Resumo da equipe Fé Razoável, preparado com auxílio de IA
William Lane Craig conclui o panorama histórico com as três pessoas da Trindade e a contribuição dos pais capadócios. A aula distingue a Trindade ontológica da econômica e introduz o problema lógico da Trindade, ligado à transitividade da identidade, propondo entender a divindade do Pai e do Filho como predicação.
O credo e seu vocabulário
Na última vez em que estivemos juntos, examinamos com algum detalhe o Credo Niceno. Acho que, ao começarmos hoje, seria útil lê-lo mais uma vez para refrescar nossa memória antes de prosseguirmos. "Cremos em um só Deus, o Pai Todo-Poderoso, criador de todas as coisas, visíveis e invisíveis; E em um só Senhor Jesus Cristo, o Filho de Deus, gerado do Pai, unigênito, isto é, da substância do Pai, Deus de Deus, Luz de Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado, da mesma substância do Pai, por meio de Quem todas as coisas vieram a existir, coisas no céu e coisas na terra. Que por causa de nós, homens, e por causa da nossa salvação, desceu e se encarnou, tornando-se homem, sofreu e ressuscitou ao terceiro dia, subiu aos céus, e virá para julgar os vivos e os mortos.
E no Espírito Santo. Mas quanto àqueles que dizem ‘houve quando ele não era’ e ‘antes de nascer ele não era’ e que ‘ele veio à existência do nada’ ou que afirmam ‘o Filho de Deus é de uma hipóstase ou substância diferente, ou é criado, ou está sujeito a alteração ou mudança’ – estes a Igreja Católica anatematiza." Na semana passada tivemos uma avalanche de terminologia ao discutir esta declaração de credo, e para que você não saia confuso permita-me reduzi-la a apenas alguns termos essenciais que eu acho que você deve adicionar ao seu vocabulário teológico com base no Credo. O primeiro seria a palavra homoousios. Isso vem das palavras gregas homo (que significa “o mesmo”, como em “homogeneizado” ou “homossexual”), e então da palavra grega ousia que significa “substância” ou “essência”.
O Credo declara que o Pai e o Filho (e por implicação o Espírito Santo) são da mesma substância. Eles são a mesma essência. Isto é, o Filho é totalmente divino. Ele não é algum tipo de divindade subordinada ou uma coisa criada, por mais exaltada que seja. Ele é Deus. O Pai e o Filho têm a mesma substância ou essência. E então, a outra palavra, que seria útil para você saber, me escapou da mente. Qual era mesmo a que eu queria destacar dentre todas essas? Sim, era essa. Era essa. Obrigado. Hipóstase, claro. Uma hipóstase é um indivíduo. Significa algo que possui propriedades – um portador de propriedades. Como apontei no Credo Niceno original, a palavra hipóstase é considerada sinônima de substância – ousia ou essência.
É por isso que o Credo tem esse anátema acrescentado condenando qualquer um que diga que o Filho é de uma hipóstase ou substância diferente. Este é o termo que criou tanta controvérsia na igreja oriental porque para os teólogos gregos do Oriente de língua grega, hipóstase não era sinônimo de substância. Eles não tinham o mesmo significado. Hipóstase, como disse, era um indivíduo. Assim, por exemplo, Paulo, Cash e Jim são indivíduos diferentes, mas todos compartilham da mesma natureza – humanidade. Eles são instâncias ou exemplos individuais da mesma substância. Sua substância comum é a humanidade, e eles são homens individualmente diferentes.
É por isso que ao longo daquele quarto século a igreja revisou o Credo de modo que hipóstase e substância fossem não mais considerados sinônimos, e agora a doutrina ortodoxa tornou-se que há de fato três hipóstases – três indivíduos – em uma substância. Isso tornou-se a doutrina ortodoxa da Trindade. Há uma substância – Deus; uma essência divina; então há três indivíduos – três hipóstases – que exemplificam essa essência divina: o Pai, o Filho e o Espírito Santo.
Discussão: a igualdade do Pai e do Filho
Agora, antes de prosseguir, deixe-me apenas ter certeza de que não há perguntas, de natureza abrangente sobre isso. Certo, vamos pegar a pergunta do James aqui. Aluno: Bill, eu só queria fazer uma pergunta de esclarecimento... no último domingo você disse perto do final da aula que o Pai é de certo modo maior que o Filho ou algo nesse sentido. Isso está correto? É isso que você está dizendo? Dr. Craig: Acho que você está se referindo à noção de que o Filho é gerado do Pai. Acho que indiquei (se minha memória não falha) que essa poderia ter sido uma forma pela qual alguém poderia interpretar o versículo onde Jesus diz: “O Pai é maior do que eu.” Porque para esses teólogos, o Pai é uma espécie de fonte da Trindade.
Ele é o único que não é derivado em seu ser. O Filho é gerado do Pai. O Espírito procede do Pai e do Filho. O Espírito e o Filho têm um tipo de ser derivado que o Pai não compartilha. Ele é o único que é não gerado e não derivado. Alguém poderia interpretar isso como uma explicação de por que Jesus disse: “O Pai é maior do que eu”, porque ele procede do Pai. Aluno: Quero contestar isso em um ponto. Estou definindo grandeza em termos de valor. Nesse sentido, não creio que o Pai tenha mais valor do que o Filho nem do que o Espírito Santo. Acredito que todos têm valor igual. Pesquisei sobre isso, e o que vi foi algo que acho que pode ser útil. Basicamente, quando o Pai gerou o Filho, ele não se dividiu, mas ele se distribuiu.
Ele deu uma distribuição plena e infinita de si mesmo a Cristo. E então, é claro, ao Espírito que procede tanto do Pai quanto do Filho. Novamente, você tem essa distribuição plena também no Espírito Santo. Aqui está algo que eu consideraria também digno de ser mencionado. Se você olhar para a narrativa da criação, verá que a mulher é gerada do homem no sentido de que parte do homem é tirada do homem e então Deus a fabrica em uma mulher. Mas no que diz respeito ao valor, mesmo que o homem preceda a mulher, ele não tem mais valor. Absolutamente não. Há completa igualdade ali. Acredito que essa é uma boa analogia para dizer que o Pai e o Filho têm esse mesmo tipo de valor, mesmo que possa haver em termos de autoridade ou algo assim – você tem o Pai enviando o Filho e o Filho e o Pai enviando o Espírito Santo.
Dr. Craig: Eu não estava querendo fazer um juízo de valor com a palavra “maior”. Eu a estava usando mais em um sentido metafísico de que um é derivado e o outro não é derivado. Mas você está absolutamente certo ao dizer que seria um erro afirmar que o Pai tem, por exemplo, perfeição moral e o Filho não. Então, sim, acho que é um bom lembrete. Aluno: Eu explicaria esse versículo dizendo que em sua encarnação “ele era maior do que eu”. Pleroma, acho, é a teoria da plenitude e o quanto Cristo abriu mão – os teólogos debateram isso. De quanto ele abriu mão para a encarnação? Sabemos que ele abriu mão de muita coisa. Ele não era onisciente, por exemplo.
Então em seu estado naquele momento, é claro, “o Pai é maior do que eu.” Mas isso não significa, em essência, que ele é maior do que ele. Dr. Craig: Eu estava dizendo que essa é uma forma pela qual alguém poderia interpretar esse versículo. Mas você está oferecendo outra forma. Na verdade, o que você está falando aí é Cristologia Kenótica baseada em Filipenses 2, onde se diz que Cristo esvaziou-se e assumiu forma humana. Quando chegarmos à doutrina de Cristo, teremos uma seção sobre essa questão da kenosis e se ou não a encarnação envolveu esse tipo de esvaziamento de certos atributos divinos ao se tornar encarnado, como a onisciência, por exemplo.
Então, guarde isso. Isso virá mais adiante. Alguma outra pergunta sobre o Credo Niceno em particular? Dr. Craig: Ou sobre essas duas palavras: homoousios ou hypostasis? Aluno: Apenas algumas perguntas para esclarecimento. Homoousios é o mesmo. Você pode equiparar isso a Espírito ou vida? Ou há alguma distinção? Dr. Craig: Não, não creio, porque a palavra simplesmente significa “mesma substância” e isso poderia ser aplicado a uma égua e um potro. Uma égua e um potro são da mesma substância porque um é gerado do outro. O termo, embora seja teologicamente útil, em si mesmo não carrega esse tipo de implicações. Poderia ser usado para coisas físicas.
Aluno: Estou pensando onde diz que se Deus retirasse seu Espírito toda carne morreria. E então estou pensando. Dr. Craig: No caso de Deus, imaterialidade e incorporeidade pertencem à substância ou essência divina. Isso é certamente verdade. Lembre-se de quando falamos sobre os atributos de Deus, acredito que um dos atributos de Deus que discutimos foi imaterialidade ou incorporeidade. Deus não é um objeto físico. Nesse aspecto acho que o cristianismo ortodoxo difere do mormonismo, por exemplo, que concebe Deus ou os deuses como objetos físicos de forma humana. Então isso é verdade. Mas o termo em si não significa imaterial ou espiritual. Certo, alguma outra pergunta ou comentário antes de prosseguirmos?
As três pessoas e os pais capadócios
Agora a pergunta é: se há três hipóstases, todas exemplificando a natureza divina, o que são elas? A opinião unânime por parte dos teólogos ortodoxos é que são pessoas. Três pessoas. Costuma-se dizer hoje (como mencionei em uma aula anterior) que não devemos ler essa afirmação de que são pessoas de forma anacrônica, importando nela o conceito psicológico moderno de pessoa. E embora esse cuidado possa ser justificado, ainda assim acho que ele precisa ser seriamente qualificado. O que é verdade é que a palavra hipóstase não significa pessoa. Elas não são palavras sinônimas. Hipóstase é um indivíduo – um portador de propriedades. No entanto, quando se fala de uma hipóstase racional então isso realmente se aproxima bastante do conceito moderno de pessoa.
Para Aristóteles, o filósofo grego antigo, a essência ou natureza do homem é capturada pela frase “animal racional.” Essa é a natureza humana. Ele é um animal racional. Temos um corpo animal unido a uma alma racional, e isso nos diferencia dos meros animais. Os animais têm almas segundo Aristóteles, mas lhes falta racionalidade. Eles têm uma espécie de alma de ordem inferior que não tem racionalidade. Então é essa propriedade da racionalidade que serve para distinguir os seres humanos dos outros animais. Assim, uma hipóstase racional é algo a que você só pode se referir como pessoa. É uma pessoa. Isso foi fortemente enfatizado pelos pais da igreja capadócios – alguns dos mais importantes dos pais da igreja pós-nicenos.
A Capadócia fica no centro da Turquia hoje. Se algum dia tiver a chance de visitar a Capadócia, vá sem hesitar. É outro mundo essa antiga região no centro da Turquia. Entre os pais capadócios estavam pessoas como Gregório de Nissa e Gregório Nazianzeno. Havia dois Gregórios. E então havia Basílio de Cesareia. Esses pais capadócios foram muito enfáticos sobre a natureza pessoal dessas três hipóstases na Divindade. Por exemplo, Gregório de Nissa ilustra a ideia de três hipóstases com uma só natureza apontando para Pedro, Tiago e João. Ele diz que esses são três hipóstases – Pedro, Tiago e João – todos exemplificando a mesma natureza humana. E não sei como você poderia entender isso de outra forma senão dizendo que são três pessoas que compartilham da mesma natureza humana.
Além disso, eles atribuem às três hipóstases divinas propriedades que são constitutivas da personalidade como conhecimento mútuo entre si, amor mútuo e vontade mútua. Eles enfatizam que essas três pessoas estão sempre em concordância, sempre em harmonia, entre si, e por isso não podem ser separadas nem discordar entre si. Mas, ainda assim, elas são caracterizadas por conhecimento, amor e vontade mútuos. Gregório Nazianzeno se orgulha de que, ao contrário dos modalistas, ele diz que adoramos o Pai e o Filho e o Espírito Santo, uma só Divindade – Deus o Pai, Deus o Filho e Deus o Espírito Santo. Uma natureza em três personalidades – intelectuais, perfeitas, autoexistentes, numericamente distintas, mas não separadas na Divindade.
A atribuição de propriedades pessoais a esses três indivíduos na Divindade é especialmente evidente na forte ênfase dos pais capadócios sobre a plena igualdade do Espírito Santo com o Pai e o Filho. Você nota que no Credo Niceno o Espírito Santo é pouco mencionado. Tudo o que diz é “e no Espírito Santo” – nós cremos nele também. Mas os pais capadócios enfatizaram que, assim como o Filho, o Espírito Santo é uma hipóstase divina. Basílio, por exemplo, diz que o Espírito Santo não é apenas incorpóreo, puramente imaterial e indivisível, mas, “Somos compelidos a elevar nossos pensamentos e a pensar em um ser inteligente ilimitado em poder.” Assim, o Espírito Santo é um ser inteligente ilimitado em poder.
Ele cita 1 Coríntios 2:11 onde Paulo diz: “quem conhece as coisas do ser humano, a não ser o próprio espírito humano, que nele está?” Ele compara o Espírito Santo ao espírito humano que está em cada um de nós. E ele diz que em sua obra santificadora o Espírito Santo torna as pessoas espirituais ao trazê-las à comunhão consigo mesmo. Assim, esses pais capadócios teriam resistido fortemente a qualquer tentativa de despersonalizar o Espírito Santo e torná-lo algum tipo de força divina impessoal. Acho que é evidente que a intenção deles era afirmar que há realmente três pessoas em um sentido psicológico rico no único Deus. Assim, enquanto o modalismo afirmava a deidade igual das três pessoas às custas de sua distinção, e o arianismo afirmava sua distinção às custas de sua deidade igual, o cristianismo ortodoxo mantinha tanto a deidade igual quanto a distinção pessoal das três pessoas.
Além disso, eles fizeram isso sem abandonar seu compromisso com o monoteísmo. Existe apenas um Deus que é três pessoas – Pai, Filho e Espírito Santo.
Discussão: Trindade ontológica e econômica
Algum comentário ou pergunta sobre isso? Sim, Jim. Aluno: [inaudível] Dr. Craig: Acho que é um contraste útil. O modalismo afirmava a deidade igual das três pessoas mas às custas de sua distinção pessoal. Lembre-se de que ele reduzia as pessoas a apenas uma visão unitária de Deus. O modalismo afirmava a deidade igual das pessoas mas às custas de sua distinção pessoal. Por contraste, o arianismo afirmava a distinção pessoal das três pessoas – o Pai, o Filho não são a mesma pessoa no arianismo – mas às custas de sua deidade igual. Apenas o Pai é Deus. O Filho é uma criatura criada por mais grandiosa ou exaltada que seja. O modalismo afirmava a deidade igual às custas da personalidade distinta.
O arianismo afirmava a personalidade distinta às custas da deidade igual. E a ortodoxia mantinha tanto a deidade igual quanto a distinção pessoal das três pessoas, e tudo isso ainda afirmando o monoteísmo – que há um só Deus. Aluno: Vou propor uma hipótese funcional. Para relacionar um ser espiritual (Deus) a um ser físico (homem), pensei que a divindade pode exercer um papel funcional muito claro em tal relacionamento onde Jesus é a forma visível do Deus invisível, e o Espírito Santo é a forma invisível do homem visível. E por meio disso, o relacionamento é possível. Dr. Craig: Certo, então o que você está falando é um tipo de Trindade funcional enquanto o que temos discutido até agora é uma Trindade ontológica.
Talvez seja uma distinção útil a se fazer neste ponto. A Trindade ontológica seria a maneira como Deus é em si mesmo, e essa Trindade funcional da qual você está falando é frequentemente chamada de Trindade econômica. Ou seja, quais são os diferentes papéis ou funções que as pessoas exercem na economia do plano de salvação. Claramente a Trindade econômica é bastante diferente da Trindade ontológica. Na Trindade ontológica as pessoas são todas iguais, mas na Trindade econômica o Filho é subordinado ao Pai. O Pai não vem e morre na cruz. O Filho sim. E o Espírito Santo não se proclama, ele proclama o Filho e proclamará apenas o que lhe foi dado proclamar.
Então acho que você está certo em querer diferenciar essas diferentes funções das pessoas da Trindade na Trindade econômica. Mas neste ponto ao menos isso não é nossa preocupação. Ainda estamos tentando entender a Trindade ontológica antes de chegarmos à Trindade econômica, ou aos papéis que possam exercer. Aluno: Em Apocalipse, quando diz que agora ele se tornou seu Pai, essa é a Trindade econômica. Eles mudam de papel? Dr. Craig: Não sei a que passagem você está se referindo. Aluno: Diz, Você o conhecerá como seu Pai – falando de Cristo – e você será seu Filho. Eles estão mudando de papel na Trindade econômica – o Pai e o Filho? Dr. Craig: Não sei, eu teria que olhar isso.
Acho que certamente há maneiras em que o Filho pode ser visto como uma espécie de pai. Mas não acho que o Pai jamais abandone seu papel. Pode ser uma forma mais metafórica de falar do Filho. Aluno: Não ontologicamente. Dr. Craig: Entendo. Você está dizendo funcionalmente. Eu teria que olhar a passagem. Certo. Algum outro comentário?
Conclusão do panorama histórico
Certo. Bem, agora isso conclui o panorama histórico que eu queria fazer com vocês da doutrina da Trindade. Acho que vale mencionar, pelo menos, ao concluirmos esta seção, que vocês podem ver como é enganoso quando certos grupos sectários como as Testemunhas de Jeová ou autores seculares como Dan Brown dizem que no Concílio de Niceia, 325 anos após Cristo, a igreja votou para tornar Jesus divino e votou para adotar a doutrina da Trindade. Isso é uma grosseira deturpação. Desde o princípio – desde a doutrina do Logos dos apologistas gregos – Cristo era considerado divino. Os modalistas afirmavam que ele era divino. Isso não era algum tipo de doutrina tardia que a igreja subitamente votou em Niceia.
O que estavam tentando articular era o relacionamento entre essas três pessoas – o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Mas não é como se fosse uma doutrina tardia que a igreja simplesmente votou para adotar. Desde o princípio Cristo foi afirmado como Deus. Isso está nas páginas do Novo Testamento. A questão era como ele pode ser Deus e não ser o Pai? Como você entende isso? A doutrina da Trindade foi a tentativa da igreja de compreender essa verdade.
O problema lógico da Trindade
Isso nos leva ao problema da Trindade. É essa uma doutrina logicamente compreensível e defensável de que há três pessoas que são um só Deus? Em um nível, o problema parece ser que a doutrina da Trindade parece logicamente incoerente porque a doutrina da Trindade diz que o Pai é Deus, que o Filho é Deus, e ainda assim o Pai não é o Filho. Então, se você disser que o Pai é idêntico a Deus e você disser que o Filho é idêntico a Deus então segue-se da transitividade da identidade que o Pai é idêntico ao Filho. No entanto, isso não está certo. Então, como entender essa ideia de que o Pai é Deus, o Filho é Deus, o Espírito Santo é Deus, e ainda assim o Pai não é o Filho, e o Filho não é o Espírito?
Você tem três pessoas distintas. Alguma dúvida sobre o problema? Entenderam a dificuldade? Basicamente o problema é a transitividade da identidade. Se A é idêntico a B, e B é idêntico a C, então A é idêntico a C. E ainda assim neste caso isso falha. Aluno: Em João 14 que tivemos no sermão de hoje, diz que “eu estou no Pai e que o Pai está em mim”. A igualdade pode ser considerada como o Pai sendo um subconjunto de Deus e Deus um subconjunto do Pai. Isso é na matemática. Dois conjuntos são iguais se ambos são subconjuntos um do outro. Dr. Craig: OK, mas a ideia de subconjuntos não é a mesma coisa que identidade. Vamos pegar o conjunto dos números naturais.
Um subconjunto próprio disso seria o conjunto dos números pares. Mas obviamente esses não são o mesmo conjunto mesmo que um seja subconjunto do outro. Portanto, não podemos evitar esse problema causado por essas relações de identidade por meio de conjuntos e subconjuntos. Aluno: A matemática diz que ambos têm que ser subconjuntos um do outro. Dr. Craig: Os números naturais não são subconjunto dos números pares porque incluem todos os números ímpares. Aluno: Então eles não seriam iguais, mas se fossem subconjuntos um do outro, então seriam. Dr. Craig: Oh. Então você está dizendo que é um subconjunto impróprio. Um subconjunto dos números naturais é justamente os próprios números naturais.
Isso é verdade. Então seriam idênticos. Mas então você realmente não tem dois conjuntos distintos. Você tem o mesmo conjunto. Certo? Aluno: Eu sei. Mas em João 14, o que foi citado hoje na Escritura ele disse: “Mostre-nos o Pai”... “Há tanto tempo estou com vocês”... “e você ainda não me conhece?” “eu estou no Pai e que o Pai está em mim”. Dr. Craig: Sim, certo. Isso ainda deixa a pergunta de como entendemos isso? O que isso significa?
Identidade e predicação
Bem, deixe-me sugerir uma solução proposta. Uma solução é dizer que a Trindade é Deus. Se você quiser fazer uma afirmação de identidade então Deus é idêntico à Trindade. Se alguém perguntar, “Quem ou o que é Deus?” a resposta seria a Trindade. A Trindade é Deus. Essa substância trina é Deus. Mas obviamente a Trindade não é idêntica ao Pai nem idêntica ao Filho porque o Filho é uma pessoa, não três. O Pai é uma pessoa, não três. Então a Trindade não é idêntica às pessoas. Essas pessoas, portanto, não são instâncias da natureza divina de Deus. A Trindade é uma instância da natureza divina. Esse ser tripessoal. É por isso que a Trindade não é um quarto deus além do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
Há apenas um Deus e esse Deus é a Trindade. Agora você pode dizer, mas o Pai, o Filho e o Espírito Santo não são Deus? Você não quer afirmar isso? Não no sentido de uma afirmação de identidade. Quando alguém diz que o Pai é Deus, não se está fazendo uma afirmação de identidade. Quando se diz que o Filho “é” Deus, não se está fazendo uma afirmação de identidade. Na verdade, esse “é” é um “é” de predicação, não de identidade. Por exemplo, se eu digo “Elizabeth é rainha” não estou dizendo que Elizabeth é idêntica à rainha. Estou dizendo que ela ocupa o cargo ou o papel ou o título de rainha. Mas seria possível haver corregentes. Certo? Às vezes isso acontece.
Há mais de um rei ou mais de uma rainha. Então quando dizemos “Elizabeth é rainha” você não está fazendo uma afirmação de identidade; está fazendo uma predicação. Você está predicando ser rainha de Elizabeth. Você está fazendo uma afirmação como esta: “Elizabeth é régia.” Você está dizendo que ela é a rainha nesse sentido. Não uma afirmação de identidade, mas está atribuindo um predicado. Elizabeth é régia. Portanto, quando dizemos que o Pai é Deus, isso é uma forma de dizer que o Pai é divino. Quando dizemos que o Filho é Deus, é uma forma de dizer que o Filho é divino. Você está fazendo uma predicação do Pai e do Filho. Você está predicando plena divindade ao Pai e ao Filho.
Você não está fazendo uma afirmação de identidade. Caso contrário, você teria três deuses. Portanto, propriamente falando, a verdadeira afirmação de identidade seria “a Trindade é Deus.” Quando dizemos que o Pai é Deus, que o Filho é Deus, essas não são afirmações de identidade, mas sim predicações. Elas estão predicando propriedades do Pai e do Filho, ou seja, a propriedade de ser plenamente divino.
Discussão: a identidade de Deus
Algum comentário ou pergunta sobre esse ponto? Sim. Cindy, aqui na frente. Aluno: Nós frequentemente ouvimos na sociedade secular e na inclusão que todos os caminhos levam ao Pai ou a Deus, o Deus de Abraão, o Deus judeu, o hindu, o muçulmano, Alá. Acho que quando usam a palavra nesse sentido de Deus, e eu diria que não é Alá. Não é o mesmo deus. O verdadeiro Deus é o Deus trino. Então não podemos pensar em Deus da mesma forma se você é muçulmano, embora eu ache que a sociedade coloca esse “deus” para cobrir todas as concepções de um ser superior. Dr. Craig: Bem colocado. Ela está absolutamente certa. Há uma espécie de definição de dicionário da palavra “deus.” Seria algo como “o Ser Supremo” ou “a maior realidade.” E nesse sentido você pode falar sobre diferentes deuses genericamente falando.
Mas o que estamos discutindo aqui é num sentido metafísico ainda mais específico, não a definição de dicionário da palavra “deus” em inglês. Queremos dizer, “O que é o ser ou a substância que é idêntico a Deus?” E estou sugerindo que pensemos nisso como a Trindade – a Divindade. Aluno: Eu iria tão longe a ponto de dizer que não acreditamos no mesmo deus. Dr. Craig: Eu também, e já defendi isso por escrito. Aluno: Quando você olha para o conceito judaico de Deus, Yahweh, embora não seja distinguido em três pessoas conceitualmente, acho que nos tempos antigos... você pode comentar sobre Yahweh? Era entendido como três pessoas? Ou apenas monoteísmo?
Dr. Craig: Os judeus não entendiam que havia três pessoas na Divindade. Eles achavam que havia uma pessoa que é Deus. O que esses primeiros judeus cristãos criam era que com base em Jesus na verdade havia uma espécie de, revelação progressiva mais profunda de quem Deus é. E acontece que Deus é de fato três pessoas, desconhecido para seu povo, a quem ele ainda não havia revelado essa verdade. Essa é uma verdade que só é revelada com a vinda de Cristo. Aluno: Então eles adoravam o mesmo Deus mas a revelação de quem ele era em sua totalidade não era conhecida naquele tempo. Dr. Craig: Certo, isso nos leva ao fim do nosso tempo. O que faremos na próxima vez é tentar responder à pergunta: como pode haver três pessoas que são todas divinas – três pessoas divinas – e ainda assim não haver três seres separados?
Três deuses? Como pode haver três pessoas cada uma divina e ainda assim não haver três deuses? É sobre isso que falaremos no próximo domingo.
Bênção final
Vamos encerrar com a bênção. E agora, que o poder de Deus Pai, o amor do Senhor Jesus Cristo e o consolo do Espírito Santo estejam com todos nós. Amém.



