Perguntas e Respostas

#20 O argumento kalam e as causas cósmicas múltiplas

Pergunta

Olá, Dr. Craig,

Estou lendo o seu livro “The Kalam Cosmological Argument” [O argumento cosmológico kalam] e acho-o bem persuasivo. Entretanto, gostaria de saber como o senhor responderia às respostas das “muitas causas”? Seria possível haver mais do que uma causa eficiente do universo?

Saudações,

Doug

United States

Dr. William Lane Craig

Dr. Craig responde

Devo confessar que nunca senti o peso dessa objeção, Doug. Ela me faz lembrar da objeção ao argumento teleológico, segundo a qual ele só prova a existência de um Projetista do Cosmo, mas não, necessariamente, a de um Criador. Se as pessoas achassem mesmo que houve um Projetista do universo ficariam espantadas e estupefatas diante da possibilidade, não ficariam se queixando de que ele não poderia ser também o Criador. De modo semelhante, nesse caso, queixar-se de que não sabemos, com base no argumento cosmológico kalam, se o Criador pessoal do universo é único ou não parece uma trivialidade total em comparação com aquilo que o argumento prova. Quem está buscando a verdade achará aqui, não um atalho do argumento, mas um incentivo para investigar com mais profundidade.

Caso se conseguisse provar que a causa da origem do universo é onipotente, acho, então, que seria possível produzir com sucesso um argumento a favor da singularidade da causa, com base na impossibilidade da existência de uma miríade de seres onipotentes. Para mim, porém, não é óbvio que a causa do universo tem de ser onipotente. Talvez haja aqui um argumento da creatio ex nihilo — Duns Scotus defendia que, visto que há uma distância infinita entre ser e não ser, seria necessário um poder infinito para criar o universo a partir do nada. Ele poderia alegar que não é possível ter poder maior do que o poder de criar ex nihilo. Acho esse argumento bastante sedutor, mas não estou totalmente convencido. Portanto, essa é uma área que demanda uma exploração mais profunda.

O argumento kalam é obviamente não consistente com a existência de um grupo de divindades fazendo acrobacias uns com os outros antes da criação do mundo, visto que o argumento nos remete ao estado imutável que, segundo penso, é atemporal. Imaginar um grupo de mentes incorpóreas e atemporais atuando, sabe-se lá como, totalmente em conjunto para criar o mundo aproxima-se demasiadamente da doutrina da Trindade. O conceito trinitário (ou unitário) de Deus parece muito mais plausível do que os muitos deuses do politeísmo, existindo todos eles de modo independente e atemporal, e trabalhando de comum acordo para criar o universo.

Isso posto, parece-me que o proponente do argumento kalam apelará com toda razão para a navalha de Ockham: não se deve multiplicar as causas além do necessário. Uma causa é aceitável apenas para supor as causas necessárias que explicam o efeito. No caso da origem do universo, precisa-se só de um Criador pessoal ultramundano, pois seria desnecessário supor mais de um.

Além disso, é preciso lembrar que a nossa defesa a favor do teísmo é acumulativa e a singularidade de Deus é dada por outros argumentos diferentes, como o argumento leibniziano da contingência, o argumento moral e o argumento ontológico. Ademais, temos boas razões para crer na reivindicação radical de Jesus de Nazaré, de ser a revelação definitiva de Deus, e Jesus ensinou o monoteísmo: “Ouve, ó Israel, o Senhor nosso Deus é o único Deus”.

William Lane Craig*

* Leia o original em inglês no Reasonable Faith

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