Fé Razoável com William Lane Craig

Doutrina de Deus: Atributos de Deus (Parte 13): Estudo Sistemático da Onisciência de Deus

William Lane Craig · Seção 03 / Aula 13 ·

Resumo da equipe Fé Razoável, preparado com auxílio de IA

Conhecer o futuro não é o mesmo que conhecer o que ocorreria em outras circunstâncias. William Lane Craig acrescenta esse aspecto ao levantamento bíblico da onisciência, usando Davi em Queila e a pesca orientada por Jesus. A distinção entre condicionais subjuntivas e contrafactuais prepara a definição de onisciência como conhecimento de todas as verdades, sem crenças falsas.

A aula amplia a discussão ao diferenciar conhecimento proposicional e autoconhecimento. Os exemplos do alce e da amnésia mostram por que uma perspectiva em primeira pessoa importa para agir. Craig argumenta ainda que Deus não depende de instrução externa para conhecer. As perguntas exploram consciência, identidade pessoal e o alcance dessas distinções, encaminhando os problemas de presciência e liberdade para a aula seguinte.

Transcrição da aula

Nós temos visto passagens bíblicas sobre a onisciência de Deus ou seu atributo de ser onisciente. E por causa das perguntas feitas na semana passada, eu percebi que havia omitido uma parte importante das passagens bíblicas sobre a onisciência divina, então eu vou retomar e ler algumas passagens que são pertinentes. Elas seriam um quinto ponto das passagens das escrituras, em que Deus sabe o que aconteceria em diferentes circunstâncias. Deus não só sabe tudo o que está acontecendo, tudo o que aconteceu e vai acontecer, mas também sabe o que aconteceria em diferentes circunstâncias.

Dados bíblicos e condicionais

Uma das passagens clássicas que ilustram isso é encontrada em 1 Samuel 23:1-13. Esta é a história de Davi em Queila. "Então disseram a Davi: — Eis que os filisteus estão atacando a cidade de Queila e saqueando as eiras. Davi consultou o SENHOR, perguntando: — Devo ir e atacar esses filisteus? O SENHOR respondeu a Davi: — Vá, ataque os filisteus, e livre a cidade de Queila. Porém os homens de Davi lhe disseram: — Temos medo aqui em Judá, quanto mais indo a Queila lutar contra as tropas dos filisteus. Então Davi tornou a consultar o SENHOR, e o SENHOR lhe respondeu: — Levante-se e vá até Queila, porque estou entregando os filisteus em suas mãos. Então Davi e os seus homens foram a Queila, lutaram contra os filisteus e tomaram todo o gado deles. E causaram grande matança entre eles. Assim, Davi salvou os moradores de Queila.

Aconteceu que, quando Abiatar, filho de Aimeleque, fugiu para junto de Davi, em Queila, levou a estola sacerdotal. [Este é um tipo de objeto de adivinhação para consultar o Senhor.] Foi anunciado a Saul que Davi tinha ido a Queila. Então Saul disse: — Deus o entregou nas minhas mãos. Está cercado, pois entrou numa cidade de portões e ferrolhos. Então Saul mandou chamar todo o povo para a batalha, para que descessem a Queila e cercassem Davi e os seus homens. Quando Davi soube que Saul maquinava o mal contra ele, disse ao sacerdote Abiatar: — Traga aqui a estola sacerdotal. Então Davi orou: — Ó SENHOR, Deus de Israel, teu servo ouviu que Saul, de fato, procura vir a Queila, para destruir a cidade por minha causa. Será que os moradores de Queila me entregarão nas mãos dele? Será que Saul virá mesmo, como o teu servo ouviu? Ah!

SENHOR, Deus de Israel, revela isto ao teu servo. E o SENHOR lhe disse: — Ele virá. Então Davi perguntou: — E será que os moradores de Queila me entregarão, juntamente com os meus servos, nas mãos de Saul? O SENHOR respondeu: — Entregarão. Então Davi e os seus homens, que eram uns seiscentos, saíram de Queila e se foram sem rumo certo. Quando foi anunciado a Saul que Davi tinha fugido de Queila, deixou de persegui-lo." Assim, o que o éfode disse, de fato, não aconteceu. Saul não desceu a Queila, e assim os homens de Queila não entregaram Davi a Saul. O éfode provavelmente era um dispositivo que produzia apenas uma resposta "sim" ou "não" e, portanto, respondou de tal maneira que mostrou a Davi o que aconteceria se ele permanecesse na cidade. Se ele ficasse lá, então Saul viria à cidade.

E se ele descesse e atacasse a cidade, os homens de Queila entregariam Davi a Saul. Este é um exemplo onde Deus sabia não apenas o que iria acontecer (ou seja, Saul não iria), mas ele sabia o que aconteceria em diferentes circunstâncias. Nesse caso, as condições ou as circunstâncias não aconteceram, de modo que a condicional subjuntiva que está envolvida aqui, se Davi permanecesse em Queila, Saul viria) tem um antecedente falso. Davi não permaneceu em Queila. Então, esses tipos de condicionais do subjuntivo são frequentemente chamados de contrafactuais. Um contrafactual é uma declaração condicional no subjuntivo com um antecedente falso, por exemplo, "Se eu fosse você, eu me matricularia para estudar na Kennesaw State", esse é um exemplo. Eu não sou você! Mas se eu fosse você, isso é o que eu faria. Essa é uma afirmação contrafactual.

Infelizmente, como mencionei na semana passada[1], nós, falantes nativos do inglês, não usamos muito bem o modo subjuntivo. Muitas vezes o deturpamos ou usamos de forma errônea. Muitas vezes as pessoas usarão o passado singular simples do inglês: "If I was you then I would do this". Isso está completamente incorreto. "If I was you" significava que se em algum momento no passado eu fosse você, então isso é o que eu faria. Ou se eu dissesse: "If I was rich, I would buy a Mercedes". Isso significa que se em algum momento no passado eu fosse rico, eu compraria um Mercedes. Mas não é isso o que desejamos dizer. Em vez disso, o uso correto do modo subjuntivo envolve o uso da palavra inglesa "were".

"If I were rich, I would buy a Mercedes." "If I were you, I would study at Kennesaw State." Então, a maneira mais fácil de lembrar como usar essas condicionais do subjuntivo seria com a cláusula "se", por exemplo: "Se fosse o caso que [sua frase] então seria o caso de [outra frase].” Essa é a maneira mais fácil de expressá-los. "Se fosse o caso de (alguma coisa), então seria o caso de (alguma coisa mais)." Assim, se fosse o caso de eu ser você, então seria o caso de eu estudar na KSU, ou algo desse tipo. No entanto, nem todos os condicionais subjuntivos têm antecedentes falsos. Às vezes, o antecedente pode ser verdadeiro. Vamos olhar para um exemplo disso no Novo Testamento, em João 21:6. Esta é a história da pesca milagrosa onde os discípulos pescaram a noite toda e não pegaram nada.

Então Jesus vem até eles, João 21:6: Então ele diz: "Joguem a rede à direita do barco e vocês acharão. Assim fizeram e já não podiam puxar a rede, tão grande era a quantidade de peixes." O que Jesus sabia aqui? Ele sabia que, se eles lançassem a rede do lado direito do barco, eles teriam uma grande pesca. Então ele diz a eles, faça, jogue no lado certo e vocês terão uma grande pesca. Porque ele sabia que se eles fizessem isso, eles pegariam os peixes. Neste caso, eles obedeceram ao seu comando, por isso não é um contrafactual. Porque o antecedente é verdadeiro. Se eles lançassem a rede do lado direito do barco, pegariam os peixes. Eles jogaram a rede no lado direito do barco e pegaram os peixes.

Aqui você teria uma condicional subjuntiva que não é um contrafactual estritamente falando porque tem um antecedente verdadeiro. Às vezes chamamos isso de condicionais deliberativas, não de condicionais contrafactuais, porque muitas vezes as usamos na tomada de decisões. Por exemplo: "Se eu fosse entrar no trânsito agora, eu chegaria a tempo". Ou: "Se eu pedisse um aumento ao chefe, ele arrancaria minha cabeça". Usamos esses tipos de condicionais subjuntivo ao deliberar sobre o que fazer. Às vezes, eles podem ter antecedentes verdadeiros se pensarmos que a consequência seria boa. Se eu parasse de fumar, meu hálito seria melhor, então decido parar de fumar. O antecedente então é verdadeiro. O ponto é que existem essas condicionais verdadeiras no subjuntivo. E a escritura dá exemplos onde Deus evidentemente conhece a verdade delas.

Ele sabia o que aconteceria nessas diferentes circunstâncias. Isso precisa ser considerado com as informações bíblicas que mostram que Deus é onisciente, independentemente de como no final a entendamos.

A definição da onisciência

Com isso em mente, vamos fazer um resumo sistemático da onisciência de Deus presente na bíblia. O atributo da onisciência de Deus é um dos mais discutidos e mais fascinantes de todos os vários atributos de Deus. A onisciência é geralmente definida em termos de verdade. Ou seja, para qualquer afirmação verdadeira ou qualquer proposição verdadeira, Deus conhece e acredita nessa proposição, e ele não acredita em nenhuma proposição falsa. para qualquer afirmação ou proposição verdadeira Deus conhece e acredita nessa proposição, mas Ele não acredita em nenhuma proposição falsa.

Poderíamos dizer o seguinte: para qualquer proposição "p", Deus conhece "p", você pode preencher o que quiser para essa proposição "p", que Obama é o presidente dos Estados Unidos[2], que Bryant Wright pregou esta manhã na Johnson Ferry Baptist Church, que esta árvore tem folhas artificiais verdes nela... qualquer proposição que você queira preencher para "p", Deus conhece "p" e não acredita em "não-p". Para qualquer proposição verdadeira "p", Deus conhece "p" e não acredita em "não-p". Em outras palavras, onisciência significa que Deus conhece somente e todas as verdades. Ele conhece todas as verdades que existem e não acredita em nenhuma falsidade. Essa é a maneira como geralmente a onisciência é definida. Assim, Deus conhece todas as verdades passadas, presentes e futuras, mesmo antes da fundação do mundo.

Antes de criar o mundo, Deus previu o movimento de cada partícula subatômica que ocorreria na história do universo. Ele conhecia os próprios pensamentos de vocês antes que vocês pensassem. Ele conhece nossas escolhas livres antes que as façamos. Ele até sabia o que faríamos em circunstâncias diferentes daquelas em que estaríamos. Assim, para qualquer proposição verdadeira, Deus conhece essa proposição e não acredita na negação dela. Alguma pergunta sobre a definição de onisciência antes de prosseguirmos? Onisciência é conhecer todas e somente as verdades. - Crença é fé, né? - Não neste contexto. Acho bom que você tenha feito essa pergunta. Quando falamos de crença neste contexto, queremos dizer apenas ter uma certa atitude em relação a uma proposição. Então, por exemplo, eu acredito que sou Bill Craig. Eu acredito que estou nesta sala.

Acredito que sou casado com Jan. Nenhuma dessas coisas é pela fé. Acreditar em algo neste contexto significa apenas afirmá-lo ou asseverá-lo. Assim, acreditar em uma proposição "p" é aceitar ou afirmar ou asseverar "p". Isso é muitas vezes confuso porque a palavra "crença" para algumas pessoas é sinônimo de ter fé, e não é assim que está sendo usada aqui. ok... Deus, portanto, é onisciente. Ele conhece todas as verdades. Ele não acredita em nenhuma falsidade. Este seria um atributo incrível o suficiente para Deus possuir.

Conhecimento proposicional e autoconhecimento

Mas mesmo a onisciência não esgota o alcance e a excelência do conhecimento de Deus. Os filósofos notaram que há um tipo diferente de conhecimento e não apenas o conhecimento proposicional. Além do conhecimento de proposições verdadeiras, há também um tipo de conhecimento que é de natureza não proposicional. Permita-me tentar ilustrar isso da melhor forma que consigo. Suponha que estou visitando o Canadá e sou perseguido em cima de uma árvore por um alce feroz. Enquanto estou na árvore me agarrando à vida, eu digo a você: "Vá e diga a Jan que fui cercado por um alce!" O que você faz? Você corre até Jan e diz a ela: "Fui cercado por um alce!"? Não! Você diria "Bill foi cercado por um alce". Você comunicaria a ela a informação que eu queria que você comunicasse usando palavras diferentes das que eu usei.

Eu te pedi para dizer a ela que "fui cercado por um alce". Mas você vai e diz a ela: "Bill foi cercado por um alce." Em outras palavras, a proposição que você está expressando é a mesma que eu estava expressando, mas usamos palavras diferentes. Usamos palavras diferentes para dar o mesmo conteúdo de informação. Quando digo "Fui cercado por um alce", expresso a mesma proposição que você quando você diz "Bill foi cercado por um alce". Ambos temos o mesmo conhecimento proposicional neste caso; ou seja, que Bill Craig foi cercado por um alce. No entanto, nosso conhecimento não é perfeitamente o mesmo. Há uma diferença aqui. Por quê? Veja como reagimos a isso. Eu reajo a esse conhecimento me agarrando na árvore para salvar minha vida! Mas você reage a esse conhecimento correndo para contar a Jan sobre isso.

Você não se apega à vida porque você não acredita que você é Bill Craig; você é outra pessoa. Portanto, temos respostas diferentes para o que sabemos. Isso mostra que o que sabemos não é exatamente o mesmo em ambos os casos. Também temos um autoconhecimento diferente, além do conhecimento proposicional que compartilhamos. Temos o mesmo conhecimento proposicional, mas nosso autoconhecimento é diferente. Esse autoconhecimento é essencial para agirmos no mundo. Por exemplo, não é suficiente para mim acreditar na proposição "Bill Craig está com fome" para eu ser motivado a comer alguma coisa. Pois suponha que eu tenha sofrido um acidente de carro e esteja deitado em uma cama de hospital com amnésia temporária, assim eu não sei que sou Bill Craig.

Se alguém me dissesse "Bill Craig está com fome", isso não faria nada para me motivar a pedir algo para comer. O que preciso ter é o autoconhecimento de que eu sou o Bill Craig ou de que estou com fome. Então eu peço algo para comer. Esse autoconhecimento, embora não proposicional, é vital para se dar bem no mundo e poder agir em tempo hábil. É absolutamente essencial. Então se alguém ou mesmo alguma coisa, digamos um supercomputador, tivesse todo o conhecimento proposicional do mundo para ser considerado como onisciente ao conhecer apenas e todas as verdades que existem, ele ainda não poderia decidir tomar qualquer tipo de "ação oportuna" porque não teria nenhum autoconhecimento. Portanto, se Deus deve ser um "eu" ou uma "pessoa", Ele é mais do que onisciente.

Além de todo o conhecimento proposicional que Ele possui, Ele também possui um autoconhecimento apropriado. Ele sabe "Eu sou Deus". Isso é uma perfeição. Ele não sabe "eu sou Ronald Reagan" ou "eu sou Napoleão". Isso seria realmente uma imperfeição porque Ele não é Ronald Reagan ou Napoleão. Mas é uma perfeição para Ele ter o autoconhecimento apropriado de quem Ele é que "eu sou Deus". Assim, a excelência cognitiva de Deus excede até mesmo a onisciência. Ele é mais do que onisciente, por incrível que pareça, porque ele não apenas conhece toda a verdade, mas também possui um autoconhecimento apropriado. Alguma pergunta ou comentário sobre isso?

Perguntas sobre consciência e identidade

- É verdade que nós também, através dele, temos um pouco disso... temos autoconhecimento, comparando-nos a outros animais, e assim por diante. Nós temos, ao meu ver, por causa da imagem de Deus. Nós podemos usar esse tipo de conhecimento que os seres humanos têm a mais. - Isso está absolutamente certo. Ninguém mais no mundo tem o conhecimento "Eu sou Cindy". Você é a única pessoa no mundo que tem esse autoconhecimento, porque só você é essa pessoa. Você está certa em dizer que isso nos diferencia dos animais. Até onde sabemos, todas as evidências indicam que os animais não são "eus". Eles não têm esse tipo de autoconhecimento. Isso tem profundas implicações para o problema da dor e do sofrimento dos animais.

Porque mesmo que animais como zebras sofram dor quando são atacados por um leão, eles não têm o conhecimento de que "eu estou com dor". Isso, eu acho, tem implicações realmente profundas para Deus permitir o sofrimento animal. Eles não sofrem como nós porque não têm esse autoconhecimento de que "eu estou com dor". - Parece-me que isso faz parte das características da alma. - Sim, exatamente. Acho que você está certa em ao dizer que isso é um reflexo da imagem de Deus que somos "eus", somos pessoas, dessa maneira especial. - Este conceito traz à mente a passagem que diz: "Porque agora vemos como num espelho, de forma obscura; [...] depois conhecerei como também sou conhecido." Nós realmente não temos autoconsciência no grau que deveríamos ter.

Quanto mais andamos com o Senhor mais a adquirimos. - Acho que isso é um pouco diferente do que estou falando. Eu chamaria o que você acabou de descrever de autocompreensão. Isso é verdade. Nós não nos entendemos muito bem. Às vezes ficamos intrigados por que fazemos as coisas que fazemos. Não entendemos nossas motivações e nossas fraquezas e assim por diante. Eu chamaria isso de autocompreensão. Mas o autoconhecimento é algo que você tem apenas em virtude de poder dizer "eu acho que..." Isso é único para cada um de nós nós temos esse tipo de perspectiva em primeira pessoa. - Acho que isso se deve ao fato dessa primeira definição ser inadequada.

Se você vai realmente usar "omni" para "todos", então com certeza é inadequado você usá-lo apenas nesta definição proposicional, porque o autoconhecimento não está incluído, então isso não pode ser tudo. - Deixe-me responder a isso. Esta é uma boa questão. Isso significaria que há conhecimento além do conhecimento proposicional. Você pode dizer que "omni" deve incluir isso também. Se você diz isso, no entanto, acho que a onisciência se torna algo incoerente porque Deus teria que saber e acreditar que Ele é Ronald Reagan. Certo? Porque existe esse autoconhecimento - Reagan tinha. Ou o conhecimento de que ele é Napoleão. Napoleão tinha esse conhecimento. Portanto, eu não acho que podemos afirmar que onisciência significa que você tem que ter todo o conhecimento, seja proposicional ou autoconhecimento.

Acho que, para ser uma perfeição, precisa ter um autoconhecimento apropriado, ou seja, Ele saber que Ele mesmo é Deus. Seria uma imperfeição Ele pensar que é Napoleão ou Ronald Reagan. Por essa razão, acho que a maioria dos teólogos relutaria em dizer que, para ser onisciente, você precisa ter todo o autoconhecimento, além de todo o conhecimento proposicional. - Posso ter entendido mal mas o exemplo que o senhor deu do possível computador que teria todo o conhecimento proposicional, mas não teria o conhecimento de si mesmo por que não seria possível com inteligência artificial esse computador receber o "eu" como parte de sua programação? - Eu não estou fazendo um julgamento sobre isso. Estou apenas pedindo que imaginem um aparelho que conhecesse todas as proposições verdadeiras, mas não tivesse autoconhecimento.

Estou simplesmente dizendo que tal coisa não tem excelência cognitiva máxima. Se você pode ou não programar um robô para ter uma autoconsciência, eu não estou qualificado para dizer. Mas estou pedindo que você pense nesta ilustração para entender a ideia de que a excelência cognitiva de Deus excede até mesmo a onisciência proposicional. - Parece que o meio termo é que Deus sabe como é ser Ronald Reagan ou Napoleão. Estou pensando na afirmação de Dallas Willard, nenhuma entidade física define sua própria existência. Assim, Napoleão ou Ronald Reagan não puderam determinar de antemão que seriam quem eram, uma pedra ou uma gota de água ou o que quer que fossem. - É metafisicamente impossível, eu acho, que Ronald Reagan pudesse ter sido uma pedra ou uma gota de água porque ele é essencialmente uma pessoa.

É possível que ele não existisse, mas eu acho que o fato de uma pessoa ser uma pessoa é essencial para ela. Seria impossível para Reagan ter sido uma pedra. - Concordo. Mas Ronald Reagan não poderia dizer de antemão, vou organizar essas moléculas para ser Ronald Reagan e viver. - Certo. Vou falar sobre a questão mais importante que você está levantando, que é que Deus sabia como era ser Ronald Reagan. Eu diria que isso é conhecimento proposicional. Ele sabia que ser como Ronald Reagan é ser corajoso, simpático, extrovertido e otimista. Certo? Isso é o que é, em parte, ser Ronald Reagan. E isso são verdades proposicionais e Deus sabia de tudo isso.

Mas ele não acreditava que ele próprio fosse Ronald Reagan, que é o que Reagan acreditava e sabia. - Parece que aquela parte da excelência cognitiva que não seria dominada pelo computador que conhecesse toda a verdade proposicional seria como no seu exemplo "Bill foi cercado por um Alce", a habilidade de raciocinar. Por exemplo, se o senhor me dissesse isso, eu descobriria imediatamente que a coisa mais importante para o senhor não é que Jan saiba que o senhor foi cercado por um alce, mas resolver o problema de ser cercado por um alce. Eu pegaria meu rifle, mataria o alce e talvez nem fosse contar a Jan. Mas eu cuidaria do problema.

Isso não teria nada a ver com a verdade proposicional da afirmação "Fui cercado por um alce." Parece que essa é a parte de Deus que... eles dizem que a razão pela qual as pessoas jogam xadrez melhor do que os computadores é porque podemos eliminar as coisas que são absurdas, onde o computador tem que analisar cada movimento possível. Parece que parte de nossa excelência cognitiva seria a capacidade de raciocinar que ele transmitiu a nós e não a gatos ou cães ou qualquer outra coisa. - Certo. Eu não quero que você se confunda com meu exemplo indo por um caminho que eu não pretendia. Acredito você está certo. Eu não acho que as máquinas podem somar. Quando em sua pequena calculadora de bolso você coloca 2+3=5, essa máquina não sabe somar esses números. É apenas um programa que exibe esses padrões digitais na tela.

Eu acho que você está certo sobre isso. Mas não era esse meu ponto aqui.

O modo de conhecer de Deus

Deixe-me continuar e dizer mais uma coisa. Mesmo com conhecimento proposicional e autoconhecimento, a excelência do conhecimento de Deus ainda não está esgotada. Porque outra coisa também importante é a maneira pela qual se adquire o conhecimento. Suponha que houvesse dois seres e cada um tivesse todo o conhecimento proposicional e cada um tivesse autoconhecimento apropriado de si mesmo. Mas suponha que o segundo tenha adquirido seu conhecimento apenas porque o primeiro ser lhe transmitiu tudo e o primeiro ser tinha esse conhecimento de forma inata. Claramente, o segundo ser não seria tão intelectualmente excelente quanto o primeiro, porque ele não conhecia nenhuma dessas coisas inatamente. Ele os conhecia apenas porque o outro ser lhe disse tudo o que sabia de uma forma inata.

Da mesma forma, como vimos nas Escrituras, Deus não aprende nada de ninguém. Ninguém instruiu o Senhor ou lhe ensinou alguma coisa. Mas eu diria que Deus simplesmente conhece toda a verdade de forma inata e, portanto, é intelectualmente excelente ao máximo. Esta é, novamente, apenas uma conclusão impressionante. Pensar que a excelência intelectual de Deus supera até mesmo o que é ser um ser onisciente. Quero dizer, na medida em que ele tem esse autoconhecimento e também o fato que ele não adquire esse conhecimento dos outros, mas simplesmente o possui. Isso dá uma visão de quão grande é a excelência intelectual de Deus.

Lembro-me de quando percebi isso pela primeira vez ao estudar a doutrina da onisciência, isso simplesmente me deixou de queixo caído, porque nunca pensei que qualquer pessoa ou ser pudesse ser mais inteligente do que onisciente. Parecia-me que a onisciência era o nível mais alto que você poderia chegar. No entanto, quando você pensa sobre isso, a excelência cognitiva de Deus (sua grandeza) em relação aos seus atributos intelectuais excede até mesmo a onisciência, o que deve resultar em louvor, adoração e maravilhamento da pessoa que Deus é.

Algum comentário sobre esse segundo ponto? - O senhor está dizendo que o autoconhecimento de cada pessoa é obtido a partir da compreensão que outras pessoas têm dela? - Você está perguntando se Deus se conhece? - Não, eu estou dizendo que cada pessoa se conhece, como temos o nosso autoconhecimento? - Eu acho que se tem autoconhecimento simplesmente, como alguém disse anteriormente, em virtude de ser uma pessoa. Uma pessoa tem uma perspectiva de primeira pessoa sobre as coisas que conhece e faz e, portanto, pode dizer "Penso que..." Faz parte do que significa ser uma pessoa ter essa capacidade de autoconsciência. Portanto, seria intrínseco às pessoas. - Então, se uma pessoa, depois de nascer... - Bem, é por isso que eu disse "a capacidade".

Eu acho que um feto em desenvolvimento é uma pessoa mesmo que ainda não tenha alcançado uma autoconsciência, mas como pessoa ele tem essa capacidade de ser autoconsciente e ter uma perspectiva em primeira pessoa. - Então é possível que essa capacidade nunca se desenvolva. É possível que essa capacidade de autoconhecimento não se desenvolva completamente. - Certo. Pense em uma pessoa em coma. Ela ainda é uma pessoa. Você não tem a liberdade de simplesmente matar aquele indivíduo, mesmo que ele não esteja autoconsciente naquele momento. Ela pode não estar autoconscientes naquele momento, mas como pessoa, ela têm a capacidade intrínseca de ser autoconsciente, de ter uma perspectiva de primeira pessoa sobre as coisas. - Acho que Deus dá a cada um de nós o autoconhecimento através da relação que temos com ele.

Como Davi disse: "fui formado no ventre de minha mãe e é maravilhoso demais para mim saber todas essas coisas." E essa relação muitas vezes é substituída pela idolatria. Assim, o autoconhecimento é distorcido porque colocamos uma pessoa ou algo no lugar de Deus para formar esse autoconhecimento. Acho que se nosso relacionamento com Deus for ajustado, todos nós, como os profetas, saberemos o que fazer e quais são nossos papéis. Todo esse autoconhecimento é dado por Deus. Por isso fomos escolhidos e predestinados. - Certo, eu não vou comentar a parte sobre predestinação, mas acho que os reformadores protestantes concordam com a ideia de que o efeito do pecado sobre nós é, como disse Lutero, estarmos curvados sobre nós mesmos, e ao invés de sermos orientados para Deus e buscar seu bem e sua justiça buscamos os nossos.

Estamos inclinados sobre nós mesmos. Isso é parte da maldição e consequência do pecado ao meu ver. Espero ter expandido um pouco sua visão da excelência cognitiva de Deus. O que faremos na próxima semana é examinar dois problemas que surgem como resultado da onisciência de Deus. A primeira será a relação entre a presciência divina e a liberdade humana como podemos ser genuinamente livres para fazer diferente do que Deus infalivelmente sabe que faremos? Então, em segundo lugar, se somos genuinamente livres, como Deus pode saber as coisas de antemão? Como ele pode saber de antemão o que faremos se, quando o momento chegar, nós formos completamente livres para fazer ou não a ação? Essas serão duas perguntas que vamos abordar na próxima semana. Para encerrarmos eu gostaria de ler uma benção de 1 Tessalonicenses. Vamos inclinar nossa cabeças.

O mesmo Deus da paz os santifique em tudo[3]. E que o espírito, a alma e o corpo de vocês sejam conservados íntegros e irrepreensíveis na vinda de nosso Senhor Jesus Cristo. Fiel é aquele que os chama, o qual também o fará. A graça de nosso Senhor Jesus Cristo esteja com vocês! Amém! (NAA)

Aula de William Lane Craig. Publicação original: Reasonable Faith. © 2015 William Lane Craig. Tradução e edição em português: Fé Razoável. Transcrição da versão em português, revisada em 20/10/2026; citações bíblicas conferidas na NAA.