Fé Razoável com William Lane Craig

Excursão na Teologia Natural (Parte 34): A Versão Emocional do Problema do Mal

William Lane Craig · Seção 04 / Aula 34 ·

Resumo da equipe Fé Razoável, preparado com auxílio de IA

Ao tratar do problema emocional do mal, Craig destaca a presença de um amigo solidário, o sofrimento de Cristo e a confiança em Deus diante de situações cuja razão não compreendemos. O testemunho de Mabel e a discussão sobre Jó, fraqueza e eternidade ilustram essa abordagem pastoral.

O problema emocional e o preparo intelectual

Vamos encerrar nossa discussão hoje sobre o problema do mal e do sofrimento. Eu iniciei esse problema dizendo que há realmente duas versões. Existe a versão intelectual do problema do sofrimento que vem tanto em forma lógica quanto probabilística, e então há o que poderíamos chamar de problema emocional do mal. Eu argumentei nas últimas semanas que o problema intelectual do mal falha, em última instância. O ateu é incapaz de mostrar que o mal e o sofrimento no mundo são inconsistentes com ou improváveis em relação à existência de Deus. Portanto, a versão intelectual do problema do mal falha. Agora, antes de prosseguirmos para discutir a versão emocional do problema do mal, deixe-me apenas perguntar se há alguma discussão final que vocês gostariam de ter sobre a versão intelectual em suas várias formas. Bem, eu indiquei que penso que, para a maioria das pessoas, o problema do sofrimento e do mal não é realmente um problema intelectual.

É realmente um problema emocional. Elas nunca realmente pensaram profundamente sobre esse problema, mas apenas reagem emocionalmente ao fato de Deus permitir o terrível mal e sofrimento no mundo. Então precisamos abordar esse problema emocional. Você pode estar pensando, Então por que passar por todo esse material intelectual se isso é realmente apenas um problema emocional? Acho que há duas razões pelas quais é importante lidar com isso intelectualmente. Primeiro, as pessoas acham que seu problema é intelectual. Então, ao lidar com o problema intelectual do mal podemos mostrar respeito por sua opinião e tentar ajudá-las a ver qual é o verdadeiro problema. Nós levamos suas objeções e argumentos ao pé da letra e lidamos com eles intelectualmente. Mas, em segundo lugar, eu acho também que o que nós vimos pode ser de tremenda ajuda para nós quando somos chamados a passar por sofrimento.

O evangelho da prosperidade e o evangelho do pensamento positivo que é pregado em tantas mega igrejas e denominações nos Estados Unidos, são simplesmente falsos evangelhos. E eles preparam as pessoas para uma queda. Eles não conseguem dar sentido ao sofrimento terrível, aparentemente sem propósito, entrando em sua vida e, portanto, estão preparando as pessoas para uma dúvida tremenda e talvez abandono da fé quando enfrentam esse tipo de sofrimento. É muito óbvio que esses são falsos evangelhos porque esse tipo de evangelho da prosperidade da saúde e riqueza não funciona no Iraque ou na Síria ou na Coreia do Norte ou em mil outros lugares. Se ele não funciona lá, então não é o verdadeiro Evangelho. Precisamos entender que o plano de Deus para a história humana pode envolver um sofrimento terrível para nós cujo propósito ou razão talvez não possamos ver; de fato, não podemos esperar ver.

Nossa esperança não está na felicidade mundana, mas sim naquele dia em que estaremos com Deus e ele enxugará toda lágrima dos nossos olhos.

Presença, compaixão e a cruz de Cristo

Então o que pode ser dito para pessoas que estão lutando com o problema emocional do sofrimento? De certo modo, a coisa mais importante pode não ser o que dizemos. Para muitas pessoas, acho que o mais importante é que você apenas esteja lá como um ouvinte simpático, como um amigo amoroso que se importa com elas. Você não precisa ter todas as respostas. Elas podem simplesmente precisar de alguém que entenda, que simpatize com elas, e ofereça um ombro para chorar. Mas ainda assim haverá pessoas que precisam de conselhos. Nós mesmos podemos precisar lidar com o problema emocional do mal quando passarmos por sofrimento. O que a fé cristã tem a dizer para lidar com esse problema também? Bem, ela nos diz que Deus não é algum tipo de criador distante ou um fundamento impessoal do ser. Em vez disso, ela nos diz que Deus é um Pai celestial amoroso que compartilha nossas dores e que sofre junto conosco.

Na cruz, Cristo suportou um sofrimento do qual literalmente não podemos formar nenhuma concepção porque ele suportou o castigo ou a penalidade pelo pecado de todo o mundo. Mesmo sendo perfeitamente inocente, ele voluntariamente assumiu as consequências pelo pecado de todo o mundo que nós merecíamos. Nenhum de nós pode compreender esse sofrimento. Mesmo sendo inocente, ele voluntariamente assumiu um sofrimento incompreensível por nossa causa. Por que ele fez isso? Simplesmente porque ele nos ama tanto. Para nos trazer de volta a um relacionamento com Deus, nosso Pai celestial. Como podemos rejeitar aquele que esteve disposto a abrir mão de tudo por nós? Então, quando Deus pede que você passe por um sofrimento que parece sem sentido, desnecessário ou imerecido, eu acho que a meditação sobre as feridas de Cristo pode ajudar a nos dar a força moral e a coragem que precisamos para carregar a cruz que nos é pedida para carregar na vida.

Não se torture tentando descobrir por que Deus está permitindo que você passe por esse sofrimento. Como eu disse, dadas as nossas limitações cognitivas, não devemos esperar ser capazes de perceber as razões pelas quais Deus está permitindo que esse sofrimento entre em sua vida.

A ilustração de York e os limites de nossa perspectiva

O teólogo britânico, J. I. Packer, chama isso de “o erro da cabine de sinal de York.” Packer diz que na cidade de York na Inglaterra há um grande pátio de trens cheio de trilhos que têm desvios laterais, ramais e assim por diante. E os trens são controlados por uma cabine de sinal que fica em uma torre acima de todo o pátio ferroviário em York. Para alguém que está na cabine de sinal, ele pode ver em um mapa eletrônico iluminado os pequenos vermes brilhantes dos vários trens e por que um é desviado para um ramal ali, por que outro trem é puxado para cá. Tudo pode fazer sentido para alguém na cabine de sinal. Mas para alguém lá embaixo nos trilhos, é totalmente incompreensível por que esses trens estão se movendo de todas essas maneiras e por que estão sendo desviados da forma como estão. Seria incompreensível para a pessoa lá embaixo nos trilhos.

O que Packer diz é que, quando se trata do mal e do sofrimento em nossas vidas, para o bem ou para o mal nós não estamos na cabine de sinal de Deus. Não conseguimos ver a grande perspectiva. Estamos lá embaixo nos trilhos. Portanto, quando tentamos descobrir por que Deus nos permite sofrer de determinada maneira, estamos presumindo estar em sua posição na cabine de sinal, e não estamos lá. Em vez de tentar descobrir por que Deus está permitindo que você sofra dessa maneira, você deve simplesmente pedir a ele que lhe dê a força e a coragem para suportar o sofrimento que Cristo chamou você para suportar e ver quais lições você pode aprender com isso.

O testemunho de Mabel

Eu mencionei anteriormente em nosso estudo que o conhecimento de Deus é um bem incomensurável ao qual nosso sofrimento nem mesmo pode ser comparado. Conhecer a Deus, entrar em relacionamento com ele, é um bem que é literalmente incomparável ao sofrimento que enfrentamos. Poucos de nós, eu acho, realmente entendem essa verdade. Mas eu tinha um colega, quando lecionei no Westmont College, que conheceu uma mulher que compreendia isso. Ele costumava ter como prática pessoal visitar pessoas reclusas em casas de repouso na comunidade na tentativa de trazer um pouco de alegria e amor às suas vidas. E em um Dia das Mães ele estava visitando uma casa de repouso na qual conheceu uma mulher que ele jamais esqueceria. Este é o relato dele sobre essa mulher e essa amizade.

Ele diz: "Nesse dia em particular eu estava andando por um corredor que ainda não havia visitado antes procurando em vão por alguns que estivessem vivos o bastante para receber uma flor e algumas palavras de encorajamento. Esse corredor parecia conter alguns dos piores casos. Amarrados a macas ou em cadeiras de rodas e parecendo completamente indefesos. Quando me aproximei do fim desse corredor vi uma senhora idosa amarrada a uma cadeira de rodas, seu rosto era um verdadeiro horror. O olhar vazio e as pupilas brancas de seus olhos me disseram que ela era cega. O grande aparelho auditivo sobre uma orelha me disse que ela era quase surda. Um lado do rosto dela estava sendo consumido pelo câncer. Havia uma ferida descolorida e escorrendo, cobrindo parte de uma bochecha e isso havia empurrado seu nariz para o lado, abaixado um olho e distorcido sua mandíbula de modo que o que deveria ser o canto da boca era a parte inferior da boca.

Como consequência, ela babava constantemente. Também descobri mais tarde que essa mulher tinha 89 anos e que ela estava acamada, cega, quase surda e sozinha há 25 anos. Essa era Mabel.[2] Não sei por que falei com ela. Ela parecia menos propensa a responder do que a maioria das pessoas que vi naquele corredor. Mas coloquei uma flor em sua mão e disse: “Aqui está uma flor para você, feliz Dia das Mães.” Ela levou a flor ao rosto e tentou cheirá-la e então falou, e para minha surpresa suas palavras, embora um pouco embaralhadas por causa da deformidade, eram obviamente produzidas por uma mente lúcida. Ela disse: “Obrigada, é amável, mas posso dá-la para outra pessoa? Não posso vê-la, sabe, sou cega.” Eu disse: “Claro,” e a empurrei na cadeira de volta pelo corredor até um lugar onde achei que poderia encontrar alguns pacientes atentos. Encontrei um e parei a cadeira. Mabel estendeu a flor e disse: “Aqui, isso é de Jesus.”

Foi então que comecei a perceber que essa não era uma pessoa comum... Mabel e eu nos tornamos amigos nas semanas seguintes e eu fui visitá-la uma ou duas vezes por semana pelos três anos seguintes... Não levou muitas semanas até que eu passasse de um sentimento de que eu estava sendo útil para um sentimento de admiração. E eu ia até ela com caneta e papel para anotar as coisas que ela dizia... Durante uma semana agitada de provas finais, eu estava frustrado porque minha mente parecia puxada em dez direções ao mesmo tempo com todas as coisas que eu tinha que pensar. A pergunta me veio: com o que Mabel pensa? Hora após hora, dia após dia, semana após semana, sem nem mesmo saber se é dia ou noite. Então fui até ela e perguntei: “Mabel, com o que você pensa quando está deitada aqui?” E ela disse: “Eu penso no meu Jesus.” Eu sentei ali e pensei por um momento sobre a dificuldade que é para mim pensar em Jesus por até cinco minutos.

E perguntei, “Em que você pensa sobre Jesus?” Ela respondeu lentamente e deliberadamente enquanto eu escrevia, e isso foi o que ela disse: Eu penso em como ele tem sido bom para mim. Ele tem sido tremendamente bom comigo na vida, sabe. Eu sou do tipo que está quase sempre satisfeita. Muita gente acha que sou meio antiquada. Mas não me importo. Eu prefiro Jesus, ele é tudo para mim. E então Mabel começou a cantar um antigo hino: Jesus é tudo para mim; minha vida, minha alegria, meu tudo; Ele é minha força dia após dia; sem ele, eu cairia; Quando estou triste, a ele eu vou; ninguém mais me alegra assim; Quando estou triste, ele me alegra; ele é meu amigo. Isso não é ficção. Por mais incrível que pareça, um ser humano realmente viveu assim. Eu sei, eu a conheci. Como ela conseguia fazer isso?

Os segundos passavam e os minutos se arrastavam, e também os dias e semanas e meses e anos de dor sem companhia humana e sem uma explicação de por que tudo aquilo estava acontecendo – e ela ficava ali deitada e cantava hinos. Como ela conseguia fazer isso? A resposta, eu acho, é que Mabel tinha algo que eu e você não temos muito. Ela tinha poder. Deitada ali, naquela cama, incapaz de se mover, incapaz de ver, incapaz de ouvir, incapaz de falar com alguém . Ela tinha um poder incrível." Que testemunho impressionante. Paradoxalmente, embora o problema do sofrimento seja o maior obstáculo para acreditar na existência de Deus, no fim das contas Deus é a única solução para o problema do mal. Se Deus não existe, então estamos presos sem esperança em um mundo cheio de sofrimento gratuito e sem propósito.

Deus é a resposta final para o problema do sofrimento, pois ele nos redime do mal e nos leva para a alegria eterna de um bem incomensurável que é a comunhão com ele mesmo. Isso é o que eu queria compartilhar sobre o problema emocional do sofrimento e do mal. Alguém tem alguma reação ou discussão sobre esse problema?

Discussão: confiança, fraqueza e perseverança

Estudante: Parece que Mabel era altamente madura espiritualmente. Eu percebi, até mesmo na minha própria vida pessoal, que quando o conflito chega a primeira coisa que você faz é entrar em pânico. Você se pergunta o que está fazendo de errado, como pode consertar isso. Será que eu orei o suficiente? Será que eu tive tempo de silêncio suficiente? Porque a dor é difícil, seja lá o que for – enfermidade física, você perdeu um emprego, perdeu um parente, seja o que for – você se pergunta por que Deus está vindo contra você. Você pensa: será que fiz algo errado, especialmente se alguém perdeu um filho se perguntam se foram maus pais ou se fizeram algo para merecer aquilo. Há versículos no Antigo Testamento, pelo menos, que parecem dizer que sua felicidade está ligada a ser bom com Deus. Obviamente o Novo Testamento é diferente com todas as . . .

Dr. Craig: Não se esqueça de que o livro de Jó está no Antigo Testamento.

Estudante: Eu não disse o Antigo Testamento todo. Mas Provérbios diz que se você entregar sua vida a Deus basicamente ele dirigirá seus passos e você será bem-sucedido e assim por diante. Mas eu concordo que você pode focar em Deus. Acho que há provérbios (populares) que dizem que em vez de olhar o tamanho do seu problema olhe o tamanho do seu Deus. Leva tempo para chegar ao nível de Mabel, mas sim, se pudermos aprender a nos firmar e apenas dizer: “Deus, ok, o que quer que você esteja fazendo aqui, me ajude a passar por isso.” Ou “O que quer que você esteja fazendo com meu amigo, me ajude a apenas estar presente para ele.” Acho que se focarmos nele, é isso que precisamos fazer. Mas é difícil. Você entra em pânico. Tenta fugir da dor. Tenta achar qualquer maneira de se livrar dela e seguir com sua vida. Mas às vezes Deus está apenas tentando mudar sua vida.

Dr. Craig: Sim, Patrick.

Estudante: Então, sabe, algo que me chamou atenção na história de Mabel foi quando ele disse que ela tinha poder. Comecei a pensar em outras pessoas que conheci em condições muito infelizes. Elas parecem – e eu não posso provar, isso não é nenhum tipo de prova lógica de nenhum tipo – mas – elas sempre parecem contentes, como se tivessem recebido uma graça que nós não temos. Elas receberam um dom que nós só podemos imaginar. Mesmo se estivéssemos na situação delas, não teríamos necessariamente isso, mas essas pessoas parecem quase especificamente escolhidas para serem cheias de uma graça que lhes dá uma alegria que não conseguimos entender. Quando você vê a criança com síndrome de Down sempre feliz, cheia de amor. Nunca vi uma pessoa com Down miserável. Elas estão sempre felizes. Por quê?

Dr. Craig: Paulo sofria de uma terrível enfermidade física que ele pediu a Deus para remover. Três vezes, ele diz, orou a Deus para remover isso. A resposta de Deus para ele foi: “o poder se aperfeiçoa na fraqueza.” Você vê isso ilustrado na vida de Mabel, eu acho, tão lindamente.

Estudante: Certo.

Dr. Craig: Então Paulo diz: Por isso, me gloriarei ainda mais alegremente em minhas fraquezas porque quando sou fraco, então sou forte.

Estudante: Parece que Deus infunde os fracos com seu poder. É aí que o recebemos.

Dr. Craig: Ok. Mais algum comentário?

Estudante: Muito obrigado por compartilhar essa história. A história me lembrou muito de uma grande santa americana, Fanny Crosby, que nasceu cega ou pelo menos ficou cega muito jovem e se tornou, eu acho, uma das maiores compositoras de hinos de todos os tempos. “Blessed Assurance”, “All the Way My Savior Leads Me.” Ela escreveu nesses moldes – coisas semelhantes às que Mabel compartilhou. Acho que do mesmo modo que a vida dos discípulos é esse poderoso testemunho e evidência para a fé cristã, assim também é o testemunho dos grandes santos, uma evidência poderosa para a fé cristã.

Dr. Craig: Amém. Obrigado. George.

Discussão: Jó, restauração e eternidade

Estudante: Você poderia comentar se acha que o livro de Jó é histórico ou uma parábola estendida?

Dr. Craig: Eu não sei. Nunca estudei isso, então como leigo, nunca aprofundei nesse assunto. Não teria problema se fosse uma história fictícia destinada a ilustrar um ponto. Mas na ausência de qualquer razão para pensar assim, acho que se pode tomá-lo como histórico. Só nunca explorei isso.

Estudante: Uma coisa que me incomoda se tentarmos tomar isso como história, é que diz que Jó tinha dez filhos que foram todos mortos. Jó foi testado, e perdeu todas as suas propriedades. No fim do livro, sua fortuna é restaurada em dobro, e ele tem outro grupo de filhos. Mas os filhos originais se foram. Eles não retornam. Se você toma isso como história, parece que isso não é exatamente uma restauração de suas fortunas no sentido de ter perdido aqueles filhos. Isso me causa hesitação em tomá-lo como história.

Dr. Craig: Bem, eu não sei . . . talvez isso o leve a questionar não tanto a historicidade em si, mas talvez o sistema de valores judeu que está expresso ali. Se um homem perde parte de sua família e então Deus lhe dá uma família duas vezes maior[1], para um judeu antigo isso poderia ser visto como ter sua fortuna restaurada. Isso é exatamente o que, em uma cultura judaica que valorizava a família, significaria ter sua fortuna restaurada. Temos que reconhecer que estamos lidando com culturas antigas aqui que podem ser muito diferentes das nossas culturas modernas em termos de seus valores. Acho que isso também precisaria ser levado em consideração.

Estudante: Obrigado, mais uma vez. Foi uma história incrível. Fiquei impressionado com a palavra no final – ela demonstrou um “poder” incrível. A palavra que eu esperava era “fé” ou “força.” Poder, para mim, significa que alguém tem controle sobre outras pessoas ou coisas, e aqui está essa pessoa indefesa. Ainda estou meio impactado por essa palavra.

Dr. Craig: Sim, é um paradoxo tremendo, não é? Acho que ele acertou ao escolhê-la. Ele poderia ter dito que ela tinha grande fé, mas não disse. Ele escolheu dizer que essa mulher "inválida", aparentemente indefesa, tinha, na verdade, um poder tremendo – muito maior do que o que nós, que somos saudáveis, parecemos exibir. Eu gosto da escolha de palavras que ele fez. Sim, Brad?

Estudante: Eu acho que também no caso de Jó temos que ter uma perspectiva que não é deste mundo – que é da eternidade. Sim, de fato, aqueles filhos se foram. Eles estão melhores do que Jó.

Dr. Craig: Certo!

Estudante: Eles estão em melhor situação!

Estudante: Eles estão melhores do que Jó. Todas as pessoas do Antigo Testamento estão mortas. Todas as pessoas nascidas antes de 1850 estão mortas. Todas elas estão mortas. Parte do que precisamos considerar, acho, com o sofrimento não é este mundo, mas a eternidade. É difícil fazer isso porque essa é a perspectiva de Deus. Acho que essa é outra coisa que precisamos considerar em termos de sofrimento. Durante esta vida existe uma perspectiva mais ampla que é muito difícil para nós compreendermos.

Dr. Craig: Acho que você levantou um bom ponto. Quando lidamos com a versão probabilística do problema do mal, você deve se lembrar que mencionei que uma das doutrinas cristãs é que esta vida não é tudo o que existe. Esta vida se derrama na vida eterna. Quando você vê nosso sofrimento na perspectiva da eternidade, ele é infinitesimal em comparação com o tempo que passaremos com Deus na eternidade. Mas acho que o que você está apontando é que isso também contribui de certa forma para lidar com o problema emocional do mal. Se você puder viver à luz da eternidade e manter os olhos fixos nisso, isso vai te ajudar a ter forças para suportar o sofrimento que enfrentamos agora. Então esse ponto não é apenas intelectualmente relevante, mas também acho que você está certo. Emocionalmente, importante também. Sim. Stephanie.

Estudante: Quero voltar à palavra “poder.” Uma das coisas que encontro como doutoranda na Georgia State é toda essa ideia de que apenas homens brancos têm poder neste país. É uma universidade urbana. É uma universidade de pesquisa. É muito voltada para uma mentalidade mundana. Eles não olhariam para Mabel e diriam: “Sim, isso é poder.” E acho que parte do que precisamos fazer como crentes é retomar a palavra “poder” e atribuí-la de volta ao que a palavra realmente significa. Poder não é “eu mando em você” embora pessoas em suas naturezas pecaminosas tenham passado a usá-lo assim. Mas poder significa ser capacitado por Deus para perseverar. E acho que perdemos essa noção também.

Dr. Craig: Muito bem dito. Obrigado, Stephanie. Mais alguém? Sim. Taylor. Aqui.

Discussão: a Bíblia e as respostas ao sofrimento

Estudante: Você disse que essa foi a resposta ao problema emocional do mal. Vamos continuar com outras discussões?

Dr. Craig: Não, acho que isso é suficiente para lidar com o problema emocional do mal.

Estudante: OK, então é melhor eu fazer a pergunta agora. Um livro que foi escrito acho que relativamente recentemente por Bart Ehrman sobre o problema do mal. Eu queria saber se você poderia responder a algo assim onde ele diz que essas questões tratadas na Bíblia dizem que você deve responder ao problema do mal de um jeito, e então outra parte da Bíblia diz que você deve responder ao problema do mal de outro jeito.

Dr. Craig: Eu não li o livro de Bart Ehrman sobre o problema do mal porque não acho que seja provável que um estudioso do Novo Testamento, que não tem formação nessa área, tenha muita percepção sobre as questões filosóficas relacionadas ao problema intelectual do mal. Acho muito interessante, porém, que o abandono de Ehrman da fé cristã, segundo ele mesmo, realmente não teve nada a ver com inerrância bíblica ou com ele encontrar erros nos Evangelhos ou com seu trabalho como estudioso do Novo Testamento, onde ele é formado e onde é especialista. Ele é um crítico textual dos manuscritos gregos do Novo Testamento. Não houve nada nisso que aparentemente o levasse a um obstáculo intransponível à fé cristã. Foram essas questões filosóficas relacionadas ao problema do mal que o fizeram perder a fé. Eu, pessoalmente, acho isso tremendamente paradoxal porque não foi algo em sua área de especialização que o desafiou e fez com que perdesse a fé.

Foi algo sobre o qual ele não estudou, ele não é especialista. Eu diria simplesmente que as respostas ao problema intelectual do sofrimento que eu dei, acho que são totalmente bíblicas e são boas respostas à versão probabilística. Você tinha algo específico em mente?

Estudante: Acho que o argumento dele era que cada um desses exemplos – digamos seu pecado causou esse mal em sua vida – é uma resposta, mas então em outro lugar vai dizer que não é isso. Ele dirá que são dois relatos separados que são contraditórios – que a Bíblia se contradiz em vez de que diferentes cenários podem ter explicações diferentes. Você...? Só queria saber se você...

Dr. Craig: Sim, acho que, novamente, isso seria uma questão de consistência da teologia bíblica, não da adequação da resposta ao problema do sofrimento e do mal. Parece-me que o que eu disse sobre aquelas quatro doutrinas cristãs que aumentam muito a probabilidade de haver mal e sofrimento se o Deus cristão existe são todas bíblicas e mostram que não é realmente surpreendente que o mundo esteja cheio de sofrimento moral e natural se o cristianismo é verdadeiro. Considero isso uma resposta adequada ao problema do sofrimento e do mal do ponto de vista bíblico. Obrigado.

Estudante: O que eu vejo – me ajude com isso – dado que estamos em um mundo secular e também a academia é tão liberal, a maioria das pessoas diz: “Eu não consigo acreditar em Deus por causa do mal e do sofrimento no mundo.” E que nenhum Deus amoroso permitiria isso. Acho que eles param por aí porque não estão realmente buscando. É mais que querem provar para si mesmos que Deus não existe, e que não são responsáveis diante de um deus. Parece para eles que não é possível ter um Deus totalmente amoroso e ter sofrimento. Conforme estudamos isso – o que tivemos que investigar a fundo para criar alguma lógica por trás dessa afirmação – a maioria não quer ir tão longe, se estou certa. Leva um pouco... Consigo entender um ser humano sendo mau e causando sofrimento a outro ser humano. Acho que o verdadeiro obstáculo é – vamos pegar o exemplo da menininha presa nos escombros em que não há aparente boa notícia ou bem maior.

Acho que esse tipo de sofrimento simplesmente trava a conversa. É meio difícil conduzir alguém até o ponto de compreender que um Deus amoroso permite o mal e o sofrimento.

Dr. Craig: A pergunta é – isso é um problema intelectual que está sendo levantado? Se for, então eu apenas voltaria aos pontos que levantei sobre como não estamos em posição de dizer, quando ocorre algum mal natural, que Deus provavelmente não tem uma razão moral suficiente para permitir aquilo. Daria algumas ilustrações como da teoria do caos e da cultura popular para ilustrar o ponto. Depois levantaria os outros pontos que também mencionei. É tudo apenas revisitar o mesmo material novamente. Se for um problema emocional que a pessoa está tendo, então, novamente, acho que deveríamos apontar para Cristo, para Deus, e como ele esteve disposto a suportar sofrimento por eles, do qual não podem sequer formar compreensão. Então por que rejeitariam aquele que esteve disposto a passar pelo inferno para salvá-los? Seria preciso apenas abordar essas questões novamente com a pessoa e esperar que ela esteja aberta e não apenas argumentativa.

Bênção final

Certo, então vamos encerrar com a bênção e, encerrar nossa aula. E agora, que o Deus onipotente que falou os mundos à existência lhe dê poder para viver sua vida com confiança e coragem na fé, não importa qual sofrimento ou mal possa entrar em sua experiência, por meio de Jesus Cristo, nosso Senhor. Amém.

Aula de William Lane Craig. Publicação original: Reasonable Faith. © 2016 William Lane Craig. Tradução e edição em português: Fé Razoável. Transcrição da versão em português, revisada em 20/10/2026; citações bíblicas conferidas na NAA.