Fé Razoável com William Lane Craig

Doutrina de Deus: Trindade (Parte 2): Três Pessoas Distintas na Divindade

William Lane Craig · Seção 05 / Aula 02 ·

Resumo da equipe Fé Razoável, preparado com auxílio de IA

William Lane Craig reúne passagens do Antigo e do Novo Testamento em favor de um só Deus e de pessoas distintas na Divindade. Examina a relação do Pai com o Filho e o Espírito e começa a apresentar o ensino sobre a divindade de Cristo, destacando a plenitude divina em Colossenses e o uso de Senhor para Jesus.

Um só Deus no Antigo e no Novo Testamento

Acabamos de introduzir o tema da Trindade. Na última vez eu indiquei que, embora a palavra “Trindade” não se encontre nas Escrituras, isso é realmente incidental. A questão é que a doutrina da Trindade é um resumo sistemático dos dados bíblicos que indicam duas coisas: que há um só Deus e que há três pessoas distintas na Divindade. Se esses fatos são verdadeiros, então a doutrina da Trindade é verdadeira. Vamos examinar hoje os dados bíblicos que apoiam essas duas verdades. Primeiro, que há um só Deus. Tanto no Antigo Testamento quanto no Novo Testamento vemos que essa doutrina é ensinada – monoteísmo, há um só Deus. Deuteronômio, capítulo 6, versículo 4: “Escute, Israel, o SENHOR, nosso Deus, é o único SENHOR.” Essa é a confissão fundamental do judaísmo – o chamado shemá. A primeira cláusula dessa confissão é a unicidade de Deus – há um só Senhor. 1 Reis, capítulo oito, versículo 60. Esta é a bênção de Salomão na ocasião da dedicação do templo.

Ele ora, no versículo 60, do capítulo 8: “para que todos os povos da terra saibam que o SENHOR é Deus e que não há outro.” Portanto, não há outro Deus além do Senhor – o Deus de Israel. Isaías, capítulo 45 e versículos 5a e 18. “Eu sou o SENHOR, e não há outro; além de mim não há Deus;” E então no versículo 18: “Porque assim diz o SENHOR, que criou os céus — e ele é o único Deus; que formou a terra e a fez — ele a estabeleceu; ele não a criou para ser um caos, mas para ser habitada: ‘Eu sou o SENHOR, e não há outro.’” Portanto, o Deus de Israel é o único Deus que existe. Não há outro Deus. Em Isaías 44, você encontra longamente uma crítica satírica aos deuses pagãos dos vizinhos de Israel. Em Isaías 44 há essa sátira mordaz à idolatria – como o idólatra entalha um pedaço de madeira, pinta, enfeita, veste a imagem e depois se prostra diante de sua própria criação e diz: Tu és meu Deus, e adora os produtos de suas próprias mãos. Isaías apenas ri disso – zomba disso, de sua tolice.

Israel não se via como tendo apenas um Deus especial – um entre os muitos deuses, esse era o Deus de Israel. Não. O Deus de Israel era o único Deus que existe. Não há outro Deus além do Senhor, além de Javé. No Novo Testamento, os cristãos seguidores de Jesus ensinavam e criam na mesma coisa – há um só Deus. Veja, por exemplo, Marcos 12:29. Jesus é questionado sobre qual é o maior mandamento, e “Jesus respondeu: O principal é: ‘Escute, ó Israel, o Senhor, nosso Deus, é o único Senhor!’” Aqui ele cita o shemá como o mandamento e confissão fundamentais de Israel e afirma o monoteísmo judaico. Da mesma forma, em Romanos 3:29-30a, Paulo também afirma o monoteísmo. Paulo diz: “Ou seria Deus apenas Deus dos judeus? Será que não é também Deus dos gentios? Sim, também dos gentios, visto que Deus é um só,” Assim, novamente, Paulo não concebia o Deus judaico como apenas um entre muitos.

Ele diz que o Deus de Israel é, na verdade, também o Deus dos gentios porque há um só Deus e, portanto, tanto judeus quanto gentios podem ser unidos na adoração do único Deus verdadeiro. Em 1 Coríntios 8:4, tratando do tema da idolatria pagã, Paulo diz: “Quanto a comer alimentos sacrificados a ídolos, sabemos que o ídolo, por si mesmo, nada é no mundo e que não há senão um só Deus.” Esses deuses ídolos não são deuses reais. São frutos da imaginação. De fato, ele diz: não há outro Deus, senão um – o Deus de Israel. 1 Timóteo 2:5: “Porque há um só Deus e um só Mediador entre Deus e a humanidade, Cristo Jesus, homem,” Novamente, Paulo afirma a singularidade de Deus – há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens. Finalmente, em Tiago 2:19, Tiago diz: “Você crê que Deus é um só? Faz muito bem!

Até os demônios creem e tremem.” Portanto, até as forças demoníacas são monoteístas – até os demônios creem que há um único Deus verdadeiro e tremem porque estão sob a ira e a condenação de Deus. Então, para declarar o óbvio, é claro que a Bíblia ensina que há um só Deus, e o Novo e Antigo Testamentos concordam que este é o Deus de Israel.

Discussão sobre monoteísmo e evidência

Alguma discussão ou pergunta sobre isso? Cody. Aluno: Como você certamente sabe, no mormonismo eles acreditam em um número infinito de deuses que são criados um após o outro e isso retrocede ao infinito. Um dos meus versículos favoritos ao conversar com mórmons sobre isso é Isaías 43:10, onde diz explicitamente: “Antes de mim deus nenhum se formou, e depois de mim nenhum haverá.” Certo. Esse é um bom versículo que acho que funciona muito bem com mórmons. Dr. Craig: OK. Excelente! É impressionante as formas que o politeísmo pode assumir, não é? Isso excluiria a ideia de que havia um deus antes do Deus de Israel. Aluno: Na verdade, encontro muito desse material em Isaías – capítulos 43 a 48. Está repleto de todo tipo de versículos que refutam completamente a concepção mórmon de Deus. Dr. Craig: Sim. Essas passagens em Isaías são tão poderosas em suas críticas ao politeísmo e à idolatria. Aluno: Especialmente quando Deus diz: Eu não conheço outro. Dr.

Craig: É, eu não conheço nenhum outro deus. Não há outro além de mim, Ele diz. Ok, Sim? Aluno: Há uma distinção importante que precisa ser feita quanto à forma como a Bíblia aborda o tema de Deus em comparação com como muitas outras pessoas abordam isso. É interessante de certa forma porque, como alguém apontou, a Bíblia considera a existência de Deus como autoevidente. Ela não tenta realmente justificar diretamente a existência de Deus dizendo que Ele existe por isso ou aquilo. Acho isso interessante, no entanto. Muitas pessoas dirão que isso é um raciocínio circular, acreditar que a existência de Deus é autoevidente, mas eu realmente acho que considerar algo como autoevidente não é o mesmo que raciocínio circular. Por exemplo, nós consideramos autoevidente que as pessoas precisam de água para viver porque as pessoas morrem se ficarem mais de alguns dias sem ela. E eu acho que, talvez de forma um pouco menos óbvia, eu diria que a existência de Deus é autoevidente como isso.

Eu realmente gosto da forma como a Bíblia aborda isso. Parece que é o caso com base nas evidências disponíveis. Dr. Craig: Certo, é importante notarmos que a forma como você ilustrou isso – que as pessoas precisam de água para sobreviver – mostra que por autoevidente você quer dizer algo como “é óbvio.” Mas você não quer dizer que é evidente sem evidência. A forma como sabemos que as pessoas não podem sobreviver sem água é porque temos boas evidências para isso – nós as vemos morrer quando não têm líquidos. Não é autoevidente no sentido de que 2+2=4, onde, uma vez que se entende o significado dos termos, não se precisa de nenhuma evidência. É verdade, por assim dizer, por definição. Uma vez que você entende o significado de 2+2 e o significado do termo 4, então isso é autoevidente. Então você não está usando a palavra “autoevidente” nesse sentido matemático. Você está usando de forma mais coloquial, como “é óbvio.” Acho que é isso que as Escrituras ensinam.

Quando você começou sua pergunta, eu pensei no que está escrito em Romanos 1:20. Paulo diz: “Porque os atributos invisíveis de Deus, isto é, o seu eterno poder e a sua divindade, claramente se reconhecem, desde a criação do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que Deus fez. Por isso, os seres humanos são indesculpáveis.” Aqui Paulo diz que a existência de Deus é tornada evidente ou óbvia no mundo criado. Quando olhamos para a criação então é evidente que ela foi formada por um Criador poderoso e eterno, a tal ponto que as pessoas são indesculpáveis por não crer. Acho que você está absolutamente certo ao dizer que Deus se revelou no mundo de tal forma que é óbvio que Ele existe.

O Pai é uma pessoa distinta e é Deus

Certo. Agora, além disso, o próximo ponto é que as Escrituras ensinam que há três pessoas distintas na Divindade. Vamos olhar para cada uma das três pessoas, o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Primeiro, Deus Pai. As Escrituras ensinam que Deus Pai é uma pessoa distinta. Vamos olhar para várias passagens que indicam isso, a começar por Mt 11.27. Aqui Jesus diz: “Tudo me foi entregue por meu Pai. Ninguém conhece o Filho, a não ser o Pai; e ninguém conhece o Pai, a não ser o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar.” Claramente, nesta passagem, Jesus se diferencia como o Filho em relação ao Pai. O Pai e o Filho mantêm uma relação entre si – eles se conhecem, e o Filho revela o Pai. Então, claramente, o Pai é uma pessoa distinta aqui em relação ao Filho, que conhece o Filho, é conhecido pelo Filho e é revelado pelo Filho. Também, Mateus 26:39. Esta é a oração de Jesus no Jardim do Getsêmani pouco antes de sua prisão e julgamento.

Diz: “E, adiantando-se um pouco, prostrou-se sobre o seu rosto, orando e dizendo: ‘Meu Pai, se é possível, que passe de mim este cálice! Contudo, não seja como eu quero, e sim como tu queres.’” Aqui Jesus ora ao Pai e pede para ser poupado deste terrível sofrimento. Mas então ele submete sua vontade à vontade do Pai e diz: Não como eu quero, mas como tu queres. Novamente, mostrando a distinção entre o Pai e o Filho e a submissão do Filho à vontade do Pai. João 14:16-17. Vimos que o Pai e o Filho são pessoas distintas. Agora, em João 14:16-17, vemos a distinção do Pai em relação ao Espírito. No versículo 16 Jesus diz: “E eu pedirei ao Pai, e ele lhes dará outro Consolador, a fim de que esteja com vocês para sempre: é o Espírito da verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê, nem o conhece. Vocês o conhecem, porque ele habita com vocês e estará em vocês.” Aqui temos as três pessoas da Divindade.

O Filho está orando ao Pai para que envie outro Advogado – outro Consolador – e esse será o Espírito. Temos três pessoas distintas aqui. O Pai é distinto tanto do Filho quanto do Espírito. O segundo ponto é que não apenas o Pai é uma pessoa distinta, mas que o Pai é Deus. Novamente, isso é declarar o óbvio. Veja o Salmo 89:26. “Ele me invocará, dizendo: ‘Tu és o meu pai, meu Deus e a rocha da minha salvação.’” Então, uma das metáforas pelas quais Israel concebia o Senhor (o Deus de Israel) era como um Pai celestial. Deus é o Pai dos filhos de Israel. Encontra-se essa concepção de Deus, como Pai, também em outras partes do Antigo Testamento. Por exemplo, Isaías 63:16. “Mas tu és o nosso Pai.

Abraão não nos conhece e Israel não nos reconhece, mas tu, ó SENHOR, és o nosso Pai; nosso Redentor é o teu nome desde a antiguidade.” Aqui Isaías diz que, mesmo que Abraão não nos reconheça (e Abraão era considerado o pai da nação judaica), Israel ou Jacó não nos reconheça como sua descendência, mesmo assim o Senhor é nosso Pai. Deus é o Pai de Israel. No Novo Testamento, é claro, é dessa forma que Jesus apresenta o Deus do Antigo Testamento aos seus discípulos e às pessoas a quem ele ensinava. Mateus 6:9. Esta é a oração do Senhor. Ele diz: “Portanto, orem assim: ‘Pai nosso, que estás nos céus, santificado seja o teu nome;’” Assim, Jesus ensinou seus discípulos a orar a Deus como seu Pai celestial e a considerar Deus como seu Pai. Portanto, as Escrituras ensinam que Deus Pai é distinto do Filho e do Espírito, e que o Pai é Deus. Ele é o Deus do Antigo Testamento.

De fato, essa palavra “Deus” no grego, ho theos, literalmente significando “o Deus” o artigo ho é o artigo definido masculino, geralmente, no Novo Testamento, refere-se a Deus Pai. Quando os autores do Novo Testamento falam sobre Deus (ho theos), estão falando sobre o Pai. Por exemplo, a saudação costumeira de Paulo em suas cartas era algo como: “Graça a vós e paz da parte de Deus Pai, e do nosso Senhor Jesus Cristo.” Assim, o Pai é identificado com Deus – Deus o Pai. Compare com o que Paulo diz em Gálatas 4:4-6. “Mas, quando chegou a plenitude do tempo, Deus enviou o seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei, para resgatar os que estavam sob a lei, a fim de que recebêssemos a adoção de filhos. E, porque vocês são filhos, Deus enviou o Espírito de seu Filho ao nosso coração, e esse Espírito clama: ‘Aba, Pai!’” Aqui, novamente, todas as três pessoas da Divindade são mencionadas. Quando diz que “Deus” enviou seu Filho, “Deus” enviou o Espírito, isso significa Deus Pai.

Isso é claro porque o Espírito nos ensina a clamar a Deus: Aba, Pai! Assim, “Deus” no Novo Testamento tipicamente se refere à pessoa do Pai. Mas então diz que o Pai envia o Filho (que é Jesus) e depois também envia o Espírito de seu Filho aos nossos corações, pelo qual clamamos: Aba, Pai! É muito interessante ler o Novo Testamento sob essa ótica. Quando você lê algo sobre Deus, normalmente está falando sobre Deus Pai. Alguma pergunta sobre esse primeiro ponto, que o Pai é uma pessoa distinta, e o Pai é Deus?

O Filho é distinto do Pai e do Espírito

Vamos ao segundo ponto, que é o Filho (ou Jesus Cristo). Novamente, as Escrituras indicam tanto que o Filho é uma pessoa distinta como também que o Filho é Deus. Primeiro, vamos olhar para alguns versículos que indicam que o Filho é uma pessoa distinta do Pai. Marcos 1:9-11. Esta é a cena do batismo de Jesus. Marcos diz: “Naqueles dias, Jesus veio de Nazaré da Galileia e foi batizado por João no rio Jordão. Logo ao sair da água, Jesus viu os céus se abrindo e o Espírito descendo como pomba sobre ele. Então veio uma voz dos céus, que dizia: ‘Tu és o meu Filho amado, em ti me agrado.’” Aqui temos as três pessoas da Divindade mencionadas. O Filho é batizado por João Batista, o Espírito desce sobre ele, e então o Pai, do céu, diz: “Tu és o meu Filho amado, em ti me agrado.” Então o Filho é claramente distinto tanto do Espírito quanto do Pai nesta passagem. João 17:1-5. Esta é a grande oração intercessória de Jesus pela igreja.

“Depois de dizer essas coisas, Jesus levantou os olhos ao céu e disse: ‘Pai, é chegada a hora. Glorifica o teu Filho, para que o Filho glorifique a ti, assim como lhe deste autoridade sobre toda a humanidade, a fim de que ele conceda a vida eterna a todos os que lhe deste. E a vida eterna é esta: que conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste. Eu te glorifiquei na terra, realizando a obra que me deste para fazer. E agora, ó Pai, glorifica-me contigo mesmo com a glória que eu tive junto de ti, antes que houvesse mundo.’” Claramente aqui Jesus está orando a outra pessoa. Ele não está falando consigo mesmo. Ele está orando ao Pai e pedindo que o Pai seja glorificado no Filho e falando sobre como o Filho glorificou o Pai enquanto estava neste mundo. Temos aqui uma clara distinção entre o Pai e o Filho. Os capítulos 16 e 17 de João, em geral, claramente falam das três pessoas da Divindade.

Se você quiser ler essas passagens (16 e 17) por conta própria, verá repetidamente a distinção entre o Pai, o Filho e o Espírito. Vamos olhar João 7:39 para a distinção em relação ao Espírito Santo. Aqui Jesus cita a Escritura: “Quem crer em mim, como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva.” E então João diz: “Isso ele disse a respeito do Espírito que os que nele cressem haviam de receber; pois o Espírito até aquele momento não tinha sido dado, porque Jesus ainda não havia sido glorificado.” Então a distinção entre o Espírito e o Filho está claramente traçada aqui, porque o Filho estava com eles, mas o Espírito não. O Espírito era alguém que eles receberiam no futuro, depois que Jesus tivesse se afastado deles e tivesse sido glorificado. Então, embora o Filho estivesse presente com eles, o Espírito ainda não estava presente com eles da forma como estaria em sua plenitude. O Espírito e o Filho são distinguidos entre si pessoalmente. Finalmente, João 16:7.

Jesus diz: “Mas eu lhes digo a verdade: é melhor para vocês que eu vá, porque, se eu não for, o Consolador não virá para vocês; mas, se eu for, eu o enviarei a vocês.” Aqui Jesus está falando daquele outro Consolador ou Advogado que o Pai enviaria. Mais uma vez, ele distingue essa pessoa de si mesmo: Enquanto eu estiver aqui convosco, o Consolador não virá; mas quando eu for, então o Consolador (o Espírito da verdade) será enviado para estar convosco e em vós. Assim, Jesus distingue a si mesmo do Espírito de Deus que viria depois dele. Então, no Novo Testamento, temos o Filho como uma pessoa distinta do Pai e do Espírito Santo.

A divindade de Cristo: plenitude e senhorio

Em segundo lugar, essa pessoa também é Deus. O Filho é Deus. Imediatamente isso levanta um problema. Se "ho theos" se refere ao Pai, então como você pode dizer que Jesus é Deus sem implicar que ele é o Pai, o que os escritores do Novo Testamento não queriam fazer? Eles não criam que o Pai se encarnou e morreu na cruz! Ou que de alguma forma o Pai já não está no céu. Então como poderiam os escritores do Novo Testamento afirmar a divindade de Cristo sem dizer ou implicar que ele é o Pai? O que você descobre é que os autores do Novo Testamento se esforçaram ao máximo para afirmar a divindade de Cristo sem dizer que ele é Deus Pai. Um excelente livro introdutório sobre isso é de Michael Green, *The Truth of God Incarnate*. Green faz um excelente trabalho ao mostrar até que ponto os escritores do Novo Testamento foram para afirmar, de maneiras muito criativas, a divindade de Cristo sem dizer que Jesus é "ho theos", o que seria dizer que ele é o Pai.

É precisamente por isso que você não encontra esse tipo de afirmações diretas no Novo Testamento, “Jesus é Deus.” Porque dizer “Jesus é ho theos” seria dizer que Jesus é o Pai, e isso não é o que os autores do Novo Testamento queriam dizer. Então eles encontraram todas as outras formas concebíveis de expressar a divindade de Cristo sem simplesmente dizer, de maneira direta, que Jesus é "ho theos". Vamos olhar algumas dessas maneiras pelas quais os autores do Novo Testamento afirmam a divindade de Cristo. Primeiro, Colossenses 1:15-19 e também 2:9. Como pano de fundo da carta aos Colossenses, Paulo está lidando aqui com uma espécie de gnosticismo incipiente (ao que parece) em Colossos. Os gnósticos criam que o reino espiritual é bom e o reino material é mau. Portanto, sendo Deus plenamente bom, ele não pode ter qualquer tipo de contato ou relacionamento com o mundo material, porque isso o contaminaria com o mal.

Então os gnósticos desenvolveram esse sistema no qual Deus, em sua plenitude e pureza, é completamente distinto e separado do mundo. Mas dele emergem, de forma descendente em degraus, seres quase-divinos que mediam progressivamente entre Deus e o mundo material. Uma espécie de materialização crescente à medida que se desce esses degraus. O que Paulo diz em Colossenses 1:15-19 e 2:9 é que essa separação entre Deus e o mundo é totalmente equivocada. Paulo diz que toda a plenitude da divindade – aquela pura substância divina – habita em Cristo na carne, em forma corporal. Vamos ler Colossenses 1:15-19. Ele diz a respeito de Cristo: “Ele é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação. Pois nele foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dele e para ele. Ele é antes de todas as coisas. Nele tudo subsiste.

Ele é a cabeça do corpo, que é a igreja. Ele é o princípio, o primogênito dentre os mortos, para ter a primazia em todas as coisas. Porque Deus achou por bem que, nele, residisse toda a plenitude” Aqui Paulo diz que essa plenitude da Divindade habita em Jesus Cristo. Depois, em 2:9, ele diz ainda mais claramente: “Porque nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade.” Isso é totalmente anti-gnóstico. A plenitude da divindade habita corporalmente em Cristo. Essa é uma afirmação sobre a divindade de Cristo que é, eu acho, uma das mais fortes do Novo Testamento. Jesus Cristo é literalmente Deus encarnado. Ele é a plenitude da divindade habitando corporalmente neste mundo – literalmente Deus encarnado. Em segundo lugar, os autores do Novo Testamento usaram o nome de Deus do Antigo Testamento em grego – *kyrios* – para Jesus.

No Antigo Testamento, o nome de Deus – Javé – foi traduzido na Septuaginta grega (que é a tradução grega do Antigo Testamento) como *kyrios*. que significa “Senhor”. Então, Senhor ou *kyrios* traduz o nome de Deus no Antigo Testamento – Javé. Os escritores do Novo Testamento chamam Jesus de “Senhor” (*kyrios*) e então aplicam a ele passagens do Antigo Testamento sobre Javé! Portanto, embora não se refiram a Jesus como *ho theos* (o que o faria ser o Pai), eles de fato se referem a Jesus como *kyrios* (Senhor) e aplicam a ele passagens do Antigo Testamento sobre Javé. Veja, por exemplo, Romanos 10:9,13. Paulo diz: “Se com a boca você confessar Jesus como Senhor e em seu coração crer que Deus o ressuscitou dentre os mortos, você será salvo.” Aqui está essa confissão fundamental da igreja do Novo Testamento – Jesus é o Senhor. Jesus é *kyrios*. Então, no versículo 13, a prova vem do Antigo Testamento.

Citando Joel 2:32: “Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo.” Eles pegam essa passagem do Antigo Testamento sobre Javé – o Deus do Antigo Testamento – e aplicam a Jesus e dizem que todo aquele que confessa que Jesus é o Senhor será salvo. Essa era a confissão mais importante na igreja do Novo Testamento. Veja 1 Coríntios 12:13. Não. Deixe-me ver. Doze três. Desculpe. 1 Co 12:3: “Por isso, quero que entendam que ninguém que fala pelo Espírito de Deus afirma: ‘Anátema, Jesus!’ Por outro lado, ninguém pode dizer: ‘Senhor Jesus!’, senão pelo Espírito Santo.” Veja também 1 Coríntios 16:22, onde Paulo diz: “Nosso Senhor, vem". O termo grego ali é *maranatha*. Maranata, é uma transliteração para o grego da frase aramaica “marana tha”, que significa: “Nosso Senhor, vem!” Essa é a linguagem da igreja do Novo Testamento em oração. Ela remonta diretamente ao aramaico falado pelos primeiros seguidores de Jesus em Jerusalém.

E eles oravam a Jesus como Senhor, orando: “Nosso Senhor, vem!” Então aqui você tem a linguagem original da comunidade de Jerusalém orando a Jesus como Senhor – o nome de Deus no Antigo Testamento. Acho que você pode ver como é ingênuo quando alguém diz que o Novo Testamento não diz que Jesus é *ho theos* ou é Deus. O que ele diz é: Jesus é *kyrios*, que é o Senhor – Javé – no Antigo Testamento.

Um só Deus e um só Senhor

Uma última passagem que quero compartilhar com vocês antes de terminarmos, é 1 Coríntios 8:6. Essa diferenciação entre *ho theos* e *kyrios* leva a algumas circunlocuções bem estranhas no Novo Testamento. Veja 1 Coríntios 8:6. “para nós, porém, há um só Deus, o Pai, de quem são todas as coisas e para quem existimos, e um só Senhor, Jesus Cristo, por meio de quem todas as coisas existem e por meio de quem também nós existimos.” Aqui o Senhor e Deus são diferenciados. Há um só Deus, ou seja, o Pai, mas um só Senhor, Jesus Cristo, e então ambos são descritos em termos praticamente idênticos. Eles são aqueles por quem tudo existe. A base de todo o ser. Ambos são Deus mas são pessoas diferentes. Um é chamado de Pai, o outro é *kyrios*. Então reflitam sobre isso durante a semana até nos encontrarmos na próxima vez e falarmos sobre outras formas criativas pelas quais os autores do Novo Testamento afirmam a divindade de Cristo. Vamos encerrar com uma oração.

Pai, muito obrigado por tua palavra e pela forma como ela guia e esclarece nosso pensamento sobre ti. Nós a valorizamos, a amamos e aprendemos alegremente com ela. Guia-nos ao longo desta semana e ajuda-nos a viver vidas agradáveis a ti por meio de Jesus Cristo, nosso Senhor. Amém.

Aula de William Lane Craig. Publicação original: Reasonable Faith. © 2016 William Lane Craig. Tradução e edição em português: Fé Razoável. Transcrição da versão em português, revisada em 20/10/2026; citações bíblicas conferidas na NAA.