem a liberdade de vontade que você mencionou. Você só tem liberdade de vontade até certo ponto. Quero dizer, não posso simplesmente voar para fora desta sala. Se você tem liberdade de vontade junto com limites, você atinge esses limites e há sofrimento, seja o que for.

Dr. Craig: Sim, pense neste cenário. Deus poderia ter criado um mundo de espíritos puros em que não há corpos físicos ou universo físico algum. Assim você nunca se machucaria. Você nunca sentiria dor. Haveria apenas espíritos puros. Esse seria um mundo sem mal e sofrimento? De jeito nenhum. Esse tipo de mundo poderia ser horrível. Poderia ser terrível. Isso poderia ser como um mundo angelical que cai em pecado e produz seres demoníacos. Então não é nada claro que em um mundo, digamos, de espíritos puros, isso seria um mundo sem mal e sofrimento desde que exista liberdade de vontade.

Estudante: Isso foi uma deixa para o que eu estava pensando. Sempre que você tem liberdade, você vai ter mal. Deus criou seres livres.

Dr. Craig: Cuidado, Bruce, você não disse isso, mas você não quer dizer que liberdade implica em mal. Pode haver mundos logicamente possíveis onde as pessoas sempre escolhem livremente fazer o certo. Acho que a liberdade de vontade implica na possibilidade do mal, mas não implica no mal em si.

Estudante: Não, não implica, mas se Deus criou pessoas com livre arbítrio, em última análise o mal vai se manifestar porque Satanás foi criado sem pecado, mas ainda assim o pecado começou no céu.

Dr. Craig: Sim, mas você não quer dizer que a queda de Satanás foi logicamente necessária.

Estudante: Não necessária, mas algum mal virá inevitavelmente.

Dr. Craig: Bem, não acho que isso seja verdade, pelo menos não em um sentido lógico. Acho que o que se pode dizer é que mundos possíveis nos quais nenhum mal ocorre (e há seres livres, criaturas livres) são logicamente possíveis, mas podem não ser viáveis para Deus criar porque, se houvesse criaturas livres, elas poderiam errar e fazer coisas que Deus não quer que façam. Lembre-se da nossa discussão sobre conhecimento médio. É disso que se trata aqui. Pelo seu conhecimento médio, Deus sabe todos os mundos que são viáveis para ele criar. Então, não precisamos negar que existem mundos logicamente possíveis em que as pessoas sempre escolhem livremente fazer o certo.

Caso contrário, o pecado seria necessário. Mas o que se pode dizer é que esses mundos podem não ser viáveis para Deus. E esse foi o ponto que eu estava tentando fazer quando disse que só porque Deus é todo-poderoso não significa que ele pode atualizar qualquer mundo possível que ele queira. Existem mundos que podem ser inviáveis para Deus em vista da liberdade humana.

Estudante: O corolário então seria, em nosso mundo, é se Deus quer destruir o mal, então ele deveria me destruir, e ninguém quer isso para si mesmo, a menos que você vá tomar o Kool-Aid como Jim Jones. Essa é a extensão lógica disso – nós simplesmente eliminaríamos uns aos outros.

Dr. Craig: Sim, podemos ser gratos, cada um de nós, que Deus está disposto a permitir o mal ou não seríamos permitidos existir. Certo. Algum outro comentário sobre essa versão?

Uma afirmação que mostra a consistência lógica

Bem, o ponto aqui é que ao fazer essas duas suposições – que se Deus é todo-poderoso ele pode criar qualquer mundo que ele quiser, e que se Deus é totalmente bom ele preferiria um mundo sem sofrimento a um mundo com sofrimento – o ateu está assumindo um ônus da prova que é simplesmente insustentável. Ele teria que mostrar que a liberdade de vontade é impossível e que é impossível que um mundo com sofrimento seja melhor do que um mundo sem sofrimento. Nenhum ateu foi capaz de carregar esse pesado ônus da prova. Dito isso, podemos na verdade levar o argumento um passo adiante. Acho que podemos tornar plausível que Deus e o sofrimento e o mal no mundo são logicamente consistentes entre si.

Tudo o que temos que fazer é apresentar uma terceira afirmação que seja consistente com a existência de Deus e implique que o sofrimento existe. Aqui está uma afirmação desse tipo: 5. Deus não poderia ter criado um mundo com tanto bem quanto o mundo real mas com menos sofrimento, e além disso Deus tem boas razões para permitir o sofrimento no mundo. Então, Deus não poderia ter criado um, opa. Não poderia ter criado um mundo. Deus não poderia ter criado um mundo com tanto bem quanto o mundo real, mas com menos sofrimento. E além disso, Deus tem boas razões para permitir o sofrimento no mundo. Agora, essa afirmação (5) é verdadeira?

Eu não sei. Deus sabe! Mas desde que seja sequer possível, isso mostra que não há inconsistência entre Deus e o mal e sofrimento no mundo. Porque se Deus existe e Deus não poderia ter criado um mundo com tanto bem quanto o mundo real mas com menos sofrimento e ele tem boas razões para permitir o sofrimento que existe, então segue-se que o sofrimento existe. Assim, não há inconsistência. Portanto, não apenas o ateu falhou em provar qualquer inconsistência entre Deus e o sofrimento no mundo, mas acho que podemos tornar muito plausível que Deus e o sofrimento no mundo são logicamente consistentes, ou seja, a possibilidade de (5) mostra que são logicamente consistentes.

Discussão sobre razões, bens e o céu

Algum comentário ou pergunta sobre esse avanço positivo.

Estudante: Quando estamos conversando com alguém, podemos simplesmente deixar como está que ele apenas tem boas razões, mas não necessariamente sabemos quais são. No entanto, podemos ir um passo além e sugerir essas razões. Se eles disserem: Ok, quais razões ele poderia ter? Mesmo que a mente dele seja mais alta que a nossa, não seria uma razão primária que poderíamos dar dizendo Deus não nos colocou na Terra como seus bichos de estimação que estão aqui apenas para nosso prazer. A felicidade não é o objetivo de Deus para nós – é na verdade o conhecimento de Deus e a salvação?

Dr. Craig: Você está antecipando o problema evidencial do mal que vamos falar a seguir, onde esse tipo de ponto se tornará relevante. Mas em relação a esta versão lógica, eu reiteraria o que disse antes. Não estamos tentando oferecer nenhuma explicação de por que Deus permite o sofrimento e o mal no mundo. Esse não é o nosso ônus da prova. Esse é o argumento do ateu. É ele quem está fazendo essa afirmação muito forte de que é logicamente impossível que Deus e o sofrimento no mundo existam. Basta simplesmente dizer: não é (5) possível? Enquanto for, isso mostra que não há inconsistência. E você não forneceu nenhuma explicação para por que há mal e sofrimento no mundo.

Estudante: Para isso, nem é necessário, mas o outro pode ser uma extensão disso. Entendi.

Dr. Craig: Sim. Sim. Certo. Claro. E, obviamente, como a Cindy disse, somos curiosos e gostaríamos de saber bem, quais poderiam ser essas razões? Deus tem boas razões para permitir o sofrimento no mundo. Quais poderiam ser elas? Essa é uma investigação legítima, e falaremos sobre isso em um minuto.

Estudante: Precisamos de bem e livre arbítrio nessa afirmação? Porque consigo imaginar Deus criando um mundo onde temos livre arbítrio e nenhum sofrimento se todos estivermos isolados. Mas assim que precisamos ter comunidade e interação, ele precisa estabelecer uma lei que traga sofrimento.

Dr. Craig: A ideia por trás de (5) é que podemos imaginar mundos que, digamos, tenham menos sofrimento do que o mundo real. Certo? Ele poderia ter criado um mundo com muito menos sofrimento. Mas então o bem do mundo também poderia ser reduzido ao mesmo tempo. Ou podemos imaginar mundos em que Deus criaria bens muito maiores – há mais bens – mas o sofrimento associado também seria muito maior. O que queremos dizer é que é possível que Deus não pudesse ter criado um mundo que alcançasse tanto bem quanto este mundo, mas que não tivesse também tanto mal e sofrimento nele.

Estudante: Entendi o que você está dizendo. Estou tentando dizer a medida do bem – como você mede o bem. Sem livre arbítrio, você poderia simplesmente ter todos fazendo a vontade de Deus (seríamos todos robôs) e não haveria sofrimento. Mas se você tem livre arbítrio, cada um segue seu caminho, mas Deus é tão soberano e tão poderoso que ele poderia nos impedir de interagir uns com os outros. Mas nunca teríamos comunidade e comunhão. Certo. E então ele tem que dar a lei, você deve obedecer um fundamento comum – a vontade dele. Ele coloca uma moral...

Dr. Craig: Sim, acho plausível dizer que um mundo em que, digamos, há apenas uma pessoa em cada planeta seria um mundo que não alcançaria os tipos de bens que este mundo alcança por causa das coisas que você mencionou.

Estudante: Então o bem seria uma medida nesse caso de algo mais como interação social.

Dr. Craig: Isso faria parte dos bens que este mundo alcançou, não é? Amor entre pessoas e coisas desse tipo. Há muitas coisas.

Estudante: Em um nível mais básico, vida multicelular.

Dr. Craig: Sim. Algum outro comentário sobre esse avanço positivo? Tentamos mostrar que o ateu falhou em sustentar seu ônus da prova para mostrar que são inconsistentes, e agora levamos o argumento um passo adiante e dizemos que podemos provar que são consistentes, desde que (5) seja possível.

Estudante: Meu entendimento ou concepção de como será o céu é um mundo em que todos os habitantes do céu terão livre arbítrio e ainda assim não cairão em pecado. Além disso, de alguma forma as leis da física serão tais que não sofreremos com males naturais também. A pergunta é: se Deus pode fazer isso acontecer lá e fará acontecer lá, então por que ele não pode fazer acontecer agora?

Dr. Craig: O que você precisa lembrar é que o céu não é em si mesmo um mundo possível. É apenas um segmento de um mundo possível. Há também todas as pessoas no inferno ao mesmo tempo. Há também aquele precursor do céu que é este vale de lágrimas pelo qual passamos. Então o céu é o resultado ou o desfecho de tudo o que veio antes. E pode muito bem ser o caso de que Deus não poderia criar um mundo como o céu do nada, porque as pessoas não teriam tido a oportunidade de escolher a favor ou contra Cristo e assim por diante. Não acho que isso seja um contraexemplo ao que estamos dizendo aqui.

Estudante: Ainda não chegamos lá, e sei que estamos chegando, mas quando você debate, percebe que as pessoas pulam direto a parte lógica. Isso é em grande parte porque foi abandonada filosoficamente? Estou pensando no falecido J. L. Mackie e seus discípulos. Parece que eles pulam direto para isso. Neil deGrasse Tyson até o falecido Christopher Hitchens vão direto para o mal natural, mal não-volicional, não relacionado à vontade livre e simplesmente ignoram essa parte para ir direto ao evidencial. Você acha que é esse o caso?

Dr. Craig: Sim, acho que vejo essa transição da versão lógica para a versão evidencial ou probabilística, mas não acho que seja porque a versão lógica foi respondida e eles estão cientes disso. Acho que é por uma falha em traçar distinções claras entre essas versões. Então, muito frequentemente as pessoas farão essa afirmação muito forte da versão lógica de que é impossível que Deus e o sofrimento no mundo existam, mas então argumentam de forma evidencial. É apenas, eu acho, uma falha em traçar distinções claras. Isso realmente nos ajudará a lidar com os respectivos problemas se conseguirmos manter essas distinções claras.

Conclusão da defesa e novas objeções

Então, deixe-me encerrar esta versão do problema do mal – a versão lógica – dizendo que após séculos de discussão, os livros estão praticamente fechados agora sobre a versão lógica do problema do mal. Dificilmente algum ateu hoje defenderá esse argumento. É amplamente admitido tanto por filósofos teístas quanto não teístas que a versão lógica do problema do mal está falida. A razão é porque o ônus da prova que recai sobre os ombros do ateu é tão pesado que não pode ser sustentado. Ele teria que provar que é logicamente impossível que Deus e o sofrimento e o mal no mundo coexistam, e ninguém conseguiu fazer isso. Algum comentário final sobre a versão lógica, então?

Estudante: O que podemos concluir aqui é o que você estava dizendo – você não mencionou o que ele disse, mas – Chris Hitchens é famoso por dizer que Deus não pode ser totalmente bom por causa de tal, tal e tal e Deus não pode ser todo-poderoso por causa de tal, tal e tal. Você está dizendo que isso é uma alegação lógica porque ele está dizendo que é de um jeito ou de outro, não há meio-termo. Mas então isso é argumentado em nível evidencial. Então eles meio que trocam a base do argumento. Então nosso trabalho nessa circunstância é manter isso no campo lógico e dizer: Ok, prove logicamente que o que você acabou de dizer, que Deus não pode ser totalmente bom e permitir o mal e Deus não pode ser todo-poderoso e permitir o mal.

Dr. Craig: Sim, e acho que se fizermos isso, pode ser uma espécie de choque para o descrente perceber que, poxa, acho que não consigo realmente provar isso. Eu realmente não consigo provar que isso é impossível ou inconsistente como eu pensava. Isso pode ajudar a abrir um pouco mais a mente dele. Então, certo, acho que é realmente importante ao discutir com um descrente que está pressionando essa questão do mal, perguntar a ele: Você está dizendo que é logicamente impossível que Deus e o sofrimento no mundo coexistam? Ou você está apenas dizendo que o sofrimento no mundo torna improvável que Deus exista? Qual dessas você acredita? Se ele disser “impossível”, então segure firme nele e diga: Ok, você está fazendo uma afirmação forte e radical.

Uma que é rejeitada por muitos filósofos ateus e teístas. Vamos ver você sustentar essa afirmação. Sim. Cody?

Estudante: Existem outras versões do problema lógico do mal? Às vezes, quando falo com ateus, ouço eles mencionarem coisas como: O jeito que J. L. Mackie defendeu não é a única versão do argumento lógico. Ou são todas basicamente a mesma coisa?

Dr. Craig: Acho que basicamente todas se resumem às mesmas considerações. Existe um argumento do mal gratuito no mundo. Ou seja, tudo bem, Deus e o sofrimento, ou Deus e o mal são consistentes. Isso é logicamente possível. Mas não é logicamente possível que Deus coexistisse com o mal desnecessário e sem propósito no mundo. Dado o mal desnecessário e sem propósito no mundo, é impossível que Deus exista. Mas veja, então, o cristão não está comprometido com a verdade de que existe mal sem propósito e desnecessário. Como eu disse antes, o cristão está comprometido com o fato de Deus ser todo-poderoso e totalmente bom, e com a realidade do mal.

Ele está comprometido com esses pontos. Então, se o ateu puder mostrar uma inconsistência entre esses pontos, haveria uma contradição interna em nossa cosmovisão. Mas nós não estamos comprometidos, como cristãos, com a visão de que existe mal gratuito no mundo, que existe mal sem propósito e desnecessário. Portanto, o ateu teria que apresentar algum bom argumento para isso, e isso então nos lança diretamente na versão evidencial do problema. Algum outro comentário sobre a versão lógica?

Estudante: Eu pensei que Deus e o mal têm que coexistir porque o propósito de Deus é nos atrair para ele. Assim como luz e escuridão, se uma planta precisa de luz, ela será atraída para a luz. Nós somos atraídos para Deus apenas quando experimentamos a escuridão.

Dr. Craig: Cuidado. Você não gostaria de dizer que nossa existência é logicamente necessária, certo? Que você e eu temos que existir. Você não gostaria de dizer isso – que Deus teve que criar você e eu.

Estudante: Mas Deus criou, certo?

Dr. Craig: Certo! [risos] Ele criou, mas ele não precisava. Então, se a nossa existência – se a existência dos seres humanos – não é logicamente necessária então não é logicamente necessário que o sofrimento e o mal humanos existam. Porque não precisava haver seres humanos. O que você está falando é, no máximo, uma espécie de necessidade condicional de que, se Deus criou seres humanos, então precisaria haver mal e sofrimento. Mas isso não é uma necessidade absoluta. Não há nenhuma necessidade de que ele precisasse criar seres humanos desde o início. Eu ainda contestaria essa necessidade condicional. Como eu disse antes, não acho que, como cristãos, queiramos dizer que a existência do livre arbítrio implica que o mal exista.

Acho que, de fato, por haver livre arbítrio, existe mal, mas não há nada logicamente impossível sobre um mundo onde Deus dá às criaturas livre arbítrio e elas sempre escolhem o certo. Elas não seriam fantoches ou robôs, elas apenas sempre escolheriam livremente fazer a coisa certa. Isso é o que levou alguém como J. L. Mackie a pensar que então um Deus todo-poderoso deveria ter criado aquele mundo. É um mundo logicamente possível, ele poderia ter criado aquele mundo. O que ele não percebeu é a distinção entre um mundo possível e um mundo viável. Esse mundo pode ser logicamente possível em si mesmo mas pode não ser viável para Deus porque, se ele tentasse criar essas pessoas, elas de fato errariam e resultariam em mal no mundo.

Estudante: Quando Jesus morreu, ele ofereceu salvação. É possível que todos nós – como os novos céus e a nova Terra – é possível, mas não necessário. Mas ele plantou essa semente para que essa possibilidade pudesse se realizar. Deus criou o mal para que o bem (eventualmente) fosse aceito e realizado.

Dr. Craig: Eu certamente quero concordar com você que Deus usa o mal e o sofrimento como um meio de trazer pessoas para o seu Reino, para conhecê-lo. Mas da forma como você afirmou inicialmente, não acho que queiramos dizer que o mal é de alguma forma necessário. Isso é um resultado contingente da liberdade das criaturas, de criaturas que usam mal seu livre arbítrio para causar o mal. Mas não é algo que seja logicamente necessário, eu diria.

Transição para a versão evidencial

Agora, a falência da versão lógica do problema do mal não significa que estamos livres do problema. Porque ainda temos a versão evidencial ou probabilística do problema do mal. Este ainda é um tema bastante atual que é debatido hoje. Vocês vão se lembrar que a alegação ateísta aqui é que, dado o sofrimento e o mal no mundo, é improvável que Deus exista. É altamente improvável que Deus pudesse ter boas razões para permitir o sofrimento no mundo. Então, mesmo que isso seja possível, ainda assim é altamente improvável. Muito do sofrimento no mundo parece ser sem propósito e desnecessário, certamente Deus poderia ter criado um mundo com tanto bem quanto este, mas com um pouco menos de sofrimento.

Portanto, o sofrimento no mundo fornece evidências de que Deus não existe. Agora, esta é uma versão muito mais poderosa do problema do mal. Porque a conclusão é mais modesta, o ônus da prova que ela impõe ao ateu é muito menor. Aqui o ateu não precisa provar que é impossível que Deus e o mal coexistam, mas apenas que é improvável, dado o mal e o sofrimento no mundo, que Deus exista. E como essa conclusão estabelece um padrão mais baixo, o ônus da prova que o ateu carrega é muito mais leve. Precisaremos examinar da próxima vez como podemos responder a essa versão evidencial ou probabilística do problema do mal.

Pedidos e oração final

Vamos encerrar agora com uma palavra de oração. E ao fazermos isso, queremos orar por nossa mãe da classe, Marion, que esteve entrando e saindo do pronto-socorro esta semana, e aparentemente está sendo levada novamente ao pronto-socorro hoje. Ela está com a pressão arterial muito alta e vertigem, e, com certeza apreciaria nossas orações, especialmente com Harvey passando por cirurgia amanhã. Então vamos lembrá-los ao encerrarmos. Pai, obrigado por tua providência sobre nossas vidas. Por teu amor e pela forma como desejas nosso bem último. Oramos por nosso irmão e irmã, Harvey e Marion neste momento, para que tu possas, ajudar os médicos a diagnosticar com precisão os problemas que ela está enfrentando e encontrar uma solução viável para eles, Senhor, para que tu a livres da vertigem e dos outros sintomas que ela está sentindo.

E a coloques de pé novamente. Assim, entregamos ambos aos teus bons cuidados e proteção em nome de Jesus, Amém.

Aula de William Lane Craig. Publicação original: Reasonable Faith. © 2016 William Lane Craig. Tradução e edição em português: Fé Razoável. Transcrição da versão em português, revisada em 20/10/2026; citações bíblicas conferidas na NAA.