Excurso sobre a Criação da Vida e a Diversidade Biológica (Parte 28): Gênesis 1 Está em Conflito com a Teoria da Evolução?

William Lane Craig · Seção 09 / Aula 28 ·

Resumo da equipe Fé Razoável, preparado com auxílio de IA

Craig distingue mutações aleatórias, no sentido de ocorrerem independentemente da utilidade para o organismo, da afirmação filosófica de ausência de propósito. Com apoio em Ayala, Mayr e Plantinga, defende a compatibilidade dessa definição com a providência divina. A discussão aborda conhecimento médio, intervenções, sofrimento e a diferença entre admitir compatibilidade teológica e afirmar a suficiência científica da teoria evolutiva.

Aleatoriedade e propósito

Na última aula, argumentei que, à parte o criacionismo da Terra jovem e uma interpretação literal de Gênesis 1, simplesmente não há incompatibilidade entre Gênesis 1 e a teoria científica moderna da evolução biológica. As Escrituras nada dizem sobre os mecanismos que Deus poderia ter usado para criar a vida ou produzir a complexidade biológica. Assim, é difícil ver como, à parte a interpretação da Terra jovem, poderia haver alguma incompatibilidade entre o que a Bíblia diz e a teoria evolutiva moderna. Alguns cristãos discordariam disso, pois, segundo a teoria padrão da evolução, as mutações que servem para impulsionar o processo evolutivo são aleatórias e, portanto, não podem ser planejadas nem ocorrer com um propósito.

Mas essa inferência envolve um equívoco fundamental e muito importante sobre o que os biólogos evolutivos querem dizer ao usar a palavra “aleatório”. Quando dizem que as mutações responsáveis pela mudança evolutiva ocorrem aleatoriamente, não querem dizer que ocorrem por acaso ou sem propósito. Se fosse isso, a teoria evolutiva seria enormemente presunçosa, pois a ciência simplesmente não está em condições de dizer, com alguma justificativa, que não há uma direção ou um objetivo divinamente pretendido para o processo evolutivo. Como alguém poderia dizer, com base em evidências científicas, que todo esse sistema não foi estabelecido por um Deus providente para chegar ao Homo sapiens no planeta Terra?

Como um cientista poderia saber que Deus não interveio sobrenaturalmente para causar as mutações cruciais que levaram a importantes transições evolutivas, por exemplo, a transição de réptil para ave? De fato, dado o conhecimento médio divino, nem mesmo essas intervenções sobrenaturais são necessárias para que Deus guie o processo evolutivo, pois Deus poderia saber que, se determinadas condições iniciais estivessem presentes, então, dadas as leis da natureza, certas formas de vida evoluiriam por mutação aleatória e seleção natural. Por isso, ele estabeleceu essas condições iniciais e essas leis, sabendo que a vida evoluiria a partir delas. Obviamente, a ciência não está de modo algum em condições de dizer justificadamente que o processo evolutivo não estava sob a direção providencial de um Deus dotado de conhecimento médio, que decidiu criar a complexidade biológica por meio de mutação aleatória e seleção natural.

Assim, se os biólogos evolutivos usassem a palavra “aleatório” no sentido de “não planejado”, “sem propósito” ou “não guiado”, então a teoria evolutiva seria filosofia, não ciência. Mas o biólogo evolutivo não está usando a palavra “aleatório” nesse sentido.

Ayala, Mayr e a definição científica

Esse fato, ignorado tanto pelos críticos da evolução teísta quanto pelos defensores da evolução naturalista, ficou muito claro para mim durante minha preparação para o debate com o eminente biólogo evolutivo Francisco Ayala sobre a viabilidade do design inteligente na biologia. Segundo Ayala, quando os biólogos evolutivos dizem que as mutações que levam ao desenvolvimento evolutivo são aleatórias, não querem dizer que ocorrem por acaso; querem dizer que ocorrem independentemente de sua utilidade para o organismo. Querem dizer que essas mutações ocorrem independentemente de sua utilidade para o organismo hospedeiro. Isso é extremamente significativo. Apesar da impressão transmitida pelos partidários de ambos os lados, o cientista não está fazendo a afirmação filosófica presunçosa de que as mutações biológicas ocorrem por acaso e, portanto, o processo evolutivo não tem direção nem propósito.

Ele quer dizer, antes, que as mutações não ocorrem em benefício do organismo hospedeiro. Se entendermos “aleatório” como independente de sua utilidade para o organismo, então a aleatoriedade não é incompatível com direção ou propósito. Alvin Plantinga defendeu esse mesmo ponto em seu livro Where the Conflict Really Lies. Segundo Plantinga, não há sequer um conflito superficial entre a biologia evolutiva e o teísmo. Plantinga censura cientistas que afirmam de maneira imprudente que, segundo a biologia evolutiva, o processo evolutivo não tem direção, propósito ou orientação. Essas afirmações, diz ele, não fazem propriamente parte da teoria biológica em si; são, antes, o que ele chama de um acréscimo filosófico, isto é, uma afirmação extracientífica.

Em apoio a esse ponto, Plantinga cita o proeminente biólogo evolutivo Ernst Mayr, que diz o seguinte: “Quando se diz que a mutação ou a variação é aleatória, a afirmação significa simplesmente que não há correlação entre a produção de novos genótipos e as necessidades de adaptação de um organismo em determinado ambiente.” Não há correlação entre as mutações e as necessidades do organismo hospedeiro de se adaptar ao ambiente. É a mesma definição dada por Ayala: elas ocorrem independentemente de seu benefício para o organismo hospedeiro. Essa definição de “aleatório” é plenamente compatível com Deus querer, ou mesmo causar, a ocorrência de mutações com determinado fim em vista.

Vou dar um exemplo. Suponha que Deus, em sua providência, faça ocorrer uma mutação em um organismo, não em benefício desse organismo, mas por algum outro motivo. Por exemplo, talvez isso produza presas fáceis para outros organismos que Deus queira que prosperem. Ou talvez porque ele saiba que esse organismo acabará se tornando um fóssil que Jones descobrirá um dia, despertando o interesse de Jones pela paleontologia, de modo que ele siga a carreira que Deus tinha em mente para ele. Nesse caso, a mutação tem propósito e é aleatória ao mesmo tempo.

Liberdade para seguir as evidências

Assim, a menos que adotemos uma interpretação literal de Gênesis 1, o que, como argumentei, não é obrigatório para nós, não há conflito entre a Bíblia e a biologia evolutiva padrão. Isso significa, portanto, que o cristão é livre para seguir as evidências aonde elas levarem. E, nesse aspecto, o cristão de fato desfruta de uma vantagem sobre o ateu. Como disse Plantinga, para o ateu, a evolução é a única opção disponível. Assim, o biólogo naturalista Richard Lewontin admitiu: “Ficamos do lado da ciência apesar do absurdo patente de algumas de suas construções, apesar da tolerância da comunidade científica a histórias ad hoc sem fundamento, porque temos um compromisso prévio, um compromisso com o materialismo.

Não é que os métodos e as instituições da ciência de algum modo nos obriguem a aceitar uma explicação material do mundo fenomênico. Ao contrário, somos forçados por nossa adesão a priori às causas materiais a criar um aparato de investigação e um conjunto de conceitos que produzam explicações materiais, por mais contraintuitivas que sejam, por mais desconcertantes para os não iniciados.” Assim, como diz Plantinga, para o materialista, para o naturalista, a evolução é a única opção disponível, sejam quais forem as evidências, por mais absurdos que sejam os resultados. Mas o cristão não está tão limitado e, por isso, pode de fato ter uma mente mais aberta e ser mais objetivo que o ateu ao seguir as evidências aonde elas levarem.

Discussão sobre evolução e providência

Algum comentário ou pergunta sobre o papel da mutação aleatória na teoria evolutiva?

Aluno: Entendo o que o senhor está dizendo: é essencialmente a mão de Deus guiando a teoria evolutiva. Como isso explica a explosão cambriana, em que surgiu de uma só vez um grande número de novas espécies, quando havia uma lacuna entre as espécies anteriores e as novas?

Dr. Craig: A explosão cambriana é, na verdade, a origem dos filos, uma categoria de classificação dos seres vivos superior às espécies. Temos espécies, gêneros, ordens e famílias. Os filos seriam a categoria mais ampla. Como indica quem fez a pergunta, uma das coisas surpreendentes nessa chamada explosão cambriana é que, na verdade, existiam mais filos naquela época do que existem hoje. Não é como se outros filos tivessem evoluído; muito pelo contrário, houve uma redução dos filos que existiam na explosão cambriana. Hoje existem menos, não mais. Portanto, a pergunta é: qual é a origem desses filos na explosão cambriana?

Não encontramos esse tipo de antecessores fossilizados dessas criaturas. O que estou sugerindo é que oferecer qualquer tipo de explicação científica para isso é plenamente compatível com a Bíblia. Se você quiser dizer que isso ocorreu por meio de mutações extraordinárias em organismos pré-cambrianos, isso não é passível de objeção teológica. Poderia ser passível de objeção científica. Não estamos nos pronunciando sobre isso. Mas, teologicamente, não haveria objeção. Ou você poderia dizer que Deus, com seu conhecimento médio, estabeleceu as condições e as leis da natureza, sabendo que isso aconteceria e, portanto, tudo foi supervisionado e planejado por Deus. Ou poderia dizer que Deus de fato interveio naquele momento, o que, penso eu, talvez seja o que você estava sugerindo.

Que isso representa uma ação milagrosa e sobrenatural no processo evolutivo que produziu todos esses novos filos. Essa também é uma opção. Como digo, penso que o cristão, teologicamente, pode estar aberto a todas elas. Mas, obviamente, o naturalista não pode, pois só dispõe de causas materiais.

Aluno: Acho que entendo o que o senhor está dizendo. Não sei se concordo que a maioria dos darwinistas não usa “aleatório” no sentido de realmente aleatório. Acabei de consultar um artigo na internet em que Jay Richards, um antievolucionista que escreveu vários livros, responde diretamente ao livro Where the Conflict Really Lies, de Alvin Plantinga. Em sua resenha, ele diz: “Para Darwin e a maioria dos darwinistas, de fato, aleatório não significa apenas sem correlação com um mecanismo físico que atua em favor dos organismos. As mutações aleatórias certamente têm alguma causa, mas essa causa, na visão darwiniana, é cega, não guiada e sem propósito.”

Dr. Craig: Discordo de Jay quanto a isso. Eu o conheço. O ponto que Plantinga está defendendo é que, sejam quais forem as declarações descuidadas ou imprudentes dos biólogos evolutivos, eles estão fazendo afirmações extracientíficas que não fazem propriamente parte da teoria. Acho que, nesse caso, Ayala e Mayr têm sido melhores guias sobre o que faz parte da teoria científica. Acho que a plausibilidade da afirmação de Ayala e Mayr é reforçada pelo fato de que, se esses cientistas estivessem fazendo esse tipo de afirmação, então, como digo, isso seria completamente presunçoso. Seria fazer metafísica ou filosofia, não ciência. Assim, parece bastante implausível que Jay Richards esteja certo ao dizer que isso faz parte da teoria, em vez de serem declarações imprudentes e injustificadas feitas por biólogos evolutivos.

Aluno: O senhor mencionou que Deus produz algo como uma mutação que talvez não ajude o hospedeiro, mas ajude outros, por exemplo, tornando-o uma presa mais fácil. Achei que esse seria um aspecto interessante do lado filosófico do problema do mal e do sofrimento. Agora temos: certo, esta é uma resposta para isso. Isso pode torná-los presas mais fáceis, mas acaba beneficiando a comunidade mais ampla.

Dr. Craig: Essa questão do envolvimento de Deus no processo evolutivo é uma questão enorme na teodiceia, ou no problema do mal e do sofrimento, pois temos esses milhões e milhões de anos de uma natureza com dentes e garras ensanguentados, como se costuma dizer, em que o desenvolvimento evolutivo pressupõe esse tipo de sobrevivência do mais apto e de competição pela sobrevivência, implacável e impiedosa no âmbito natural. Essa é uma questão que não estou abordando neste momento. Já falamos do problema do mal em outra ocasião. Mas você tem razão: é nesse ponto que haveria essa ligação. Isso sugeriria que Deus poderia produzir presas fáceis para organismos que ele queira que prosperem, e isso é perfeitamente aceitável.

Não há nada moralmente mau nisso. Certamente envolveria sofrimento, mas não se pode simplesmente equiparar o sofrimento ao mal moral. Não há nada de mau em Deus fazer algo assim.

Aluno: Tenho algumas questões aqui. Uma é com a aleatoriedade em si. Porque as mudanças nos sistemas biológicos não são aleatórias. Recorremos a diferentes conjuntos genéticos existentes para produzir efeitos diferentes, dependendo das circunstâncias. Portanto, tenho um problema com a aleatoriedade. E, em apoio a isso, o segundo ponto seria o custo da substituição. A ideia de J. B. S. Haldane de que qualquer mudança em um organismo, uma mudança proposta, produziria uma desvantagem até que essa mudança se concretizasse. Ele estaria em desvantagem. Ele disse que você, você precisa considerar o custo da substituição para qualquer mudança. Acho que isso é um problema para a aleatoriedade em si.

Dr. Craig: Vamos falar primeiro do segundo ponto. Embora essas mutações em geral tendam a ser prejudiciais, pode haver casos em que uma mudança no ambiente faça com que o que teria sido uma mutação prejudicial de repente se torne benéfico, e, assim, ela possa se disseminar mais rapidamente por uma população isolada. Portanto, embora haja, com toda razão, um custo a considerar em qualquer mutação, não é verdade que todas seriam prejudiciais. Pode haver casos em que a mutação seja benéfica. Quanto ao primeiro ponto, acho que você tem toda razão ao dizer que, à parte a teoria quântica, não estamos falando de verdadeira aleatoriedade aqui, pois obviamente há fatores causais que contribuem para as mutações.

Assim, quando as pessoas dizem que algo ocorre por acaso, querem dizer que é o resultado de duas cadeias causais independentes que por acaso se encontram em determinado ponto para produzir um efeito. As cadeias causais que levam a esse efeito são independentes entre si, e, portanto, nesse sentido, diz-se que o evento ocorre por acaso; isto é, ocorre como resultado de duas ou mais cadeias causais independentes. Mas, obviamente, há causas que levam a esse evento. Assim, acho que você tem toda razão: mesmo entre os biólogos evolutivos que fazem essas afirmações de que isso ocorre aleatoriamente, eles não querem dizer aleatório no sentido em que às vezes se diz que os eventos quânticos são aleatórios ou indeterminados.

Querem dizer que ocorre por acaso nesse sentido. Mas o ponto em que, a meu ver, ultrapassariam o limite é quando começam a afirmar que, portanto, o processo evolutivo não tem orientação, propósito ou direção, ou que essas mutações não ocorrem por um motivo. É aí que ultrapassam os limites da ciência e começam a fazer afirmações filosóficas.

Aluno: Parece que estamos aceitando a evolução como fato, e talvez esse seja o caminho que estamos considerando agora. Mas o que nos faz pensar que a evolução... A evolução com “e” minúsculo é muito evidente ao nosso redor. Mas nunca vimos a evolução com “E” maiúsculo. Digo que nunca vi a evolução com “E” maiúsculo: algo se transformar de uma toupeira em um morcego. Mas vemos adaptação com muita frequência. Acredito que a evolução foi concebida para explicar a vida ao nosso redor sem Deus. Vimos todos esses fósseis e não conseguimos rastrear a evolução fóssil em lugar nenhum.

A sequência sempre se interrompe. Então, por que estamos aceitando a evolução como fato?

Dr. Craig: Não acho que estejamos aceitando a evolução como fato neste momento. O que venho defendendo é a compatibilidade de Gênesis 1 com a biologia evolutiva. O que eu disse, como disse em resposta a essa pergunta, é que o cristão é livre para seguir as evidências aonde elas levarem. E, se elas levarem à necessidade de intervenções milagrosas e de uma ação sobrenatural, ele pode aceitar isso. Ele está aberto a isso. Pode chegar a essa conclusão. Mas estou apenas defendendo a compatibilidade aqui, não defendendo nem pressupondo a verdade da biologia evolutiva.

Conhecimento médio, evolução teísta e intervenções divinas

Aluno: O que estamos discutindo poderia se enquadrar na categoria da evolução teísta?

Dr. Craig: Sim, acho que poderia. A evolução teísta costuma ser definida de maneiras diferentes, mas certamente uma de suas versões seria que Deus é responsável por estabelecer o processo de evolução biológica que levou ao Homo sapiens neste planeta, que Deus é, em última instância, o responsável. Dentro dessa estrutura geral, como digo, há todo tipo de maneira diferente de fazer isso. Poderíamos considerar intervenções sobrenaturais ao longo do caminho, atos milagrosos ao longo do caminho. Ou poderíamos pensar em grandes intervenções milagrosas da parte de Deus. Ou adotar uma perspectiva de conhecimento médio, em que Deus simplesmente sabia o que aconteceria se as condições iniciais e as leis da natureza estivessem presentes, de modo que nem seriam necessárias intervenções milagrosas para que o processo fosse dirigido ou supervisionado.

Se vocês não se lembram do conhecimento médio, retomem nossas aulas sobre os atributos de Deus, quando falamos da onisciência divina. Tivemos várias aulas sobre o conhecimento médio, que é o conhecimento de Deus sobre o que aconteceria de maneira indeterminada em qualquer conjunto de circunstâncias. Então, sim, estou sugerindo que a evolução teísta é algo compatível com a Bíblia, se você não for um criacionista da Terra jovem.

Aluno: Só queria esclarecer algo sobre a adaptação, se ela não for benéfica para o organismo. O senhor estava dizendo que, se for aleatória, ela poderia necessariamente ter uma causa: seria a mão de Deus agindo nisso para fazer essa adaptação levar a algo mais adiante, talvez. Se a adaptação não é benéfica, o que a evolução diz sobre por que essa adaptação continuaria presente nesse organismo? Sempre entendi que ela precisaria ser benéfica para ser replicada.

Dr. Craig: Esse era o ponto que outra pessoa estava levantando. Se essa mutação, adaptação ou mudança for prejudicial ao organismo, será improvável que ele produza mais descendentes. É mais provável que ele seja morto ou não sobreviva. E é disso que trata o aforismo da sobrevivência do mais apto. Os organismos com maior capacidade de gerar descendentes serão os que disseminarão seu material genético mais amplamente em uma população. Assim, se a mutação ou adaptação for prejudicial, tenderá a ser eliminada pela seleção natural. Foi daí que veio minha ilustração: talvez Deus quisesse criar presas fáceis para algum predador. Por isso, causa o surgimento de quadrúpedes mancos ou com alguma outra deficiência, com três pernas ou algo assim, porque quer que os predadores prosperem.

Aluno: Na verdade, estamos dizendo que, na mente do evolucionista, aleatório significaria por acaso, mas estamos dizendo que, do ponto de vista cristão ou teológico, isso poderia ter sido divinamente guiado, seja pelo conhecimento médio e pela criação de um ambiente em que tenderia a acontecer, seja porque Deus estabeleceu aquela mutação. Foi, por assim dizer, sua providência fazer isso.

Dr. Craig: Acho que o que você caracterizou como a posição cristã está correto. Mas quero voltar à primeira parte da sua afirmação. Não estou dizendo que é isso que o biólogo evolutivo está dizendo. É isso que o naturalista, como Lewontin, estava dizendo. É o naturalismo filosófico que diz que isso ocorre sem propósito, direção ou orientação. Mas o cientista que tem o cuidado de permanecer dentro dos limites estritos da ciência não afirmará que esse processo não tem orientação, propósito ou direção. Dirá apenas que as mutações ocorrem independentemente de seu benefício para o organismo hospedeiro em que acontecem.

Aluno: Acho que, quando as pessoas ouvem falar de evolução em sua forma mais pura, pressupõem que ele também está fazendo uma afirmação teológica de que não há envolvimento divino. E o senhor está dizendo que ele, na verdade, não está se pronunciando sobre isso nem a favor nem contra; está apenas observando evidências científicas.

Dr. Craig: Sim, e é exatamente por isso que estou começando com esse ponto em nossa discussão, logo no início. Essa questão é um divisor de águas absoluto; é crucial que, se o biólogo evolutivo, falando na qualidade de cientista, não quer dizer que essas mutações ocorrem sem qualquer orientação, direcionamento, propósito ou algo assim, então simplesmente não há conflito teológico aqui.

Aluno: Durante toda a minha vida, ouvi de fontes cristãs que Gênesis descreve atos criativos especiais de Deus e que a evolução tal como concebida por Darwin, em A origem das espécies, de 1859, não pode explicar a complexidade biológica. Nunca ouvi falar de nenhum exemplo, desde 1859, em que tenha ocorrido macroevolução no sentido de uma nova espécie ter evoluído, ou de ter se desenvolvido um novo órgão, como audição, visão ou algo assim que antes não existia. Parece-me uma enorme concessão àqueles que criticam e rejeitam o cristianismo dizer que o darwinismo, as mutações aleatórias e a seleção natural podem produzir a complexidade biológica.

Richard Dawkins certamente quer dizer exatamente o que o senhor está dizendo que esses cientistas não deveriam dizer. Porque ele diz em O relojoeiro cego, sua resposta a William Paley, que disse que a criação é como um relógio complexo que precisa ter um projetista; ele diz: não, não precisa. Ele acha que não há lugar para um projetista ou criador no processo que produz a complexidade biológica. Simplesmente me parece uma tremenda concessão dizer ou sugerir que as mutações aleatórias e a seleção natural podem produzir a complexidade que vemos ao nosso redor. Isso parece incompatível com o Salmo 139, em que Davi diz: “de modo assombrosamente maravilhoso me formaste”.

Se tudo o que Deus fez foi inserir ocasionalmente uma mutação benéfica irreconhecível nesse processo de mutações em sua maioria prejudiciais, e, de algum modo, elas se tornaram a base para novas espécies ou novos órgãos, isso parece diminuir a obra criadora de Deus.

Dr. Craig: Vou reiterar o que disse antes. Não disse nada que sugerisse que a explicação padrão da origem da complexidade biológica, muito menos da vida, seja cientificamente adequada. Não disse nada nesse sentido. O que venho argumentando é apenas que o cristão é livre para seguir as evidências aonde elas levarem, pois não há incompatibilidade entre Gênesis 1 e Deus usar os mecanismos de mutação aleatória e seleção natural para produzir a complexidade biológica neste planeta. Agora, se você adota uma perspectiva da Terra jovem e interpreta Gênesis 1 literalmente como seis dias consecutivos de 24 horas, numa semana de criação há alguns milhares de anos, então certamente há um conflito.

Concordo com isso. Mas minha afirmação é que, deixando de lado a visão literalista da Terra jovem e considerando as outras interpretações que examinamos, elas são bastante compatíveis com a teoria da evolução biológica. Quanto à providência de Deus, a ideia aqui seria que Deus exerce tal providência sobre o mundo que pode guiar o processo evolutivo desde as primeiras células primordiais até chegar ao Homo sapiens como a coroa da criação. Isso demonstraria a providência de Deus, em vez de negá-la. Seria dizer que esse não é um processo que se desenrola cegamente, apesar do que Richard Dawkins diz, mas um processo sobrenaturalmente pretendido e guiado por Deus.

Não acho que seja uma concessão dizer que a Bíblia é compatível com a teoria evolutiva. Pelo contrário, acho que seria muito perigoso dizermos que a Bíblia é incompatível com a teoria evolutiva, pois isso estabelece uma oposição que poderia ser, a meu ver, muito prejudicial à igreja. Acho melhor deixar a questão em aberto e dizer: sigam as evidências aonde elas levarem.

Aluno: Acho que o seu argumento e o de Plantinga são muito fortes. Não se pode fazer uma afirmação metafísica a partir da ciência; portanto, o senhor tem toda razão. Acho que ambos os livros são verdadeiros: as Escrituras inspiradas por Deus e o livro do mundo, sua criação. Não há mentira. Estamos deixando de lado a verdade da mitologia histórica que está ali: a existência de um domínio angelical. Se, como programador, oriento outro programador a escrever um programa para fazer algo, recebo o crédito por isso. Assim, quando o senhor diz que Deus criou, ele também fez esta criação por meio de sua criação angelical.

Lembrem-se de que devemos redimir, ao dobrarmos os joelhos diante de Cristo, devemos oferecer um exemplo de salvação aos anjos caídos, aos anjos. É por isso que eles estavam envolvidos nisso. Se olharmos algumas expressões hebraicas de reunir poderes para fazer o sol e coisas assim, ele ordena à terra que produza. Não há macroevolução aleatória, mas há seres angelicais afetando isso. Estou dizendo que há um domínio espiritual que ajudou a criar, está diretamente envolvido e faz parte de nós.

Dr. Craig: Se as intervenções milagrosas vieram diretamente de Deus ou pela mediação de anjos, acho que isso não vem ao caso. Podemos estar abertos a qualquer uma das alternativas. Como disse, acho que o cristão poderia dizer que as mutações cruciais no desenvolvimento da vida que levou ao Homo sapiens foram causadas por Deus ou por anjos, e a ciência nada poderia dizer contra isso. Não há como um cientista saber se essas mutações cruciais na história da vida foram ou não causadas divinamente.

Limites da ciência e propósito da vida

Aluno: Só queria fazer uma pergunta para esclarecer. Quando biólogos evolutivos como os que o senhor mencionou dizem que a evolução não é aleatória...

Dr. Craig: Não, espere. Eles dizem que é aleatória. Pessoas como Ayala e Mayr: ela é aleatória, mas, por “aleatório”, não querem dizer sem propósito, orientação ou direção.

Aluno: Certo. Mas, quando dizem isso, estão começando por olhar para a ciência e dizer: bem, isso parece estar caminhando para algum fim, portanto deve haver algum propósito nisso? Ou estão apenas olhando para as funções no nível microbiológico e dizendo que essas coisas foram feitas para funcionar assim?

Dr. Craig: Acho que nenhuma das duas coisas, pois eles não farão nenhuma afirmação sobre o propósito pelo qual algo existe. Há um tipo de visão chamada organismo, com relação ao desenvolvimento evolutivo, na qual os teóricos às vezes caem, ao pensar que o processo é dirigido a um objetivo, que a humanidade, por exemplo, é o objetivo do processo evolutivo. É muito fácil para nós, que estamos no ápice da criação, olhar para trás e ver tudo ascendendo até nós. Isso é uma espécie de presunção da humanidade, numa visão naturalista: que somos o objetivo para o qual ele caminha.

Na verdade, usei a palavra errada aqui. Ela me fugiu completamente da memória enquanto eu falava. É ortogênese. Ortogênese é a ideia de que existe uma direção para o processo evolutivo. Os teóricos diriam que essa não é uma declaração científica que possam fazer. Essa é uma questão filosófica para a qual não estão preparados como cientistas.

Aluno: Acho que isso responde à pergunta. Como exemplo rápido, se eu estivesse à beira de um lago e não visse ninguém por perto, mas visse uma pedra quicando sobre o lago, eu não pensaria que essa pedra simplesmente se levantou e saiu quicando sobre o lago. Alguém teria de tê-la lançado. Teria de haver alguma origem para aquela pedra estar quicando. Acho que eu estava tentando imaginar a evolução dessa maneira. O cientista olha para isso e pensa: quem lançou aquela pedra? Ou tenta descobrir se a natureza de algum modo fez aquela pedra quicar?

Dr. Craig: Acho que a questão seria que o cientista quer descobrir a causa de a pedra quicar sobre a água, mas não estaria fazendo a pergunta: por qual razão essa pedra está quicando sobre a água? Ela foi lançada de propósito? Há um motivo para essa pedra estar quicando? Ou ele estaria simplesmente investigando as cadeias causais que levaram ao fenômeno observado? E essa é uma pergunta científica perfeitamente legítima. Surgirá a pergunta: é possível oferecer uma explicação convincente das cadeias causais que levam, digamos, ao Homo sapiens, ou haverá, novamente com um trocadilho intencional, elos perdidos ao longo do caminho?

Aluno: Uma das coisas que acho que não se deve ignorar, e digo isso apenas com base em minha experiência pessoal de conversar com pessoas que afirmam que a evolução e o teísmo são incompatíveis, é que elas aderem ao que chamo de teologia do terrário, em que pensam no mundo como uma espécie de terrário em que o objetivo de Deus é fazer as pessoas felizes. Então, ao olharmos o quadro geral do universo, vemos que ele é hostil. Assim, quando afirmam que é aleatório, bem, isso não combina com Deus como eu o concebo; portanto, é incompatível com o teísmo.

Dr. Craig: Disse algo semelhante em meu trabalho sobre o problema do mal. Tendemos a pensar que, se Deus existe, então certamente seu propósito para nós na vida é nos fazer felizes aqui em nosso pequeno terrário. Somos os animais de estimação de Deus, e seu papel é dar um ambiente agradável a seus animais de estimação humanos. Mas, é claro, no teísmo cristão, não somos animais de estimação de Deus, e o propósito da vida não é a felicidade em si, mas chegar ao conhecimento de Deus. Assim, pode muito bem ser que, num mundo cheio de mal natural, sofrimento evolutivo e assim por diante, os propósitos de Deus sejam alcançados de modo mais eficaz, levando milhões e milhões de pessoas livremente ao conhecimento dele.

Bênção final

Muito bem, vamos encerrar? Agora, com a bênção. E agora, que o Deus que está acima de toda a criação, e o Senhor Jesus, que se entregou como sacrifício por nossos pecados, e o Espírito Santo, que produz nova vida em nós, encham sua vida de alegria e santidade ao servi-lo.

Aula de William Lane Craig. Publicação original: Reasonable Faith. © 2019 William Lane Craig. Tradução e edição em português: Fé Razoável. Transcrição conforme a legenda em português do vídeo. Preparação da transcrição: 20/10/2026.