Resumo da equipe Fé Razoável, preparado com auxílio de IA
Criar significa apenas atribuir funções a coisas já existentes? Craig aprofunda a crítica à interpretação funcional de John Walton examinando a cosmologia do antigo Oriente Próximo, o uso de bara e a relação entre o primeiro versículo de Gênesis e o restante do relato. Craig sustenta que a oposição entre criação material e funcional é uma falsa dicotomia, alheia aos próprios textos antigos. A leitura de Provérbios 8 e as perguntas da turma ajudam a discutir existência, ordem, desígnio e beleza. Ao final, um aluno apresenta respostas de Walton no BioLogos, e Craig distingue o que um autor afirma expressamente das consequências que uma interpretação parece ter. O debate continuará com a ideia de templo cósmico.
Aula e desenvolvimento
Hoje queremos continuar nossa discussão da interpretação funcional de John Walton de Gênesis capítulo 1. Terminamos da última vez dizendo que Walton tem um enorme ônus da prova no que diz respeito a justificar sua interpretação. Ele precisa mostrar que Gênesis 1 envolve apenas criação funcional e não também a criação de objetos materiais ao mesmo tempo. Caso contrário, sua visão se reduzirá à interpretação literal típica de Gênesis 1, de que Deus de fato traz à existência, ao longo de seis dias de 24 horas, as plantas, os animais, a terra seca, os corpos astrais, e assim por diante. Walton precisa mostrar que tudo o que Deus faz durante esses seis dias é atribuir funções a objetos materiais. Será que ele consegue sustentar esse ônus da prova?
Cosmologia antiga e criação
Primeiro vamos olhar para a cosmologia do antigo Oriente Próximo. Walton afirma que, quando olhamos para os mitos de criação do antigo Oriente Próximo, descobrimos, “as pessoas no mundo antigo acreditavam que algo existia não em virtude de suas propriedades materiais, mas em virtude de ter uma função em um sistema ordenado.” Mas a evidência sustenta essa afirmação? Penso que a resposta é claramente não. Walton assinala, “Quase todos os relatos de criação do mundo antigo começam sua história sem nenhum sistema em operação estabelecido. Textos egípcios falam de uma singularidade – nada tendo ainda sido separado. Tudo é inerte e indiferenciado.” A criação frequentemente começa com as águas primevas das quais emergem a terra seca ou os deuses.
Vocês se lembrarão de que, quando discutimos creatio ex nihilo, vimos que a forma típica desses antigos mitos de criação era “Quando ____ ainda não existia, então ____.” Este é o tipo de forma que Walton identifica no mito da fundação da cidade babilônica de Eridu.
É isto que este antigo texto diz: “Nenhuma casa sagrada, nenhuma casa dos deuses, havia sido construída em lugar puro; nenhum junco havia brotado, nenhuma árvore havia sido criada; nenhum tijolo havia sido colocado, nenhum molde de tijolos havia sido criado; nenhuma casa havia sido construída, nenhuma cidade havia sido criada; nenhuma cidade havia sido construída, nenhum assentamento havia sido fundado; Nipur não havia sido construída, Ekur não havia sido criado; Uruk não havia sido construída, Eana não havia sido criada; as profundezas não haviam sido construídas, Eridu não havia sido criada; nenhuma casa sagrada, nenhuma casa dos deuses, nenhuma morada para eles havia sido criada.
Todo o mundo era mar, a fonte no meio do mar era apenas um canal, então Eridu foi construída, Esagila foi criada.” Esta forma típica dos antigos mitos de criação é o que você encontra em Gênesis 2:5-7: “...não havia ainda nenhuma planta do campo na terra e nenhuma erva do campo havia brotado ainda... então o SENHOR Deus formou o homem...” As descrições do mundo primordial nos mitos pagãos não eram, portanto, descrições de objetos materiais segundo as quais plantas e animais e edifícios e pessoas todos existiam mas meramente careciam de uma função. Antes, são descrições de um estado em que objetos materiais distintos desses tipos não existem de modo algum. Nenhum deles existia naquele tempo. Isso é especialmente evidente nos mitos egípcios mencionados por Walton. A mitologia egípcia era uma forma de monismo ou panenteísmo.
Ela era uma tentativa de resolver o antigo problema do “um e os muitos”, isto é, qual é o fator unificador por trás da multiplicidade de coisas que observamos no mundo. A resposta monista a essa questão era dizer que, originalmente, havia uma realidade primordial, indiferenciada, única da qual então a multiplicidade evoluiu ou emanou. Nesses mitos egípcios você tem tal condição primordial, indiferenciada, incoativa, sem caráter, da qual então a multiplicidade evolui. Isso envolve a criação de um sistema ordenado de objetos funcionais que vêm à existência. Envolve o vir à existência desses objetos e não apenas a especificação de funções para objetos materiais que já estavam presentes.
Assim, quando Walton conclui, “consequentemente, criar algo (fazê-lo existir) no mundo antigo significa dar-lhe uma função, não propriedades materiais”, ele está traçando uma falsa dicotomia que é alheia a esses textos antigos. Quando se trata de Gênesis capítulo 1, para que este texto apresente apenas criação funcional devemos imaginar que a terra seca, a vegetação, as árvores, as criaturas marinhas, as aves, os animais terrestres, até mesmo o homem já estavam todos ali desde o princípio mas simplesmente não funcionavam como um sistema ordenado. Mas tal visão é implausível (para não dizer ridícula).
Ela exigiria que tomássemos como literalmente falsas todas as afirmações sobre as trevas, o oceano primevo, o surgimento da terra seca, a terra produzindo vegetação e árvores frutíferas, as águas produzindo criaturas marinhas, a terra produzindo animais, e Deus fazendo o homem. Note que Walton não pode dizer que essas coisas não podem existir à parte de um sistema ordenado, pois, no momento em que você diz isso, então a visão da criação funcional colapsa na visão tradicional de uma criação em seis dias – realmente trazendo essas coisas à existência ao longo desses seis dias. Essa é a interpretação tradicional. Deus tanto traz as coisas à existência como especifica o papel delas em um sistema ordenado.
Quão bizarra é a interpretação de Walton fica evidente em sua afirmação de que a criação material da biosfera pode ter prosseguido por eras antes de Gênesis 1:1 e então em algum ponto do passado relativamente recente veio um período de sete dias consecutivos de 24 horas durante os quais Deus especificou as funções de tudo o que existia naquele tempo. Não obstante Walton, isto é a coisa mais distante de uma interpretação literal do texto que se pode ter, a qual ele afirma que sua visão é. Isso implica que todas as descrições do mundo no começo e durante aquela semana relativamente recente são literalmente falsas.
Se você perguntasse o que uma testemunha ocular teria visto durante aquela semana, Walton ou se esquiva de responder à pergunta ou admite que a resposta é que o mundo antes daqueles sete dias teria carecido apenas da humanidade à imagem de Deus e da presença de Deus em seu templo cósmico. Em outras palavras, tudo parecia exatamente o mesmo exceto que as pessoas que então existiam ainda não haviam sido declaradas por Deus como funcionando como seus vice-regentes na Terra, e Deus ainda não havia especificado o cosmos para funcionar como seu templo. Uma testemunha ocular não teria observado, e não observou segundo a visão dele, mudança alguma no mundo como resultado daquela semana criativa.
Se vamos adotar uma leitura do texto que está tão em desacordo com a descrição prima facie do texto do mundo, precisamos ter evidência extremamente poderosa, penso eu, para adotar tal interpretação. Então queremos perguntar, a seguir, que evidência Walton dá para uma interpretação puramente funcional de Gênesis 1.
Perguntas: sabedoria, funções e desígnio
Mas antes disso, há alguma dúvida ou comentário do que foi dito até aqui?
Aluno: Eu quero dialogar sobre isso a partir da referência de Provérbios 8:22-31. Esta é a Sabedoria falando.
Dr. Craig: OK. Provérbios 8:22-31: "O SENHOR me possuía no início de sua obra, antes das suas obras mais antigas. Fui estabelecida desde a eternidade, desde o princípio, antes do começo da terra. Nasci antes de haver abismos, quando ainda não havia fontes carregadas de águas. Antes que os montes fossem firmados, antes de haver outeiros, eu nasci; Deus ainda não tinha feito a terra, nem os seus campos, nem sequer o princípio do pó do mundo. Eu estava lá quando ele preparava os céus, quando traçava o horizonte sobre a face do abismo. Estava lá quando ele firmava as nuvens de cima, quando estabelecia as fontes do abismo, quando fixava ao mar os seus limites, para que as águas não transgredissem a sua ordem. Quando ele compunha os fundamentos da terra, eu estava com ele e era o seu arquiteto.
Dia após dia eu era a sua alegria, divertindo-me em todo o tempo na sua presença, divertindo-me no seu mundo habitável e achando alegria junto aos filhos dos homens."
Aluno: A primeira pessoa é a Sabedoria, e ele diz que estava antes da fundação do mundo. Esta é uma visão possível em que este abstrato – podemos até dizer no princípio era o Verbo – esse Verbo pode se equiparar a esta Sabedoria. É um conceito abstrato em que podemos pensar como o desígnio de Deus. Ele estava lá antes de o mundo material existir, e Deus falou isso para dentro do mundo material. Então nessa visão, o funcional é de fato anterior ao material. Quero ouvir o que o senhor pensa sobre isso.
Dr. Craig: Está bem. Ótima pergunta. Claramente isto é uma reflexão sobre o relato da criação, não é? Você vê os muitos paralelos. Quando fala da Senhora Sabedoria aqui, isto é, como você diz, uma personificação literária de um conceito abstrato. A sabedoria é um atributo ou propriedade de Deus, e em Provérbios a Sabedoria é personificada como uma mulher que então fala. Ela diz: eu estava com Deus no princípio. Parece-me que a passagem que acabamos de ler sustenta claramente a visão de que esses objetos vêm à existência; que eles são criados. Não é que eles todos existiam e Deus meramente lhes atribui funções. Repetidas vezes na passagem ela diz que não havia abismos, antes dos montes terem sido formados, antes dos outeiros.
Repetidas vezes ela parece dizer que havia uma condição durante a qual Deus existia com sua Sabedoria mas todas essas coisas materiais não existiam, e ele as trouxe à existência. Parece-me que esta passagem iria muito na direção contrária à visão funcional da criação de Walton.
Aluno: Considerando sua interação com apologistas e teólogos ao redor do mundo basicamente, quanta influência você acha que Walton está tendo? Eu sei que ele é um escritor prolífico.
Dr. Craig: Sim, ele é!
Aluno: Todo mundo com quem falei realmente não segue tanto a visão dele de Gênesis 1 quanto as visões dele sobre Adão e Eva. Estou apenas curioso para saber qual você acha que é a influência dele?
Dr. Craig: Penso que, pelo menos por um tempo, ela foi muito extensa. Quando eu estava em sessões na Academia Americana de Religião e na Sociedade de Literatura Bíblica sobre a visão de Walton, fiquei simplesmente chocado com quão prontamente o painel aquiesceu às visões dele, e ninguém pareceu levantar uma crítica ou objeção, que para mim são patentes! Essas objeções são óbvias, penso eu. Desde então, como veremos em um momento, penso que, com alguma passagem de tempo e reflexão maior, há agora, penso eu, ceticismo crescente sobre a viabilidade da interpretação funcional porque ela exige que você trace essa forte dicotomia entre criação material e criação funcional. Ele não permitirá que você tenha ambas nesses textos – apenas atribuição de funções. A impressão que tenho é que os estudiosos agora estão dizendo que essa dicotomia é falsa.
Aluno: Sempre falamos sobre: a forma seguir a função, ou que você projeta algo para que ele funcione para aquilo que você quer que faça, tenho dificuldade em distinguir, em criar essa dicotomia que você acabou de dizer.
Dr. Craig: É tão interessante que você traga isso à tona. Não era essa a chamada escola Bauhaus de arquitetura e arte? Que a forma segue a função? Pelo menos como me lembro. Lembro-me de termos estudado isso na faculdade.
Aluno: Nós não considerávamos arquitetura engenharia de verdade, então . . . [risos]
Dr. Craig: A ideia de que “a forma segue a função” era eliminar de seus projetos a decoração supérflua que não tinha função. Coisas como uma igreja rococó. Se vocês viram como elas são simplesmente incrustadas de decorações e querubins e todo tipo de coisas fantasiosas, e a escola de pensamento da forma-segue-a-função era: não, esses elementos não funcionais devem ser eliminados, e você deve criar formas esteticamente agradáveis que sejam funcionais. Isso parece-me dizer que, se um projetista tem uma função em mente – por exemplo, uma jarra. Ele quer criar algo que armazene e despeje água.
Ele então criará uma jarra que seja simples, que tenha um tipo de bico, que tenha uma alça, que seja capaz de conter uma boa quantidade de água, mas ele não criaria, por exemplo, uma jarra que tivesse a forma, digamos, de uma vaca e a água saísse de sua boca para o copo. Todos nós já vimos jarras assim. A forma-segue-a-função diria que isso é um projeto ruim. Isso parece-me bastante consistente com a noção de que Deus projeta o mundo com certas funções em mente, e que então ele cria as plantas e os animais para desempenharem essas várias funções. O que a visão de Walton exige que digamos é que já havia esses objetos materiais e que agora Deus lhes atribui funções. Por exemplo, a vegetação agora servirá à função de alimento para os animais. E os animais servirão à função de controlar o ecossistema por terem uma biosfera viável.
E o homem terá uma função diferente. Na visão dele, o que Gênesis 1 envolve é sete dias literais, consecutivos, de apenas atribuir funções às coisas, mas elas não estão vindo à existência. Isso me parece simplesmente totalmente implausível.
Aluno: Lembro-me de que em um debate há algum tempo, o senhor fez um comentário em que seu oponente estava pensando em Deus mais semelhante a um engenheiro em oposição a um artista. Como alguém como Walton dá sentido ao aparente desperdício?
Dr. Craig: OK, isso realmente dá seguimento à pergunta anterior. Eu não estava endossando o axioma da forma-segue-a-função. Eu estava apenas explicando-o. Mas você poderia dizer que o mundo envolve muito excesso de decoração, não é? Corais que crescem em belos recifes que permanecem invisíveis. Flores silvestres nas montanhas que ninguém jamais vê. Galáxias e estrelas que são belas mas nunca são vistas por ninguém. Então você poderia dizer que há muito excesso de beleza e decoração no universo que não serve a uma função. Aí eu sou inclinado a pensar que Deus é mais como um artista do que como um engenheiro no sentido de que ele mesmo desfruta da beleza da criação e assim cria um mundo belo que o reflete, embora nós, seres humanos, possamos não ver muito disso, e possa parecer excessivo. Penso que Walton poderia dizer algo assim também.
A visão dele não é que essas funções sejam realmente definidas de modo estreito como a função do pescoço comprido de uma girafa ser alcançar as folhas nas árvores. Não é esse o tipo de função de que ele está falando. É muito mais geral do que isso. Como eu disse, a vegetação serve à função de alimento para os animais. Mas isso não implica que os cactos têm espinhos ou acúleos como um modo de afastar herbívoros de os comer. Ele não é tão específico assim.
Aluno: Na visão dele, ele realmente pensa que Deus criou o mundo em algum ponto?
Dr. Craig: Sim, ele de fato afirma isso. Ele apenas diz que o relato de Gênesis, capítulo 1, não é a história disso. Se houve uma criação do mundo a partir do nada, ela aconteceu em algum momento antes de Gênesis 1.
Aluno: Então Deus criou tudo mas não tinha função.
Dr. Craig: É isso que parece implicar. Isso parece loucura, não é? Que Deus criou toda essa coisa e a deixou parada por eras sem função e então finalmente, no passado relativamente recente, ele tomou sete dias e declarou funções para essas coisas. Isso simplesmente parece contrário à natureza de um Deus sábio e providente. Concordo com você. Penso que é uma visão bizarra.
Aluno: Voltando à Sabedoria e à Sabedoria estar lá antes das profundezas, para haver desígnio você tem de ter um atualizador. Duas coisas a considerar. Onde está a criação angélica em relação a isso no que se refere ao tempo e a como ela é atualizada? E Deus está apenas acrescentando mais função com esta criação mais recente? O fato de que as coisas que são vistas são temporais mas retratam as coisas que são realmente reais, como as espirituais. Você tem reprodução assexuada primeiro antes de ter bissexuada, o que é simbólico de Deus dando nova esperança. É assim que eu vejo as coisas. Eu consigo ver como você poderia atribuir esta criação mais recente sendo uma superior em que tudo é mapeado a ela e Deus redimindo a anterior caída por causa da queda angélica.
Dr. Craig: Walton não fala a esses tipos de questões, e penso que a razão é porque ele não está fazendo uma teologia sistemática da criação. Ele é um estudioso do Antigo Testamento que quer interpretar esta passagem particular no livro de Gênesis. A pergunta é muito limitada: sobre o que é esta passagem? Ele pensa que, quando você a lê contra o pano de fundo do antigo Oriente Próximo, o assunto dela é a atribuição de funções às coisas. Ele simplesmente não está abordando esses tipos de questões teológicas mais profundas que você levantou.
Aluno: Estou pensando que, para algo estar em existência, parece que mesmo se não estiver funcionando ele teria o potencial de funcionar, como um interruptor de luz que ainda não foi ligado. Para algo ter potencial para funcionar, não teria de ter outras funções já em vigor? Em outras palavras, estou lutando com a linha do tempo aqui. Walton diria que os dias da criação também eram a ordem correta de dias para as coisas funcionarem adequadamente? Coisas como uma relação de dependência estariam envolvidas aqui. Não tenho certeza se minha pergunta está clara.
Dr. Craig: Penso que você está levantando um ponto realmente bom. Acho que isso está meio relacionado a um ponto anterior. É muito difícil ver como essas funções poderiam ser atribuídas a coisas que fossem totalmente não funcionais. Não tinha, por exemplo, partes funcionando. Concordo. Penso que isso está certo. A visão é tão bizarra que às vezes me pergunto: será que eu o entendi mal? Mas se você diz que Gênesis, capítulo 1, envolve não apenas a atribuição de funções mas também o vir à existência dessas coisas então, como digo, isso simplesmente colapsa para a típica visão de criação ao longo de seis dias consecutivos de 24 horas. Esses criacionistas tradicionais não negariam que Deus também atribui funções às coisas como ao sol e à lua e às estrelas no quarto dia. Isso é muito claro.
Então penso que estas perguntas que vocês estão levantando são todas objeções poderosas à visão.
Aluno: Eu não concordo com ela, mas não poderia ser que ele esteja dizendo que quando essas coisas são feitas sua função é trivial, e então quando elas recebem uma atribuição isso se torna significativo? É como se eu tivesse um servo hidráulico na minha mesa que ajusta os flapes de um avião. Trivialmente ele poderia ser usado como peso de papel. Mas isso é uma função trivial.
Dr. Craig: Não penso que essa seja a visão dele. Você está sugerindo uma maneira talvez de emendar a visão ou salvá-la, porque o tipo de funções que ele diz que Deus atribui são tão gerais que é difícil ver como elas não poderiam já estar ali. Por exemplo, a função do sol é marcar a diferença entre dia e noite. No dia um, você tem o dia e a noite, e no dia quatro ele atribui essa função ao sol. Ou a função atribuída à vegetação para ser comida pelos animais. É tão geral que é difícil ver como ele poderia dizer o que você acabou de dizer.
Bara e o início do relato da criação
Vamos prosseguir. Eu sugeri que precisamos perguntar então que evidência Walton dá para uma interpretação puramente funcional de Gênesis 1. Seu primeiro argumento é que a palavra hebraica bara – a palavra hebraica para “criar” – diz respeito à criação funcional. Ele fornece uma tabela listando aproximadamente cinquenta passagens no Antigo Testamento onde a palavra bara é usada. Os objetos que se diz serem criados incluem coisas como os céus e a terra, criaturas marinhas, pessoas, o exército das estrelas, uma nuvem de fumaça, Israel, os confins da terra, norte e sul, desastre, um coração puro, e assim por diante.
Inacreditavelmente, a partir dessa lista Walton conclui, “Esta lista mostra que objetos gramaticais do verbo não são facilmente identificados em termos materiais, e mesmo quando o são, é questionável que o contexto os esteja objetificando.” Eu teria pensado precisamente o contrário! A maioria desses objetos na lista é facilmente identificada como objetos materiais. Agora, reconhecidamente, alguns não são objetos materiais. Por exemplo, um coração puro – “cria em mim um coração puro, ó Deus.” Ou Israel. Ou norte e sul. Esses não são objetos materiais. Mas essas são as exceções. Os três objetos de bara em Gênesis 1 – os céus e a terra, as criaturas marinhas, e o homem – são todos casos claros de objetos materiais. Só porque eles não são criados ex nihilo não implica que eles não venham à existência no momento de sua criação.
À parte do possível caso de Israel, nenhum dos objetos de bara no Antigo Testamento são coisas existentes às quais meramente se dá uma nova função. Dos objetos na lista, nenhum deles (exceto talvez Israel) é um objeto já existente ao qual então simplesmente se atribui uma nova função. Walton opina que a razão pela qual a interpretação funcional de Gênesis 1 “nunca é considerada” por outros estudiosos (isso por si mesmo é uma admissão reveladora) é porque eles foram desencaminhados por “influências culturais de nossa cultura material.” Dificilmente, penso eu. Tal afirmação impugna a credibilidade de estudiosos do antigo Oriente Próximo. Suspeito que a razão pela qual ninguém mais interpretou o texto assim é porque é uma leitura tão obviamente equivocada do texto.
O estudioso do Antigo Testamento, John Collins, diz, “Concordo com quase todos os demais que Gênesis registra algum tipo de origens materiais e eu não compreendo exatamente por que Walton continua fazendo uma distinção entre material e funcional.” O próximo argumento de Walton é que o relato da criação propriamente dito começa em Gênesis 1:2. Ele diz que o versículo 1 (vocês se lembrarão: “No princípio Deus criou os céus e a terra”) é apenas um resumo da semana inteira, não um ato inicial de criação anterior ao versículo 2. Ele diz que a criação não envolve trazer matéria à existência mas apenas estabelecer funções. É importante entender quão radical é a interpretação de Walton.
Poderíamos pensar que ele quer dizer que a criação começa com as águas primordiais já postas e então nos sete dias seguintes Deus introduz ordem e funcionalidade fazendo a terra seca aparecer, fazendo com que as criaturas marinhas e as aves entrem em cena, fazendo a vegetação brotar da terra seca, os animais terrestres virem a existir, etc. Mas isso não sustentaria a afirmação dele de que apenas criação funcional está envolvida. Mesmo que essas coisas não sejam criadas ex nihilo, ainda assim, seriam instâncias de criação assim como a construção de uma cadeira é a criação dessa cadeira por um carpinteiro ainda que ele use material na construção dessa cadeira. Não, se este relato deve ser exclusivamente funcional como Walton afirma então todas as plantas e animais e até mesmo o homem devem estar ali desde o começo.
Então Walton, na página 169, afirma que antes dos sete dias de Gênesis 1, os dinossauros e os hominídeos estavam vivos e bem apenas esperando receber suas respectivas funções. Mesmo se concordarmos que a criação propriamente dita começa no versículo 2, não há nada no texto para sustentar uma interpretação tão nova. Mas Walton está certo ao pensar que o versículo 1 não é parte do processo da criação? Ele não está. E aqui eu simplesmente os remeto de volta à nossa discussão de creatio ex nihilo anteriormente na doutrina da criação. Walton não, pelo menos neste livro The Lost World of Genesis One, interage com os argumentos exegéticos que sustentam o versículo 1 como uma afirmação de creatio ex nihilo. Se isso está correto, então a afirmação de Walton de que Gênesis 1 é puramente funcional colapsa.
Respostas de Walton e discussão
Alguma pergunta sobre o que foi dito até esse momento?
Aluno: Há um blog que Walton escreveu que é o BioLogos.org. Você viu, onde ele passou meio que ponto por ponto por essas objeções?
Dr. Craig: Não! Não vi. Você quer nos dar o link, ou endereço?
Aluno: BioLogos.org. Ele aborda aqui as questões de objetos materiais não funcionais. Ele diz que a ideia de o sol existir mas não queimar ou de animais simplesmente ficarem em um estado comatoso é um mal-entendido da posição dele. Ele aborda o que aconteceu nos sete dias. Ele diz aqui a importância de ex nihilo – isso é meio que um grande cabeçalho aqui. Ele fala sobre isso alguns acreditam que Gênesis 1 tem de ser interpretado em termos materiais para que não percamos a importante doutrina da criação ex nihilo. Isso não é verdade. A primeira observação a ser feita é que outras passagens na Bíblia afirmam Deus como criador do mundo material e ou implicam ou afirmam que a criação aconteceu ex nihilo.
Dr. Craig. Certo. Já dissemos isso. O ponto que me interessa mais é a afirmação dele de que os animais não estão deitados em estado comatoso, que o sol não está queimando e produzindo calor mesmo existindo. É muito importante entender – há uma diferença entre o que uma pessoa diz e o que a visão dela implica.
Aluno: Ou o que ele quer dizer com o que diz.
Dr. Craig: Não estou afirmando que Walton diz que os animais estavam deitados em estado comatoso ou que o sol não estava queimando. Mas parece-me que é isso que a visão dele implica. O que eu quero saber é qual é a visão dele se esses animais não estão deitados em estado comatoso e o sol não está queimando e aquecendo as coisas? Ele de fato parece afirmar que eles existiam. Certo? Mas apenas careciam de suas funções atribuídas.
Aluno: Ele diz que eles estavam desempenhando suas atividades de caçar uns aos outros por alimento e operar e todas essas coisas antes de Deus lhes dar seu nome e função. Como o senhor disse, realmente isso simplesmente volta à interpretação literal.
Dr. Craig: Para mim, isso é ou causalidade retroativa – eles estavam exercendo suas funções dadas a eles mais tarde – ou então, quero saber o que mudou como resultado daquela semana de declarar funções.
Aluno: Ele fala muito aqui sobre o que começou a fazer quando Deus declarou o nome da função. Começou a funcionar como espaço sagrado. Então ele fala sobre Deus não estar realmente lá até criar os seres humanos e inserir a si mesmo na criação. Antes disso ela não estava funcionando plenamente da maneira como funciona agora.
Dr. Craig: Essa é uma leitura muito diferente disso, e está relacionada à visão dele da qual falaremos na próxima vez de que o mundo funciona como um templo cósmico no qual Deus habita. Direi algumas coisas sobre isso depois também. Mas obrigado pelo menos por nos alertar para esse site. Eu tenho correspondido com Walton pessoalmente e assim estava levando em conta o que ele havia comunicado pessoalmente a mim em sua carta. Mas eu não havia olhado o site do BioLogos. Isso seria muito interessante.
Aluno: Pelo menos parece que ele está muito ciente das objeções e pelo menos fez algum tipo de tentativa de respondê-las.
Dr. Craig: Sim, tenho certeza de que deve estar.
Aluno: O que você acha que Walton... é que é uma visão tão bizarra. Parece realmente difícil de defender. Ele tem de dar todo tipo de cambalhota lógica para tentar justificá-la. O que você acha que é a motivação dele para promover essa visão? Quero dizer, o que ele está tentando realizar com a visão?
Dr. Craig: Não posso falar das motivações pessoais dele. Isso seria tentar psicanalisá-lo. Mas em termos de o que isso procura realizar, penso que o que procura fazer é dar uma leitura literal de Gênesis 1 sem comprometer você com o Criacionismo da Terra Jovem. O Criacionismo da Terra Jovem é uma espécie de bête noire dos estudiosos e teólogos bíblicos. Ele simplesmente tem de ser evitado a todo custo porque está tão massivamente em contradição com a ciência moderna, a história, a linguística, e assim por diante. Então se procuram interpretações que ajudariam você a ser fiel ao texto mas a evitar dizer que alguns milhares de anos atrás Deus criou o mundo em seis dias literais.
Aluno: Simplesmente parece que ele tem outras opções.
Dr. Craig: Certo! Espero que seja isso que esta aula mostrou. Nós estivemos examinando todas essas opções, e um dos meus objetivos é apenas ampliar sua maneira de pensar sobre isso – não fazê-lo chegar a uma certa conclusão mas apenas perceber que há muitas opções disponíveis que estão à disposição para serem consideradas. Então, com isso, vamos encerrar com uma palavra de oração.
Oração final
Pai, obrigado pela alegria e pela comunhão de nos reunirmos e pensarmos sobre essas questões importantes desta maneira. E agora oramos para que nos santifique. Oramos para que nos ajude nesta semana a honrar a ti em tudo o que fazemos, e a dizer e pensar para o louvor de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, em cujo nome oramos. Amém.



