Excurso sobre a Criação da Vida e a Diversidade Biológica (Parte 26): O Uso de Adão por Paulo em Romanos 5

William Lane Craig · Seção 09 / Aula 26 ·

Resumo da equipe Fé Razoável, preparado com auxílio de IA

Craig examina Romanos 5 e três maneiras de compreender a relação entre o pecado de Adão e a condição humana: imputação de culpa, natureza corrompida e propagação do pecado num mundo corrompido. Argumenta que todas pressupõem efeitos reais de um Adão histórico, sem escolher entre elas. A discussão distingue culpa, caráter moral, responsabilidade e os efeitos históricos atribuídos a Adão.

Romanos 5 e a questão do Adão histórico

Na última aula, argumentei que, em 1 Coríntios 15, Paulo talvez esteja indo além dos parâmetros do Adão meramente literário para abordar o Adão histórico. Ele parece dizer que, em Adão, todos morremos no sentido de compartilharmos uma natureza humana mortal com o homem da narrativa. Mas, na medida em que considera esse homem cronologicamente anterior a Cristo, ele o situa na história real. Creio que veremos essa implicação confirmada ao passarmos agora à segunda passagem crucial do Novo Testamento sobre Adão: Romanos 5:12–21. Vamos ler juntos esta passagem em voz alta. "Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado veio a morte, assim também a morte passou a toda a humanidade, porque todos pecaram.

Porque antes de a lei ser dada havia pecado no mundo, mas o pecado não é levado em conta quando não há lei. No entanto, a morte reinou desde Adão até Moisés, mesmo sobre aqueles que não pecaram à semelhança da transgressão de Adão, o qual prefigurava aquele que havia de vir. Mas o dom gratuito não é como a ofensa. Porque, se muitos morreram pela ofensa de um só, muito mais a graça de Deus e o dom pela graça de um só homem, Jesus Cristo, foram abundantes sobre muitos! O dom, entretanto, não é como no caso em que somente um pecou.

Porque o julgamento derivou de uma só ofensa, para a condenação; mas a graça deriva de muitas ofensas, para a justificação. Se a morte reinou pela ofensa de um e por meio de um só, muito mais os que recebem a abundância da graça e o dom da justiça reinarão em vida por meio de um só, a saber, Jesus Cristo. Portanto, assim como, por uma só ofensa, veio o juízo sobre todos os seres humanos para condenação, assim também, por um só ato de justiça, veio a graça sobre todos para a justificação que dá vida. Porque, como, pela desobediência de um só homem, muitos se tornaram pecadores, assim também, por meio da obediência de um só, muitos se tornarão justos.

A lei veio para que aumentasse a ofensa. Mas onde aumentou o pecado, aumentou muito mais ainda a graça, a fim de que, como o pecado reinou pela morte, assim também a graça reinasse pela justiça que conduz à vida eterna, por meio de Jesus Cristo, nosso Senhor." Nesta passagem fundamental, Paulo amplia sua tipologia de Cristo como o Adão escatológico, ou do fim dos tempos, de 1 Coríntios 15. Ora, nosso interesse ao interpretar esta passagem teologicamente rica, talvez de modo perverso, não está nos benefícios conquistados para a humanidade por Jesus Cristo por sua obediência e morte, mas no que Paulo afirma a respeito de Adão.

Na série de contrastes estabelecidos entre Adão e Cristo, nosso foco, em cada caso, está na oração inicial da frase em questão. Houve, é claro, enorme controvérsia teológica sobre como entender expressões como “muitos morreram pela ofensa de um só” (versículo 15), “o julgamento derivou de uma só ofensa, para a condenação” (versículo 16), “a morte reinou pela ofensa de um e por meio de um só” (versículo 17), “por uma só ofensa, veio o juízo sobre todos os seres humanos para condenação” (versículo 18), e “pela desobediência de um só homem, muitos se tornaram pecadores” (versículo 19). Paulo não explica exatamente como o pecado de Adão é transmitido à sua descendência.

Imputação e efeitos na história

Por um lado, Paulo pode querer dizer que, em virtude da condição de Adão como representante ou de nossa solidariedade coletiva com Adão, ou de alguma noção semelhante, o pecado de Adão no jardim é imputado a cada um de nós, seus descendentes. Isto é, somos culpados diante de Deus em virtude da transgressão de Adão e, portanto, estamos sob a condenação à morte. Se a noção de imputação do pecado é aceitável às sensibilidades modernas é irrelevante para a questão interpretativa relativa a esta passagem. Ora, é evidente que, se essa interpretação do ensino de Paulo estiver correta, então a historicidade de Adão e de sua queda decorre imediatamente disso.

Pois o pecado de uma pessoa inexistente não pode ser imputado a mim de tal maneira que eu seja considerado objetivamente culpado diante de Deus e sujeito à condenação eterna. O pecado de um Adão puramente literário não pode ter efeito algum no mundo fora da ficção. O eminente comentarista do livro de Romanos, Douglas Moo, argumentou corretamente da seguinte maneira: "Os efeitos do ato de Adão na história (a pecaminosidade universal e a morte) parecem exigir um Adão que tenha pecado na história. Eu poderia, por exemplo, comparar ou contrastar Aslam (de As Crônicas de Nárnia) com Cristo para apresentar uma ideia teológica geral (assim como Aslam morreu por Edmundo na Mesa de Pedra, Cristo morreu por nós na cruz), mas meus ouvintes ficariam bastante confusos se eu afirmasse que a Feiticeira Branca introduziu em nosso mundo uma condição da qual Cristo nos salvou.

E a confusão seria bastante natural: eu estaria postulando acontecimentos em nossa história causados, respectivamente, por um personagem fictício e um personagem real. Adão, como Paulo deixa claro, atua no mesmo plano histórico que Moisés, a lei e Cristo (de quem ele é o “tipo”)." A imputação do pecado de Adão à sua posteridade exige, então, penso eu, um Adão histórico. Se a doutrina de Paulo envolve essa imputação, então se segue que ele está ensinando a historicidade de Adão e de sua queda em pecado. Mas essa é, de fato, a doutrina de Paulo? Talvez; mas há bastante margem para duvidar que seja.

A questão é como relacionar o versículo 12cd: “assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado veio a morte, assim também a morte passou a toda a humanidade, porque todos pecaram”, ao versículo 18a: “por uma só ofensa, veio o juízo sobre todos os seres humanos para condenação”. Moo insiste, com razão, que é necessária alguma explicação de por que “as pessoas se desviam tão sistematicamente do bem para o mal de todos os tipos”. Ninguém pensa que todos pecam simplesmente por mera coincidência. Moo diz: “Paulo afirma nesta passagem que a solidariedade humana no pecado de Adão é a explicação — e não importa se explicamos essa solidariedade - e, neste ponto, não importa se explicamos essa solidariedade em termos de pecar em Adão e com ele ou em razão de uma natureza corrompida herdada dele

Discordo de Moo quanto a isso. Parece-me crucial que entendamos que a primeira alternativa (a imputação do pecado de Adão a nós) de fato nada faz para explicar por que as pessoas se desviam sistematicamente do bem para o mal e pecam sistematicamente, pois a imputação é uma noção puramente jurídica ou forense que não tem efeito algum sobre o caráter moral de uma pessoa. O próprio Moo explica mais adiante: “Paulo está insistindo que as pessoas foram realmente ‘feitas’ pecadoras pelo ato de desobediência de Adão, assim como são realmente ‘feitas justas’ pela obediência de Cristo. Mas esse ‘fazer justo’... significa tornar-se, não pessoas ‘moralmente justas’, mas ‘judicialmente justas’ — ser julgadas absolvidas, livres de todas as acusações[1]”.

De modo semelhante, ele diz: “As pessoas podem ser ‘feitas’ pecadoras no sentido de que Deus as considera assim, ao considerar o ato de Adão como sendo, ao mesmo tempo, o ato delas... Parece justo, então, falar de imputação aqui”. Assim, ele diz: “Estamos lidando com uma situação real, embora forense: as pessoas realmente se tornam pecadoras em solidariedade com Adão — por decisão de Deus; as pessoas realmente se tornam ‘justas’ em solidariedade com Cristo — novamente, por decisão de Deus”. Tais transações forenses (ou judiciais) não podem explicar por que as pessoas se desviam sistematicamente do bem para o mal.

Assim como o perdão de um criminoso condenado nada faz para torná-lo subitamente uma pessoa moralmente virtuosa, mas simplesmente faz com que deixe de ser juridicamente culpado, assim também a imputação da culpa jurídica de Adão a nós não transforma o caráter moral de uma pessoa que, de outro modo, seria irrepreensível. Portanto, não creio que a doutrina da imputação baste para responder à pergunta de Moo sobre por que as pessoas pecam sistematicamente. Algum comentário ou pergunta sobre essa crítica?

Aluno: A maneira como entendo isso é que, por causa do pecado de Adão, nascemos sem um relacionamento com Deus — nascemos separados. Assim, temos uma predisposição para pecar. Então, quando nos tornamos agentes morais responsáveis (quando e se isso acontece), nós cometemos atos de pecado, e então o pecado nos é imputado. Quando recebemos a Cristo, essa imputação é removida.

Dr. Craig: Creio que a alternativa que você está expressando está bastante próxima da segunda, sobre a qual falaremos em breve. A ideia de que herdamos de Adão uma natureza humana corrompida. Examinaremos isso em breve, e você poderá ver se isso expressa ou não o que está dizendo. Mas você está apresentando uma perspectiva diferente da imputação. Você não está dizendo que é em virtude de o pecado de Adão ser imputado a nós (incluindo os bebês) que todos passam a pecar sistematicamente. Você está apresentando uma sugestão diferente.

Natureza corrompida e discussão

Por causa desse problema, a doutrina tradicional do pecado original postula, no mínimo, um caráter corrompido herdado de Adão, e não apenas culpa imputada. Ora, a postulação de uma natureza humana corrompida herdada de Adão explicaria por que as pessoas pecam sistematicamente — elas têm uma natureza corrompida e caída que herdaram de Adão. E tal interpretação de Romanos 5 exige um Adão histórico com tanta certeza quanto a doutrina da imputação. Porque, se temos uma natureza humana corrompida herdada de Adão, então Adão teve efeitos no mundo real e, portanto, não pode ser simplesmente um personagem fictício ou literário.

Assim, se essa interpretação estiver correta — se essa for a doutrina de Paulo —, então seu ensino implica a existência de um Adão histórico. Espero que estejam compreendendo as alternativas. Uma é que o pecado de Adão me é juridicamente imputado, de modo que sou considerado culpado e sujeito à punição por causa do que Adão fez. A outra alternativa diz: não, não, não se trata necessariamente de imputação; antes, quando Adão pecou, transmitiu a todos os seus descendentes uma natureza corrompida, de modo que têm uma propensão para pecar, e isso explica por que o pecado é universal em toda a raça humana.

A doutrina tradicional do pecado original une essas duas alternativas — que há tanto a imputação do pecado e da culpa quanto a herança de uma natureza corrompida. Sim. Kevin, você tinha algum comentário?

Aluno: Um versículo me vem à mente. Gostaria de saber se o senhor o consideraria relacionado. É Hebreus 7:9, quando fala de Abraão entregando o dízimo a Melquisedeque. O autor de Hebreus diz: “E, por assim dizer, também Levi, que recebe dízimos, pagou-os na pessoa de Abraão. Porque Levi, por assim dizer, já estava no corpo de seu pai Abraão, quando Melquisedeque foi ao encontro deste”. Assim, é quase como se a boa ação de entregar o dízimo a Melquisedeque tivesse sido imputada a Levi, antepassado de Abraão[2], e, de modo semelhante, o pecado de Adão nos fosse imputado porque ainda estamos no corpo de nosso antepassado.

Dr. Craig: Você se lembrará, creio eu, de que Moo disse que podemos pensar nisso em termos de Adão ser nosso representante (ele age em nosso nome diante de Deus e, portanto, seus atos são nossos atos) ou, como alternativa, no que você acabou de mencionar — uma ideia peculiarmente hebraica de uma espécie de solidariedade coletiva com Adão. Como diz ali, “já estava no corpo de seu pai Abraão, quando Melquisedeque foi ao encontro deste”. Existe algum tipo de solidariedade coletiva de todos os descendentes de Adão com o próprio Adão, em virtude da qual possam ser considerados pecadores? Essas seriam duas maneiras de tentar entender como estamos em Adão de tal maneira que seu pecado possa nos ser imputado.

Aluno: Sei que, em outras passagens das Escrituras, há referências à nossa natureza pecaminosa. Parece-me que esse é o próprio cerne do nosso ser, não algo imputado como tal, mas nossa natureza — uma natureza pecaminosa. Parece que isso apoiaria a segunda alternativa.

Dr. Craig: Creio que essas seriam passagens que você usaria para tentar apoiar a segunda alternativa. Eu apenas evitaria dizer coisas como que isso é (esqueci como você disse) algo como o próprio cerne do nosso ser ou o cerne da nossa natureza. Porque, quando somos redimidos em Cristo e a natureza pecaminosa é eliminada, não é como se fôssemos deixar de ser humanos ou deixar de existir. O pecado é um intruso. É uma perversão e uma distorção de nossas verdadeiras naturezas, que são reflexos da imagem de Deus e, portanto, boas.

Aluno: Mas essa seria nossa natureza caída.

Dr. Craig: Sim. Essa é esta alternativa — que há uma espécie de condição caída em nossa natureza, herdada de Adão. Sim.

Aluno: Parece que, pelo que o senhor acabou de dizer, isso se encaixa muito bem neste versículo, 1 Coríntios 15:49, que diz: “E, assim como trouxemos a imagem do homem terreno, traremos também a imagem do homem celestial”. Parece que isso seria mais semelhante à segunda alternativa — que esse não é nosso verdadeiro ser, mas temos essa imagem do pecado com a qual nascemos, vinda de Adão, mas teremos a imagem da ausência de pecado com Jesus.

Dr. Craig: Você não estava aqui na semana passada, estava?

Aluno: Não estava.

Dr. Craig: Está bem. Foi o que pensei. Discutimos essa passagem na semana passada. Creio que esse versículo, que discutimos, tomado fora de contexto ou lido à luz de Romanos 5, se prestaria muito bem à interpretação que você lhe deu. Mas o que argumentei na semana passada é que, quando você lê a passagem e o versículo em seu contexto, Paulo não está falando ali de condenação em contraste com justificação, como em Romanos 5. Antes, está falando de mortalidade física em contraste com a vida ressurreta — que trocaremos este corruptível, mortal, desonroso corpo por um corpo glorioso, imortal, espiritual.

Assim, o contraste em 1 Coríntios 15 não é o mesmo contraste que é apresentado em Romanos 5, que estamos examinando agora.

Aluno: Então, na verdade, isso fala mais do corpo?

Dr. Craig: Sim. Exatamente. 1 Coríntios 15 trata do seu corpo físico. Não trata do seu verdadeiro ser ou da identidade espiritual que encontramos em Romanos 5, creio eu. Examine a transcrição da semana passada e veja se essa interpretação o convence ou não.

Aluno: Eu pensaria que a primeira explicação, da imputação do próprio pecado, contraria Jeremias, onde diziam: “Os pais comeram uvas verdes, e os dentes dos filhos é que se embotaram”. Deus disse: Eliminarei esse ditado do meio de vocês, porque cada um carrega seu próprio pecado — vocês não o herdam de...

Dr. Craig: Sim, há versículos semelhantes em Ezequiel, não há? “A pessoa que pecar, essa morrerá”, e não repitam mais esse provérbio. Como eu disse, essas passagens têm sido extremamente controversas teologicamente, contrapondo, por exemplo, teólogos reformados e católicos que creem na imputação do pecado e em sermos considerados culpados pelo pecado de Adão, a, digamos, metodistas, wesleyanos ou outros arminianos, teólogos que tenderiam a interpretá-las mais em termos da natureza corrompida do que da imputação do pecado. Eles frequentemente recorrem ao tipo de versículo que você acabou de mencionar. Não vou tentar resolver essa controvérsia agora. Quando chegarmos à doutrina do pecado, poderemos falar mais sobre isso.

O que quero fazer é simplesmente mostrar que, quer você adote a visão da imputação do pecado, quer adote a visão da natureza corrompida, ambas implicam que Paulo ensinou a historicidade de Adão. Ele estava ensinando que houve um indivíduo histórico real.

A terceira alternativa

A questão é: será que Paulo, porém, ensina que herdamos de Adão uma natureza humana corrompida? Como observa o professor Moo, essa doutrina, talvez surpreendentemente, não se encontra em parte alguma de Romanos 5:12–21. Tendemos a lê-la ali, mas, de fato, quando examinamos a passagem, ela não se encontra em parte alguma dessa passagem. Isso suscita a pergunta: não há uma terceira alternativa à imputação ou à natureza corrompida para explicar por que o pecado é tão universal entre os seres humanos? É claro que existe outra alternativa! Nossa natureza animal inerentemente voltada ao interesse próprio, em combinação com a rede de corrupção em que nascemos e somos criados, basta para explicar por que o pecado é universal na humanidade.

Isso explica por que todos pecaram. Vale observar de passagem que, quando, em Romanos 1–3, Paulo desenvolve sua doutrina da universalidade do pecado e da condenação de todos os seres humanos diante de Deus, ele não recorre de modo algum à doutrina do pecado original, sob nenhuma forma. Em Romanos 5:12–21, então, segundo essa visão, Paulo está descrevendo como o pecado de Adão libera o poder que resulta em todas as pessoas pecarem, com o resultado de serem condenadas à morte espiritual. Um momento de reflexão revela que essa interpretação da cristologia adâmica de Paulo também exige que Adão seja uma pessoa histórica.

Pois se diz que o pecado e a morte espiritual entram no mundo por meio dele e afetam, por sua vez, todos os seus descendentes, incluindo nós. As expressões de Paulo “antes de a lei ser dada” e “desde Adão até Moisés” mostram que ele está designando épocas reais da história humana como afetadas pelo ato de Adão. Uma ação inteiramente interna a uma ficção não pode ter efeitos fora dessa ficção; somente uma ação externa à ficção pode ter efeitos no mundo real. Segue-se que Paulo não apenas acredita que Adão e seu pecado sejam históricos, mas de fato afirma que são históricos.

Ele está dizendo que Adão abriu as comportas pelas quais o pecado entrou no mundo e depois se espalhou por todos os seres humanos.

Implicações e questões dos alunos

Algum comentário ou pergunta sobre essa terceira alternativa de interpretação? Sim, Bobby.

Aluno: Temos alguma ideia do que os ouvintes originais, ou talvez o público, teriam...? Eles se debatiam com esse tipo de questão?

Dr. Craig: Certamente devem ter se debatido! Quero dizer, o livro de Romanos é tão rico. Certamente, quando os leitores romanos de Paulo (que incluíam tanto gentios quanto judeus) ouviam essa carta ser lida em voz alta em sua reunião de culto, devem ter coçado a cabeça e dito: O que ele quer dizer?

Aluno: Na cultura judaica contemporânea, essa distinção que o senhor fez entre acreditar e afirmar que se trata de um ato histórico, o senhor acha que muitos fiéis judeus (ou os primeiros cristãos) não pensavam que isso fosse...?

Dr. Craig: Não, não. Pelo contrário, quando você lê a literatura judaica intertestamentária, entre o encerramento do cânon do Antigo Testamento e o advento de Jesus, durante aqueles séculos, há uma vasta literatura judaica chamada de pseudepígrafos (isto é, foram escritos sob pseudônimos — obras como 4 Esdras e 1 Enoque e Sabedoria de Salomão), e também há livros judaicos apócrifos (como 1 e 2 Macabeus e coisas desse tipo). Quando você lê essa literatura judaica pseudepigráfica e apócrifa, nenhum desses tratamentos de Adão (e eles falam muito de Adão), nenhum deles nega que ele tenha sido uma pessoa histórica. Eles o utilizam para diferentes fins teológicos.

Esses livros judaicos intertestamentários usam o Adão literário como uma espécie de exemplo ou porta-voz para muitas coisas diferentes, mas todos pressupõem que ele realmente existiu e foi a pessoa original da qual a raça humana descendeu.

Aluno: Então, a afirmação dele de que isso era histórico não era um grande desafio a uma posição concorrente...

Dr. Craig: Não, não. De modo algum. Estaria perfeitamente de acordo com o que se pensava entre os judeus naquela época. Deve estar evidente, creio eu, que meu argumento para entender que Paulo afirma que Adão foi uma pessoa real da história não é refutado simplesmente pela distinção entre o Adão literário de Gênesis 2 e 3 e o Adão histórico. Pois o argumento não se baseia no contraste que Paulo estabelece entre Adão e Cristo, uma figura literária e uma pessoa da história, mas nos efeitos causais do pecado de Adão no mundo real. É impossível, por exemplo, que Hamlet, embora seja um indivíduo na peça de Shakespeare, tenha efeitos no mundo real, porque Hamlet não existe no mundo real, mas apenas na peça; isto é, na peça (ao contrário, por exemplo, da visão de um punhal que Macbeth tem), Hamlet existe.

Paulo, portanto, ensina que Adão foi uma pessoa real da história. Essa visão está de acordo com as genealogias que estruturam a história primeva no livro de Gênesis, como vimos, pois as genealogias tratam Adão e seus descendentes como pessoas reais. Nesse caso, não podemos excluir a priori a possibilidade de Paulo ter algum conhecimento do Adão da história com base em seu conhecimento de Gênesis. Algum comentário ou pergunta sobre esse ponto antes de encerrarmos?

Aluno: Só para esclarecer essa visão específica — então estamos dizendo que as crianças nascem basicamente irrepreensíveis até que, expostas ao pecado desenfreado, respondam a ele pecando? Estou correto quanto a isso?

Dr. Craig: Isso seria verdade tanto na interpretação da natureza corrompida quanto na visão de que não há uma natureza corrompida, mas de que nascemos em um mundo corrompido, de modo que, à medida que crescemos, pecar se torna muito natural. Assim, qualquer uma dessas alternativas consideraria os bebês isentos de culpa ou irrepreensíveis.

Aluno: Mas, à medida que crescem, digamos que se tornem egoístas ou algo assim, então estamos dizendo que isso não vem tanto de dentro quanto de observar e perceber como o mundo é.

Dr. Craig: Não endossei nenhuma dessas três visões. Eu apenas as apresentei e disse que cada uma delas implica o Adão histórico. Ora, nessa terceira visão, o que você diria, creio eu, é que, em virtude de termos corpos animais, (temos corpos muito semelhantes aos dos primatas; de fato, é assim que os biólogos nos classificariam), temos em nós a mesma propensão inata ao comportamento egoísta, porque isso favorece a sobrevivência. Você precisa cuidar de seus próprios interesses para não ser atropelado e destruído. Assim, as crianças pequenas terão inerentemente esse tipo de predisposição ao egoísmo, porque isso favorece a sobrevivência na luta para sobreviver.

Quando elas chegam à idade em que se tornam moralmente responsáveis, então passam a responder moralmente por esses desejos e comportamentos. Não estou sugerindo que estejam determinadas a fazer o mal. É possível resistir a essas propensões. Temos livre-arbítrio. Mas, quando se atinge certa idade de responsabilidade moral, então essas ações se tornam pecado.

Aluno: A primeira coisa que me veio à mente quando o senhor estava explicando isso foi o egoísmo psicológico — a ideia de que qualquer ação que se realiza é, de algum modo, motivada pelo ego e pelo interesse próprio. Como o senhor acha que sua visão se harmonizaria com isso? Porque conheço pessoas, por exemplo, que pensam que até respirar é, de algum modo...

Dr. Craig: Eu não aceitaria isso. Ele está falando de uma generalização abrangente, de que não há comportamento verdadeiramente altruísta que seja motivado apenas pela bondade do coração. Tudo é busca de benefício próprio e interesse próprio. Assim, mesmo que você dê a vida por outra pessoa, de algum modo isso lhe proporciona uma sensação de bem-estar consigo mesmo, e, portanto, você está realmente agindo por interesse próprio. Não vejo razão alguma para pensar que algo assim seja verdadeiro. Creio que, especialmente para alguém que é um cristão cheio do Espírito de Deus, ele não está aprisionado por esse tipo de desejo egoísta.

Mas Deus pode ajudá-lo a agir de maneiras verdadeiramente generosas e amorosas, que não visem apenas ao interesse próprio. Isso não significa negar, é claro, que nossos motivos muitas vezes sejam mistos e contaminados. Creio que provavelmente todos já sentimos isso, quando doamos a alguma causa e, puxa, nos sentimos bem com isso! Sou tão generoso. Assim, certamente, como pessoas caídas, nossos motivos muitas vezes são mistos, mas dizer que são inteiramente egoístas seria, creio eu, uma generalização ampla demais.

Conclusão e bênção

Bem, vamos encerrar agora. As diversas referências dos autores do Novo Testamento a figuras mitológicas ou pseudepigráficas nos alertam a evitar provas fáceis demais da historicidade do Antigo Testamento com base na autoridade do Novo Testamento. Essas figuras podem ser meramente literárias e empregadas como ilustração. De modo semelhante, algumas referências do Novo Testamento a Adão e a outras figuras e acontecimentos da história primeva podem descrever apenas o mundo narrativo de Gênesis, exigindo, no máximo, verdade dentro da narrativa. Mas, em 1 Coríntios 15 e especialmente, creio eu, em Romanos 5, temos, de fato, afirmações claras da historicidade de Adão.

O que se afirma sobre o Adão histórico nessas passagens fundamentais não vai, porém, realmente além do que já afirmamos com base em nossa análise do gênero literário da história primeva em Gênesis 1–11, a saber, que houve um progenitor de toda a raça humana em algum momento do passado, por cuja desobediência o mal moral entrou no mundo. Creio que o Novo Testamento simplesmente enfatiza ou ratifica o que já aprendemos em nosso estudo de Gênesis. Quer entendamos que Paulo ensina que o pecado de Adão foi imputado a cada um de seus descendentes, quer que o pecado de Adão corrompeu a natureza humana e, assim, afetou toda a sua descendência, quer que o pecado de Adão abriu as comportas para o pecado, que então contaminou todos os que vieram depois dele, Paulo considera Adão uma pessoa histórica cujas ações afetam o curso da história.

Talvez prefiramos não resolver a questão de como exatamente o pecado de Adão afeta toda a humanidade. Como o próprio Paulo não procurou explicar essa relação, talvez devamos também nos abster. Ainda assim, permanece o fato de que o pecado de Adão é, no pensamento de Paulo, em algum sentido, a fonte do pecado e da morte espiritual que afligem nosso mundo, e isso basta para a afirmação de um Adão histórico. Que o Deus de graça tenha piedade de todos nós e nos santifique, para nos apresentarmos santos e sem culpa diante de seu trono, em nome de Jesus. Amém! Em nome de Jesus. Amém!

Aula de William Lane Craig. Publicação original: Reasonable Faith. © 2019 William Lane Craig. Tradução e edição em português: Fé Razoável. Transcrição conforme a legenda em português do vídeo. Preparação da transcrição: 20/10/2026.