Excurso sobre a Criação da Vida e a Diversidade Biológica (Parte 18): A História Primeva Bíblica Deve Ser Entendida como Literalmente Verdadeira?

William Lane Craig · Seção 09 / Aula 18 ·

Resumo da equipe Fé Razoável, preparado com auxílio de IA

Craig distingue verdade de verdade literal ao perguntar como sociedades que transmitem mitos compreendem suas narrativas sagradas. Com base em estudos antropológicos, examina diferentes sentidos de verdadeiro e falso e apresenta um mito do Corvo como exemplo de linguagem figurada. A análise separa plasticidade, a variedade de versões em um mesmo período, de flexibilidade, a adaptação de um mito ao longo do tempo.

A aula passa então a imagens da mitologia mesopotâmica e egípcia para argumentar em favor de leituras metafóricas. Craig reconhece a aplicação incerta de dados antropológicos contemporâneos ao antigo Israel e considera mais pertinentes as evidências literárias do Antigo Oriente Próximo. Nas perguntas, discute concordismo, variedade de gêneros bíblicos e limites da interpretação literal, sem ainda realizar a aplicação detalhada desses argumentos a Gênesis.

Verdade e linguagem figurada

Na semana passada, prometi que hoje abordaria a pergunta de um milhão de dólares! Se Gênesis 1–11 pertence ao gênero da mito-história (como argumentei), surge então a pergunta: a história primeva deve ser entendida como literalmente verdadeira? Embora as genealogias revelem um interesse histórico por parte do autor, já vimos razões para pensar que as genealogias não devem ser interpretadas de modo literalista. Além disso, na medida em que esses capítulos compartilham o gênero do mito, surge a questão de saber se as sociedades que adotam um mito entendem esse mito como literalmente verdadeiro. Certamente elas o entendem como verdadeiro, mas o consideram literalmente verdadeiro? É muito importante entender que o discurso figurado pode ser verdadeiro mesmo que seja falso quando interpretado de modo literalista. Assim, por exemplo, se eu entro vindo de fora e estou encharcado de água e digo a vocês: “Está chovendo cães e gatos lá fora!”, isso pode ser verdade mesmo que não haja animais caindo do céu. A interpretação literalista da linguagem figurada muitas vezes é a fonte de piadas.

Certa vez, vi um programa de televisão em que alguém bate à porta e um homem diz ao seu robô: “Robô, vá atender a porta.” E o robô vai obedientemente até a porta e diz: “Sim, porta, o que foi que você perguntou?” Obviamente, algo pode ser figuradamente verdadeiro e, ainda assim, literalmente falso. Os mitos do Antigo Oriente Próximo pretendiam ser tomados como literalmente verdadeiros? Não é fácil responder a essa pergunta, porque não temos acesso direto aos adeptos dos mitos antigos para investigar suas atitudes em relação aos mitos que adotavam. Como no caso das genealogias, precisamos recorrer a estudos antropológicos comparativos e à literatura comparativa do Antigo Oriente Próximo para tentar encontrar uma resposta.

Dados antropológicos e sentidos de verdade

Vejamos primeiro os dados antropológicos comparativos sobre sociedades que transmitem mitos. Ao distinguir entre mitos e contos populares, o folclorista William Bascom observa que um número considerável de sociedades primitivas reconhece claramente a distinção entre o que ele chama de narrativas factuais e ficcionais. “Narrativas factuais e ficcionais são claramente reconhecidas como categorias distintas em muitas sociedades [primitivas].” Mas não se discute que os mitos não sejam considerados fictícios pelos membros da sociedade em que são adotados ou que sejam diferentes dos contos populares. Em um artigo frequentemente citado, do antropólogo Raffaele Pettazzoni, ele recorre a dados antropológicos semelhantes aos apresentados por Bascom para mostrar que tribos indígenas norte-americanas “diferenciam ‘histórias verdadeiras’ de ‘histórias falsas’. Nas histórias ‘verdadeiras’, temos de lidar com o sagrado e o sobrenatural, enquanto as ‘falsas’, por outro lado, têm conteúdo profano”; por exemplo, as falsas incluiriam histórias sobre as travessuras do trapaceiro e exímio malandro Coiote — personagem que, nos contos indígenas, se parece muito com o Coiote dos desenhos do Papa-Léguas.

Às vezes, essas histórias falsas são diferenciadas dos “contos verdadeiros” como “‘histórias engraçadas’, meras invenções, sem substância real”. Creio ser desnecessário dizer que os membros de uma sociedade que adota mitos fundadores jamais considerariam essas histórias sagradas profanas ou meramente engraçadas. É claro que “o mito não é pura ficção”; “é uma ‘história verdadeira’ e não uma ‘falsa’”. Mas é um non sequitur inferir que, portanto, ele é história, porque a verdade abrange muito mais do que a história e não pode simplesmente ser equiparada a ela. A questão mais profunda levantada por esses antropólogos é: que concepção ou concepções de verdade esses diversos povos tribais mantêm? O predicado “verdadeiro” tem uma ampla gama de sentidos, como se vê em expressões como “ouro verdadeiro”, “um amigo verdadeiro”, “uma medida verdadeira”, “o caminho verdadeiro” ou “uma afirmação verdadeira”. Todas empregam o predicado de verdade com sentidos diferentes. Por que deveríamos pensar que a concepção de verdade dessas sociedades tribais é a concepção do filósofo de verdade como correspondência com a realidade?

O antropólogo Theodor Gaster diz que Pettazzoni comete o erro de confundir verdade com eficácia. Ele confunde verdade com eficácia. Gaster adverte: "Antes que se possam tirar quaisquer deduções gerais, parece necessário determinar exatamente o significado e o quadro de referência dos termos nativos traduzidos como ‘verdadeiro’ e ‘falso’. Nesse contexto, ‘verdadeiro’ significa exato, histórico, real, válido ou autenticado? Por outro lado, ‘falso’ significa não confiável, não histórico, irreal (fictício), inútil ou espúrio? Uma história poderia, por exemplo, ser funcionalmente válida — isto é, cumprir plenamente uma finalidade ritual — e, ainda assim, ser historicamente inválida, ou poderia ser historicamente válida, mas inútil e ineficaz como recitação cultual. Além disso, poderia ser uma tradição autêntica e, ainda assim, fictícia; ou, inversamente, poderia relatar um fato histórico real, mas ser um produto moderno e não uma composição genuinamente tradicional.

Obviamente, então, até sabermos com precisão quais palavras o primitivo emprega e em que sentido as emprega, é arriscado deduzir de sua distinção entre histórias ‘verdadeiras’ e ‘falsas’ qualquer coisa a respeito da ‘verdade’ fundamental do mito." A dicotomia traçada pelos povos tribais entre histórias verdadeiras e falsas não é suficiente para provar que se espera que os membros dessas sociedades acreditem que os mitos sejam literalmente verdadeiros. O fato de os mitos, embora aceitos como verdadeiros e dotados de autoridade, não precisarem ser considerados literalmente verdadeiros fica evidente em exemplos de mitos que parecem ser claramente metafóricos ou figurados.

O mito do Corvo e a leitura metafórica

Por exemplo, o antropólogo William Doty relata um mito do povo tchuktchi do nordeste da Sibéria. Deixem-me ler uma paráfrase desse mito, que considero certamente metafórico. Vejam se não concordam enquanto eu o leio. Eis como ele começa: "O Corvo autocriado e sua esposa vivem juntos onde não há seres humanos nem qualquer outra criatura viva. A esposa diz ao Corvo que ele deveria tentar criar a terra. Quando ele protesta que não pode criar a terra, ela diz que tentará criar companheiros para eles. Ela adormece, e suas penas negras se tornam humanas, e suas garras se transformam em dedos. Seu abdômen aumenta e, antes de despertar, ela cria três filhos humanos. O Corvo diz: “Pronto, você criou os humanos! Agora irei tentar criar a terra.” Ele sai voando e pede conselho a todos os seres benevolentes, como a Aurora, o Meio-Dia e o Pôr do Sol, mas ninguém lhe dá conselho. Por fim, ele chega ao lugar onde o céu encontra o horizonte e vê uma tenda cheia de homens. O Corvo descobre que eles foram criados do pó resultante do atrito do céu com o chão. Eles devem se multiplicar e se tornar a primeira semente de todos os povos da terra.

Eles pedem ao Corvo que crie a terra para eles, e ele concorda em tentar. Enquanto voa, ele defeca, e cada pedaço de excremento cai na água, cresce rapidamente e se torna terra firme. Então ele começa a urinar: onde cai uma gota, forma-se um lago; onde cai um jato, forma-se um rio. Depois, ele defeca uma substância muito dura, que se transforma em montanhas e colinas. Quando os homens reclamam que precisam de alimento, o Corvo sai voando e encontra muitos tipos de árvores. Ele pega seu machado e começa a cortar, lançando as lascas na água, que as leva para o mar. Os diversos tipos de lascas de madeira se transformam em morsas, focas, baleias, ursos-polares, renas e todo tipo de criatura marinha e terrestre. Ele diz: “Agora vocês têm alimento!” Mas os homens ainda não podiam se multiplicar, pois ainda não havia mulheres. No entanto, uma Mulher-Aranha aparece e dá à luz quatro filhas, que crescem depressa e se tornam mulheres. Um dos homens toma uma das mulheres como companheira. No dia seguinte, o Corvo vai visitá-los e os encontra dormindo separados, em cantos opostos do aposento.

Percebendo que eles não se multiplicariam, o Corvo chama uma mulher até ele e mantém relações sexuais com ela, o que ela considera bastante agradável. Assim, logo ela ensina ao homem como se multiplicar. É por isso que as meninas entendem antes dos meninos como copular." Fim. A combinação de características aviárias (ou semelhantes às de uma ave) e humanas e das atividades atribuídas ao Corvo parece exigir que esse mito não fosse tomado literalmente. Deuses e deusas são frequentemente representados nos mitos como animais. Como veremos, os mitos do Antigo Oriente Próximo também apresentam esse tipo de caráter metafórico. Alguma dúvida sobre o que foi dito até aqui? O que discutimos até aqui é, por assim dizer, o caráter metafórico. Eu gostaria que houvesse uma palavra melhor para isso. Procurei saber se existia uma palavra como “metaforicidade”, mas aparentemente não existe; então fiquei com a que estava no dicionário (em inglês, metaphoricalness, que aqui traduzimos por “caráter metafórico”). É disso que estamos falando: dessa natureza metafórica de alguns mitos. Aluno: O senhor comentou anteriormente que não temos as fontes antigas para perguntar como elas interpretavam... Dr. Craig: Os povos antigos. Aluno: Certo.

Os povos antigos, para perguntar como interpretavam isso literalmente. Mas, considerando que houve fontes entre a época em que os povos antigos viveram e hoje, não há fontes muito mais próximas daquele momento em que possamos nos apoiar para avaliar o grau de crença deles? Dr. Craig: Sim, acho que isso está inteiramente correto. Essas seriam as evidências literárias, que é o que examinaremos em seguida. Primeiro, examinaremos evidências antropológicas de povos atuais, contemporâneos, que vivem em sociedades tribais e transmitem mitos. Depois, examinaremos as evidências literárias. Se alguém quisesse, poderia examinar como outros povos antigos interpretavam essas histórias. Isso mesmo. Aluno: [fora do microfone] Dr. Craig: É claro que é difícil datar essas coisas. Saber como datar as tradições orais que estão por trás de Gênesis 1–11 em comparação com os pseudoepígrafos judaicos extracanônicos e os escritos apócrifos que surgiram no período intertestamentário. Certamente, nesses escritos, há reflexões sobre esses personagens do Antigo Testamento. Mas eles são de centenas de anos depois, e isso também precisa ser levado em conta, penso eu.

Aluno: Creio que todos concordariam que a Bíblia contém linguagem claramente metafórica ou simbólica em certos lugares, mas eu simplesmente não vejo isso em Gênesis 1 a 11. O senhor pode dar um exemplo em que...? Dr. Craig: Bem, vamos esperar. Examinaremos isso mais adiante. Neste momento, estou examinando o contexto para ver como os mitos são entendidos pelas sociedades que os aceitam como verdadeiros. Faremos a aplicação mais adiante. Não quero me adiantar.

Plasticidade e flexibilidade

Deixem-me apresentar mais dois dados antropológicos que sugerem que algo diferente da verdade literal pode ser atribuído aos mitos de uma sociedade, e esses dados seriam a plasticidade e a flexibilidade dos mitos. Plasticidade diz respeito ao grau de variabilidade de um mito em determinado momento. Flexibilidade diz respeito ao grau de variabilidade ao longo do tempo. Assim, plasticidade seria um tipo de variabilidade sincrônica, enquanto flexibilidade seria uma variabilidade diacrônica. A plasticidade de um mito é demonstrada pela variabilidade de suas narrações orais contemporâneas, pois isso mostra que os próprios narradores das histórias não consideravam que elas tivessem uma forma rigidamente fixa. Em contraste, a flexibilidade de um mito é demonstrada por sua evolução ao longo do tempo, por sua mutabilidade e adaptabilidade a novas situações e desafios. Portanto, plasticidade diz respeito às diferentes versões da história que podem ser contadas ao mesmo tempo; flexibilidade é a capacidade do mito de se adaptar, ao longo do tempo, a circunstâncias mutáveis.

O antropólogo social Raymond Firth apresenta um excelente exemplo tanto da plasticidade quanto da flexibilidade do mito de Tikopia, um povo de uma ilha nas Ilhas Salomão. O exemplo diz respeito a duas versões de um mito notavelmente flexível sobre a construção do templo sagrado deles. O templo real foi construído por volta de 1700 e supostamente seguia o modelo do templo celestial construído por Deus. Na versão contemporânea do mito, Deus chama os homens para que lhe passem os pregos a fim de construir o templo celestial, mas eles se recusam e lhe passam apenas cascas e fibras de coco e cordas. Em uma versão da história, Deus, desgostoso com eles, parte com os pregos para a terra dos homens brancos, deixando os tikopianos obrigados a se virar com seus materiais de construção inferiores. Em outra versão do mesmo mito, o templo-modelo está, na verdade, sendo construído por Deus na Inglaterra, e ele chama os tikopianos, em inglês, pedindo os pregos. Sem entender inglês, os tikopianos continuam lhe passando esses materiais de coco, até que Deus, desgostoso, os bane para a ilha de Tikopia, mantendo os pregos de ferro na terra dos homens brancos.

Firth observa que esse é claramente um mito etiológico concebido para explicar por que os tikopianos dispõem de materiais de construção tão ruins, enquanto o homem branco tem pregos de ferro. Eis a parte interessante. O conhecimento desses instrumentos de ferro não chegou a Tikopia antes da chegada do homem branco, por volta de 1800. Lembrem-se de que o mito remonta ao século XVIII. Portanto, esse elemento da história, em que Deus pede que lhe passem os pregos e o povo se recusa a fazê-lo, deve ter sido uma adaptação posterior do mito da construção do templo celestial. Vemos aqui não apenas a flexibilidade do mito original, que conseguiu se adaptar à chegada do homem branco com seus superiores instrumentos de construção, mas também vemos sua plasticidade na variabilidade permitida na narração da história. Em qualquer das versões, apesar dos locais diferentes e das explicações diferentes, trata-se essencialmente da mesma história, e ambas são aceitáveis na sociedade tikopiana. Theodor van Baaren adverte que, se perguntarmos aos membros da sociedade se seus mitos mudaram, eles normalmente negarão.

“Se perguntados, a resposta dos informantes, em regra, será que as coisas são como sempre foram desde tempos imemoriais. Isso é evidente, porque, dentro de seu quadro cultural, essa é a única resposta apropriada.” Como resultado, os ocidentais às vezes formam uma visão enganosa das culturas primitivas como estáticas e estagnadas. Penso que, exatamente pela mesma razão, precisamos ter cautela com as afirmações dos nativos de que seus mitos são absoluta ou completamente verdadeiros — o que mais poderiam dizer? A plasticidade e a flexibilidade dos mitos dão apoio à ideia de que o que está em jogo ao se crer em um mito não é a crença em sua verdade literal. As diferentes versões do mito em que membros contemporâneos da sociedade acreditam podem ser logicamente incompatíveis entre si; ainda assim, uma verdade religiosa fundamental é comunicada pelas diversas versões do mito, de modo que não importa qual versão se conte. Ninguém se preocupa em corrigir quem conta uma versão diferente do mito, pois ela também expressa a mesma verdade fundamental.

Se esses mitos fossem entendidos como literalmente verdadeiros, então não poderiam ser modificados em resposta a novos desafios de maneiras incompatíveis com as versões anteriores. Mas, se ambas as versões continuam expressando a mesma verdade fundamental, então ambas podem ser consideradas absolutamente verdadeiras, apesar de suas diferenças.

Imagens mesopotâmicas e egípcias

Passemos agora a examinar as evidências literárias do Antigo Oriente Próximo. Como já mencionei em nossa discussão sobre a função das genealogias, os dados antropológicos contemporâneos sempre terão uma aplicabilidade incerta às histórias contadas pelo antigo Israel; por outro lado, as evidências literárias da mitologia do Antigo Oriente Próximo serão muito mais relevantes. Quando examinamos os mitos da Mesopotâmia e do Egito, encontramos o mesmo uso de linguagem figurada, plasticidade e flexibilidade revelado pelos dados antropológicos que acabamos de examinar. Primeiro, é evidente que os mitos do Antigo Oriente Próximo muitas vezes são altamente metafóricos, e não literais. Considere, por exemplo, a história da criação do mundo por Marduque no poema épico Enuma Elish, que já examinamos neste curso. O classicista F. M. Cornford escreveu, a respeito do relato da criação no Enuma Elish: “Ninguém além de um lunático sob a influência de haxixe poderia chegar à teoria de que eles [isto é, a terra e o céu] foram originalmente formados ao se partir ao meio o corpo de um dragão.” Nenhum babilônio antigo, ao olhar para o céu, esperava ver acima de si o corpo ressequido de Tiamat, nem esperava encontrar os rios Tigre e Eufrates nascendo dos globos oculares de Tiamat, como afirma o Enuma Elish. Essas são imagens figuradas, “atos de imaginação e fantasia”, como diz o classicista George Kirk. Elas não devem ser tomadas literalmente. De modo semelhante, na história da Epopeia de Gilgamesh sobre Gilgamesh e Enkidu matarem o Touro do Céu (que é a constelação de Touro) — essa história não poderia ser literal. Na história, o Touro do Céu desce à cidade de Uruque e causa destruição pela cidade, mas Gilgamesh e Enkidu matam o Touro agarrando-o pela cauda e apunhalando-o; depois o esquartejam e distribuem a carne aos pobres. É impossível interpretar isso literalmente.

Não só uma constelação estelar não pode descer, devastar a cidade, ser abatida e comida, como, se isso acontecesse — se tivesse acontecido literalmente —, então Touro já não deveria ser visto brilhando no céu noturno. Portanto, penso que a história deve claramente ser interpretada de modo metafórico. Da mesma forma, na mitologia egípcia, o céu podia ser representado de várias maneiras. Por exemplo, como a deusa Nut. A deusa Nut é representada arqueada sobre a Terra, com as mãos e os pés tocando o chão. Mas, novamente, nenhum egípcio, ao olhar para o céu, esperava ver o corpo de uma mulher nua arqueado sobre ele; nem, penso eu, podemos supor que alguma caravana tenha imaginado que poderia encontrar as enormes pernas ou braços de Nut estendendo-se até os céus. Mais uma vez, embora os mitos egípcios frequentemente retratem o deus-sol Rá navegando em uma barca pelos céus, essa barca repleta de outros deuses e ferramentas animadas, ninguém, ao olhar para o sol, pensava que veria tal comitiva navegando pelo céu. Quando o sol viaja para o mundo inferior à noite e retorna ao seu estado anterior à criação, isso não pode ter sido pretendido literalmente.

Será que nenhum soldado de guarda noturna ou agricultor que se levantasse antes do amanhecer percebeu que o mundo deixava de retornar a um mar primordial? Às vezes, o sol é representado como passando por um renascimento à noite. Ao pôr do sol, ele entra na boca de Nut e, ao nascer do sol, é dado à luz por sua vagina e sobe ao céu. Isso é claramente metafórico. Igualmente e obviamente metafórica é a representação do sol como um escaravelho ou como um falcão, pois considerava-se que um besouro rolador de esterco ou um falcão eram imagens apropriadas do sol. As representações dos deuses e deusas egípcios com corpos humanos e cabeças de animais não devem ser tomadas como retratos literais deles. Erik Hornung, que é egiptólogo e escreveu um excelente livro sobre os deuses do Egito, afirma que a religião egípcia vivia do fato de que os deuses realmente existem. Mas, para descrever essa realidade, precisava falar em “imagens metafóricas e representativas” dos deuses.

“Essas imagens... servem para expressar um conteúdo que talvez só possa ser adequadamente expresso dessa maneira.” Não apenas a linguagem metafórica e figurada dos mitos do Antigo Oriente Próximo sustenta uma leitura não literal desses mitos, mas também sua plasticidade e flexibilidade indicam que eles não são mais bem interpretados literalmente. Agora, antes de dizer algo sobre isso, quero perguntar se há algum comentário ou discussão sobre o caráter metafórico dos mitos do Antigo Oriente Próximo. Sim, Jonathan.

Discussão sobre gêneros e interpretação

Aluno: Fiquei curioso porque o islã me veio à mente enquanto eu pensava nisso. Ele fala do sol se pondo numa poça de lama e coisas assim. O senhor já pensou em como histórias como essa deveriam ser entendidas no contexto do islã? Dr. Craig: Não pensei a respeito do islã. Sei que Maomé se sentia profundamente ofendido com o politeísmo da Arábia pagã em que foi criado e, por isso, desejava uma concepção de Deus muito, muito mais elevada e exaltada do que a dessas religiões pagãs politeístas. Mas não conheço bem as imagens de Deus usadas no islã; portanto, desculpe, não posso falar sobre isso. Aluno: Lembro que o senhor mencionou isso há muito tempo, mas interpretar qualquer texto à luz da situação do conhecimento científico daquela época não seria uma forma de concordismo ou eisegese? O senhor mencionou que ninguém olhava para o céu esperando ver uma barca, por exemplo. Mas isso é porque não há nenhuma barca no céu. Isso não seria uma forma de...? Porque... Dr. Craig: Ah, não. Não creio que seja por isso. Não estou dizendo que, por não haver Tiamat no céu, é por isso que os babilônios não pensavam assim.

Os babilônios, ao olhar para o céu, viam a mesma coisa que você e eu vemos: as estrelas. A astronomia babilônica registra em detalhes minuciosos o movimento das estrelas. Eles não viam acima de si o esqueleto e a carne ressequida de um dragão. Da mesma forma, com relação a Nut, essas imagens da deusa do céu ou outras representações de deuses não eram interpretadas literalmente, e, como veremos, a plasticidade delas é apenas mais um indício disso, porque o céu pode ser retratado ou imaginado de muitas maneiras diferentes, incompatíveis entre si. Portanto, isso de modo algum é uma crítica concordista que tenta impor a ciência moderna a esses textos. Aluno: [fora do microfone] Porque não é moderno. Era daquela época. Eles já sabiam que não há nenhuma barca no céu. Dr. Craig: Certo. O que estou tentando fazer é examinar esses textos e me colocar dentro do horizonte do público original — colocar-me no lugar deles, por assim dizer — e perguntar: eles realmente pensavam que o céu e a Terra foram criados ao se partir ao meio o corpo de um dragão? Penso que a resposta é claramente não. Ou, de modo semelhante, os egípcios realmente acreditavam que existe essa mulher nua pairando sobre nós, com as palmas das mãos e as plantas dos pés apoiadas no chão? Novamente, penso que a resposta é claramente não.

Eles não entendiam essas imagens dessa maneira literalista. Aluno: Gosto disso. A ideia de que outras sociedades tinham mitos claramente metafóricos; não creio que o senhor esteja sugerindo que possamos atribuir isso a Gênesis. Gosto muito desse novo critério que pergunta: “Isso é claramente metafórico?” É algo que sabemos ser metafórico ou estamos lendo isso no texto porque não gostamos que ele seja, de fato, metafórico? Gosto desse novo critério. Dr. Craig: Está bem. Vou apenas reservar meu comentário sobre isso. Só não dê ênfase demais à palavra “claramente”, como se tivéssemos de ter certeza sobre essas coisas. O que perguntamos é: qual é a maneira mais plausível de entender essas histórias? Aluno: Ah, não. Eu ouvi o senhor dizer isso. Anotei. Tem de ser claramente metafórico porque nos é apresentado como Palavra de Deus, e Deus teve participação em escrevê-lo. Portanto, se vamos determinar que é mitológico, ou mito-histórico, ou seja lá o que for, é melhor que tenhamos absoluta certeza de que isso é verdade.

Dr. Craig: É importante entender que as Escrituras empregam uma variedade de gêneros literários, e, a esse respeito, é instrutivo comparar o primeiro livro da Bíblia com o último livro da Bíblia. O livro de Apocalipse também é a Palavra de Deus, e, ainda assim, ninguém o interpreta de modo literalista. Todos reconhecem que se trata de literatura apocalíptica judaica, na qual monstros de várias cabeças saindo do mar e tentando dominar a Terra não são como filmes japoneses de terror de terceira categoria. Em vez disso, são símbolos de nações e alianças de Estados-nação que combaterão entre si. Portanto, a Palavra de Deus pode usar metáfora, linguagem figurada e assim por diante. Assim, não devemos adotar como posição padrão a interpretação literal. Isso poderia ser realmente enganoso. Precisamos nos perguntar qual é o gênero do livro bíblico que estamos lendo, e isso nos ajudará então a discernir como interpretá-lo. Aluno: Isso parece bom. Aluno: Obrigado pelos detalhes sobre os mitos da antiguidade.

Minha pergunta: Hoje, vivendo nesta era de notícias falsas, em que a ficção domina a não ficção, minha pergunta — e é uma pergunta ampla; não quero desviar o foco de hoje — é: existe realmente algum período da história em que não encontremos um gênero no qual as pessoas inventem mitos para transmitir suas verdades? Dr. Craig: Essa é uma das coisas mais interessantes que esses folcloristas e mitógrafos modernos enfatizam. Ao contrário da atitude um tanto arrogante dos pensadores cientificistas do século XIX — de que nós, modernos, teríamos superado o estágio do mito, que seria característico do homem primitivo —, muitas vezes se ouve esses povos serem chamados de primitivos e selvagens. Hoje, os mitógrafos dizem que toda cultura, toda época, tem seus mitos, inclusive nós. Mas, com muita frequência, simplesmente não os reconhecemos. Aluno: Certo. Então, onde está esse gênero literalista? Dr. Craig: Bem, penso, por exemplo, que, quando alguém escreve uma obra histórica, pretende apresentar um relato real do que aconteceu. Aluno: Ainda há debates sobre isso. O assassinato de JFK. As pessoas ainda têm ideias sobre a maneira como acham que essa história moderna se desenrolou.

Novamente, não quero desviar o foco de Gênesis. Só sou cético quanto a realmente existir algum gênero, segundo esse critério, em que possamos dizer: “Ah, este é um gênero literalista.” Dr. Craig: Acho que isso simplesmente não é realista. É claro que podemos usar figuras de linguagem o tempo todo. Mas obras históricas, relatórios científicos, o Relatório Mueller — essas coisas pretendem ser tomadas literalmente. Não são como essas histórias que lemos. Aluno: Novamente, não quero sair do assunto, mas, como o senhor sabe, a ciência e a biologia são dominadas por uma estrutura evolucionista. Portanto, novamente, sou muito cético. Não estou dizendo que não acreditaria, mas isso toca o cerne da epistemologia. Dr. Craig: Você não tem frequentado esta aula há algum tempo. Acho que você está interpretando a palavra “mito” de forma incorreta aqui. Estamos falando da compreensão de mito dos folcloristas, segundo a qual se trata de uma narrativa tradicional e sagrada que procura estabelecer, no passado primordial, realidades presentes para o autor e seu público. Portanto, coisas como histórias sobre JFK e o outro atirador na colina gramada não são mitos no sentido em que estamos falando.

Encerramento e bênção

Está bem, está bem, deixem-me encerrar, e na próxima vez examinaremos mais dois desses fatores dos mitos do Antigo Oriente Próximo: sua plasticidade e flexibilidade, além de seu caráter metafórico. Então encerremos com uma bênção. E agora, que o Deus da criação, a fonte de toda a realidade fora de si mesmo, e o Senhor Jesus Cristo, que morreu por nossos pecados para nos reconciliar com Deus, e o Espírito Santo, que produz o novo nascimento e dá poder para viver uma vida santa, encham nossa vida nesta semana, para que vivamos de modo agradável aos seus olhos. Amém.

Aula de William Lane Craig. Publicação original: Reasonable Faith. © 2019 William Lane Craig. Tradução e edição em português: Fé Razoável. Transcrição conforme a legenda em português do vídeo. Preparação da transcrição: 20/10/2026.