Fé Razoável com William Lane Craig

Excursão na Teologia Natural (Parte 6): O Argumento da Contingência 2/3

William Lane Craig · Seção 04 / Aula 06 ·

Resumo da equipe Fé Razoável, preparado com auxílio de IA

William Lane Craig responde a objeções ao princípio da razão suficiente e desenvolve a segunda premissa do argumento da contingência. A exposição recorre à equivalência lógica e à distinção entre objetos abstratos e uma mente sem corpo para defender uma causa pessoal transcendente. As perguntas da turma exploram eternidade, multiverso, materialismo e necessidade metafísica.

Objeções à primeira premissa

Fizemos uma análise do argumento da contingência para a existência de Deus. Da última vez, ofereci uma defesa da premissa (1) do argumento de que tudo o que existe tem uma explicação para a sua existência, seja pela necessidade da sua própria natureza ou então por causa externa. Nesta defesa, partilhei a ilustração de Richard Taylor de ir dar um passeio pelo bosque e encontrar uma bola no chão da floresta. Naturalmente, questionar-se-ia como ela chegou ali. Se alguém dissesse que ela simplesmente existe sem qualquer explicação de sua existência, você acharia que seria brincadeira. Não é apenas a uma bola que isso se aplica. Qualquer tipo de objeto que você possa pensar, se aplicaria. Uma árvore no seu quintal da frente. Um carro na sua garagem. Uma pessoa que trabalha no seu escritório. Em todos os casos, diríamos que há uma explicação do porquê dessa coisa existir em vez de não existir.

Apenas aumentar o tamanho do objeto não faz nada para fornecer ou remover a necessidade de uma explicação para sua existência. Isso naturalmente leva à pergunta: então qual é a explicação da existência do universo? Os ateus geralmente dirão em resposta à premissa (1), que essa premissa, esse princípio da razão suficiente, como é chamado é verdade para tudo no universo. Mas eles querem eximir o próprio universo do princípio. O próprio universo é uma exceção à regra e não precisa ter uma explicação para sua existência. Tudo no universo tem uma explicação para sua existência mas o próprio universo existe sem explicação. Eu acho que essa resposta ateísta ao princípio se compromete ao que tem sido chamado de "a falácia do táxi".

O filósofo alemão do século XIX, Artur Schopenhauer, aponta que o princípio da razão suficiente não é algo que pode ser dispensado como um táxi quando você chegar ao destino desejado! Quando você chega ao universo você não pode simplesmente dizer que o universo é uma exceção à regra. Isso é a "Falácia do Taxi", ao pensar que você pode simplesmente dispensar o princípio da razão suficiente quando chegar à sua explicação final. Lembre-se de que Leibniz não está isentando Deus do princípio da razão suficiente. Ele diz, sim, que Deus tem uma explicação do porquê de sua existência. Ele existe por uma necessidade de sua própria natureza. Leibniz não pode ser acusado de isentar, arbitrariamente, a explicação última do princípio da razão suficiente, mas é isso que o ateu tenta fazer. Ele simplesmente diz que o universo é uma exceção à regra, e ao dizer isso, está sendo arbitrário.

Ele não dá nenhuma razão para pensar que o universo deve ser isento, do princípio, ele apenas o isenta arbitrariamente. Isso é, sem justificativa. Lembre-se da ilustração da bola na floresta. Apenas aumentar o tamanho da bola até se tornar o próprio universo não faz nada para remover a necessidade de uma explicação para sua existência. Note também como essa objeção é anticientífica. Todo o projeto da cosmologia contemporânea (o estudo da estrutura em grande escala do universo) é dedicado a procurar uma explicação para a existência do universo. Essa atitude ateísta de pensar que o universo simplesmente existe sem qualquer explicação na verdade seria um obstáculo para a ciência. Isso dificultaria o projeto da cosmologia moderna de tentar explicar por que o universo existe. Portanto, essa resposta típica do ateu, eu acho, comete a "Falácia do Táxi" de Schopenhauer.

Alguns ateus procuraram evitar essa arbitrariedade - essa falácia - ao fornecer uma justificativa para isentar o universo. Eles tentam dar um argumento do porque o universo deveria ser isento do princípio da razão suficiente. Eles geralmente dirão que é impossível para o universo ter uma explicação para sua existência e, portanto, ele é uma exceção à regra porque é impossível haver uma explicação para a existência do universo. Por que isso? O que há no universo que o tornaria impossível de ter uma explicação? Um par de filósofos que li sobre isso diz que se existisse uma explicação para a existência do universo, ela teria que estar em algum tipo de estado de coisas explicativo anterior, no qual o universo não existia. Certo. Se isso for uma explicação para a existência do universo, então isso teria que ser algum tipo de estado de coisas explicativo anterior no qual não há universo.

Mas, eles dizem, isso seria um estado de nada. Não teria nada, e o nada não pode ser uma explicação de nada, e portanto o universo deve simplesmente existir inexplicavelmente. Agora, se você pensar nisso por um minuto, eu acho que você pode ver que esse raciocínio é obviamente falacioso porque ao dizer que o estado de coisas explicativas anterior em que o universo não existe é o nada, essas pessoas estão assumindo que o universo é tudo o que existe. Então, se não houvesse universo não haveria nada. Mas isso significa assumir que o ateísmo é verdadeiro. Certo? Então toda a objeção é raciocinar em círculo. Está pressupondo que não há Deus. Está pressupondo a verdade do ateísmo! Portanto, está raciocinando em círculo. Podemos concordar que se o ateísmo for verdadeiro então o universo não tem explicação para sua existência. Mas toda a questão é: o ateísmo é verdadeiro?

Você não pode simplesmente assumir que é verdade para objetar o argumento de Leibniz. Leibniz concordou que o estado de coisas explicativamente anterior que explica a existência do universo seria um estado de coisas no qual o universo não existe. Mas não seria um estado de nada; em vez disso, seria Deus e sua vontade. Essa seria a explicação da origem do universo. Então não deixe que o ateu escape assumindo que o universo é tudo o que existe. Porque essa suposição pressupõe a verdade do ateísmo, e isso é o que está em questão. É isso que estamos tentando investigar.

Discussão: explicação, eternidade e multiverso

Então algum comentário ou discussão sobre a premissa (1) e a defesa dela? Aluno: Voltando ao argumento ateu: “verdade de tudo no universo mas não do próprio universo”, você diria que isso é basicamente o que o ateu procura, por algo necessário...? Eles entendem que ter algo necessário é necessário, então eles atribuem isso ao universo e não a Deus? Dr. Craig: Não é típico. Vocês entenderam à pergunta dele? Porque é perspicaz. O ateu está dizendo: quando você chega ao universo, o universo existe por uma necessidade de sua própria natureza. Então o universo não é uma exceção arbitrária à premissa (1). Ele tem uma explicação para sua existência, ou seja, o universo existe por uma necessidade de sua própria natureza, como direi mais tarde. Mas, não, normalmente não é isso o que eles estão dizendo.

Eu não conheço nenhum ateu contemporâneo que se mantém nessa posição, que o universo existe por uma necessidade de sua própria natureza. Em vez disso, o que eles dizem é que o universo é uma exceção à regra. Tudo o mais tem uma explicação para a sua existência mas não o próprio universo. Como eu digo, na ausência de alguma espécie de justificação para isso, isto é cometer a "Falácia do Taxi" porque não há nada sobre o universo além de ser apenas grande, que impeça que tenha uma explicação de sua existência. Sim, aqui. Aluno: Muitos atéus também dizem que simplesmente ainda não temos a explicação. Não sabemos. Eles se apoiam, se seguram nisso: teremos uma resposta. Não sabemos quando, mas nós vamos. Vamos resolver isso. O agnóstico diz: quero saber como Deus criou o universo. Então vamos continuar com a ciência para desenvolver e pesquisar e etc. Dr. Craig: OK.

Aluno: Nós, como cristãos, eu quero saber... queremos saber como Deus criou o universo ou isso é apenas um mistério? Dr. Craig: Eu acho que a pessoa que diz o que você acabou de dizer não compreendeu o argumento. Isso não é um argumento para que a ciência seja relevante. Seu amigo está confundindo este argumento com o argumento cosmológico de Kalam que pergunta: como o universo se originou? Qual foi a origem temporal do universo? Mas como eu disse na semana passada em resposta a uma pergunta, Leibniz está muito disposto a admitir que o universo é eterno no passado - que sempre esteve lá. Então não há explicação de sua origem. Talvez não tenha tido uma origem no sentido temporal. Mas o que Leibniz destaca é que mesmo um universo eternamente existente ainda é contingente. Não precisa existir.

Poderia ter deixado de existir, ou um tipo diferente de universo poderia ter existido - talvez um com um começo em vez de ser eterno. Então, apenas postular a eternidade passada do universo não escapa desta discussão. Isso significa que perguntas científicas sobre de onde veio o universo e como foi criado são apenas irrelevantes para isso. Este é um argumento filosófico, ou um argumento metafísico. Está perguntando por que há uma realidade espaço-tempo em primeiro lugar (não importa o quão grande seja, relevante e abrangente, se teve um começo ou nenhum início, ou quais são suas leis? Tudo isso é irrelevante. Qual é a pergunta aqui, e qual é a explicação por que há tal coisa em vez de não haver. Isso não é uma questão para que a ciência seja relevante. Aluno: Uma coisa... eu tenho um problema em compreender coisas como a contingência, e seres necessários.... Você tem que saber...

Leibniz está disposto a aceitar o universo mesmo sendo eterno no passado... ainda é contingente. Você pode me explicar como isso é possível? Porque o que sempre entendi é que se algo é eterno, é claro que não terá um começo. Essa é uma coisa que não entendo. Como pode ainda ser contingente mesmo que seja eterno no passado. Dr. Craig: Porque poderia não existir. Poderia não haver nada em vez disso. Podemos imaginar outro mundo possível em que não haja universo. Ou, como eu disse há um momento, podemos imaginar outro mundo possível, em que há um tipo diferente de universo talvez um que tenha um começo. Então, um universo eterno é apenas uma das muitas gamas de possibilidades lógicas, certo? E, portanto, é contingente que tal coisa exista. Acontece que existe um universo, com um início, de acordo com as melhores evidências que temos. Mas isso é um fato contingente.

Se houvesse a existência de um universo que é passado-eterno, isso também seria um fato contingente. Não é logicamente ou metafisicamente necessário que haja esse tipo de universo. Poderia ser um igual ao nosso, não é? Desde que você entenda que poderia ser como o nosso, então você precisa entender que sendo eterno, é contingente. Não é necessário. Porque você poderia ter tido o nosso em vez disso, como nós temos. Se você acha que este mundo é possível (o que obviamente é), isso mostra que aquele outro tipo de mundo não é necessário, se tivesse existido. Aluno: Isso provavelmente volte à ciência quanto à argumentação da contingência versus necessidade. Mas se você tivesse um universo eterno, ele estaria em morte térmica. Dr. Craig: Isso entra no próximo argumento. Vamos falar sobre as propriedades termodinâmicas do universo quando olhamos ao chamado Argumento Cosmológico de Kalam.

Isso é um tipo de argumento diferente deste. E é muito importante distinguir os dois porque objeções contra uma versão simplesmente não se aplica a outra versão, especialmente aquelas como as que acabamos de ouvir como "talvez a ciência explique como o universo se originou em outra época." Isso é simplesmente irrelevante para o argumento de Leibniz. Aluno: Então, eu estava pensando, se você poderia fazer um comentário. Você acha que a objeção de Peter van Inwagen ao princípio da razão suficiente se aplica a esta versão específica dele? Dr. Craig: Eu li van Inwagen sobre isso. E eu acho que aqueles que defendem o princípio da razão suficiente em uma forma modesta como esta, e estou pensando aqui em pessoas como Alexandre Pruss[3] da Universidade Baylor, lidaram com isso de forma adequada.

A objeção de Van Inwagen é à própria versão radical de Leibniz, que todo fato, cada verdade, tem uma explicação. E Van Inwagen diz que isso tornaria tudo necessário se você tivesse isso. Mas esta versão do princípio (Premissa (1)) não diz que toda verdade tem uma explicação, ou que todo fato tem uma explicação. Apenas que tudo o que existe tem uma explicação do porquê existe ao invés de não existir. Isso seria encontrado em um ser necessário e sua vontade. Dada a liberdade de sua vontade, este ser necessário pode escolher criar uma realidade contingente ou não criar uma realidade contingente. Por isso, não me parece que esta versão modesta do princípio seja vítima das objeções à versão radical do princípio de Leibniz. Essa foi uma das razões que me levou a aceitar esta versão do argumento.

Durante muitos anos fui cético em relação ao argumento de Leibniz até ler esta reformulação de Stephen Davis, que é um filósofo cristão, usando esta versão muito modesta do princípio. Pensei: "Uau, isto faz mesmo sentido e evita esses problemas". Aluno: Esta pergunta é apenas para meu esclarecimento e para esclarecimento das pessoas que estão ouvindo o podcast, algumas pessoas falam de um multiverso. Dr. Craig: Sim. Aluno: E este argumento, mesmo que alguém acreditasse num multiverso, não responderia à explicação do nosso universo. O próprio multiverso teria de ter uma explicação para a sua existência. Dr. Craig: Essa é a idéia, sim.

Porque quando Leibniz fala de "universo", está se referindo à toda a realidade física espaço-temporal, incluindo qualquer multiverso incorporado do qual o nosso universo possa fazer parte; então, queremos saber porque é que o multiverso existe em vez de nada, em vez de, digamos, um único universo. Porque é que existe um multiverso? E, em última análise, penso que ele tem razão. Temos de voltar a um ser necessário que existe por necessidade da sua própria natureza. Agora, deixem-me dizer o seguinte sobre a primeira premissa. Esta primeira premissa pode ser reformulada de uma forma mais simples, se quisermos. Podemos reformulá-la para dizer simplesmente que "todas as coisas contingentes têm uma explicação para a sua existência". Essa seria uma versão mais simples que também seria aceitável. Todas as coisas contingentes têm uma explicação para a sua existência.

Obviamente, se tudo tem uma explicação para a sua existência (como esta premissa afirma) então todas as coisas contingentes têm uma explicação para a sua existência. Portanto, são compatíveis, mas isto seria apenas mais modesto - todas as coisas contingentes têm uma explicação da sua existência. Então modificar-se-ia a premissa (3) para dizer que o universo é uma coisa contingente. Então, seguir-se-á que o universo tem uma explicação para a sua existência. Por vezes, nos meus debates - como o que vai ter lugar na Alemanha - para tornar isto mais acessível a um público leigo que o está ouvindo oralmente, utilizo esta versão mais simples da premissa, e depois utilizo a história da bola no bosque para fazer meu ponto de vista. Espero que isto seja útil para vocês memorizarem as premissas e serem capazes de as partilhar com outra pessoa. Esta é uma versão mais simples.

Equivalência lógica e a segunda premissa

Muito bem. Passemos agora à premissa (2) que é que se o universo tem uma explicação para a sua existência, essa explicação é Deus. À primeira vista, isto parece um pouco chocante. Lembro-me que quando vi pela primeira vez a versão do argumento de Steve Davis, pensei, espere um minuto. De onde é que isso vem?. Ele parece um deus ex machina - Deus fora da máquina. Se o universo tem uma explicação para a sua existência, essa explicação é Deus. O que Davis salientou é que a premissa (2) é de fato logicamente equivalente à resposta típica do ateu ao argumento de Leibniz. O que é que eu quero dizer com isso? Duas afirmações são logicamente equivalentes se for impossível uma ser verdadeira e a outra ser falsa. Duas afirmações são logicamente equivalentes. Se elas se mantêm ou caem juntas, ambas podem ser verdadeiras. Podem ser ambas falsas.

Mas se são logicamente equivalentes, uma não pode ser verdadeira e a outra falsa. Agora, há alguma dúvida sobre o que se entende por equivalência lógica antes de continuarmos? Alguém quer uma ilustração de equivalência lógica? Muito bem, aqui está. Aqui está uma ilustração muito simples. Tomemos a proposição p. p é logicamente equivalente à dupla negação não-não-p. São logicamente equivalentes. Se disseres: "Não é impossível que Bryant pregue esta manhã", isso significa que é possível que ele pregue esta manhã. É muito frequente falarmos neste tipo de duplo-negativas Lembro-me de um cientista me ter dito uma vez: "Isso é definitivamente não, um resultado não trivial[1]". o que é o mesmo que dizer que se trata de um resultado significativo. Por vezes falamos nestas duplas negativas. Dizemos: "Isso não é incomum", o que equivale a dizer: "isso é comum".

Este seria um exemplo de afirmações logicamente equivalentes. Portanto, logicamente, afirmações logicamente equivalentes são afirmações que são ambas verdadeiras ou são ambas falsas, mas uma não pode ser verdadeira e a outra falsa. Mais alguma pergunta sobre isso? Sim. Vamos passar o microfone para dois. Estudante: Pode ilustrar dois logicamente equivalentes em que a implicação está envolvida? Dr. Craig: Sim, de fato podemos. P implica Q é equivalente a não-P ou Q. Se p implica q, isso significa ou não-p ou q. Trata-se de uma equivalência lógica simples. A que vou utilizar é a seguinte: se p implica q, isso é equivalente a não-q implica não-p. A isso chama-se contra-posição, de fato. Há um nome para essa equivalência lógica. Não te deixes confundir por todos estes símbolos.

Isto é apenas ilustrativo da ideia de afirmações que são logicamente equivalentes entre si, ou são ambas verdadeiras ou ambas falsas, mas não é possível que uma seja verdadeira e a outra falsa. Esta ideia é clara? Penso que sim. Agora considere o que é que o ateu quase sempre diz em resposta ao argumento de Leibniz? Bem, como vimos no nosso exame da premissa (1), o que o ateu diz tipicamente em resposta a Leibniz é que: A) Se o ateísmo é verdadeiro, então o universo não tem explicação para a sua existência. Lembre-se, ele diz que o universo é a exceção ao princípio da razão suficiente. O universo simplesmente existe inexplicavelmente. Ele diz que se o ateísmo é verdadeiro, o universo não tem explicação para a sua existência. Mas isso é logicamente equivalente a dizer: B. Se o Universo tem uma explicação para a sua existência, então o ateísmo não é verdadeiro. Não é verdade?

Se o ateísmo é verdadeiro, o universo não tem explicação. Se o universo tem uma explicação, então o ateísmo não é verdadeiro. Estas duas afirmações são logicamente equivalentes, certo? Mas (B) é praticamente sinônimo da premissa (2)! Assim, a premissa (2) que à primeira vista pode parecer muito ousada e arrojada, é na realidade praticamente sinônimo daquilo em que o próprio ateu acredita. Portanto, a premissa (2) não é uma premissa que o ateu conteste. Se o universo tem de fato uma explicação para a sua existência, então essa explicação é Deus. Alguma pergunta ou comentário sobre esta premissa defensiva? Muito bem. Então, ao afirmar (A) o ateu também está afirmando, implicitamente, (B) e (B) é virtualmente sinônimo da premissa (2), então o próprio ateu está afirmando a premissa (2).

A causa transcendente e pessoal

Agora, aqui está um segundo argumento para a premissa (2). Penso que a premissa (2) é plausível por si só independentemente do que o ateu pensa. Eu acho que a premissa (2) é muito plausível. Basta pensar no que é o universo: ele é toda a realidade espaço-temporal, toda a matéria e energia. Portanto, se o universo tem uma explicação para a sua existência, essa explicação deve ser encontrada numa causa que existe para além do espaço e do tempo, para além da matéria e da energia, e que é, portanto, não-física, imaterial, sem espaço e intemporal. Isto é incrível. A explicação do universo só poderia ser encontrada em algo que transcende espaço e tempo, matéria e energia, e que criou o universo. Ora, que possíveis candidatos poderia haver para tal ser?

Só consigo pensar em duas coisas que poderiam servir esse tipo de descrição: ou um objeto abstrato como um número (ou outro objeto matemático) ou então uma mente ou consciência não incorporada. Um objeto abstrato é, como se recordará, imaterial, não-físico, existe para além do espaço e do tempo, existe necessariamente (se é que existe, não existe contingentemente). Por isso, um objeto abstrato seria um objeto transcendente, imaterial, atemporal, sem espaço, metafisicamente necessário. O problema é que os objectos abstratos não se encontram em relações causais. De fato, entre os filósofos contemporâneos, isso é praticamente definitivo. O que é um objeto abstrato. O que distingue um objeto abstrato de um objeto concreto é que só os objetos concretos estão em relação de causalidade. Os objetos abstratos são causalmente ineficazes, ou causalmente impotentes.

O número 7, por exemplo, não tem efeito sobre nada. Portanto, segue-se que a causa, ou a explicação, do universo não pode ser um objeto abstrato. Portanto, deve ser uma mente ou consciência não incorporada que seria um objeto transcendente, imaterial, não-físico, sem espaço, atemporal, pessoal, que criou livremente um universo contingente. Portanto, esta é claramente uma conclusão que está repleta de significado teológico. Espero que comecem a compreender o poder do argumento de Leibniz. A explicação do universo tem de ser um ser necessário, não causado, atemporal, sem espaço, imaterial, pessoal. Isto não é um monstro de espaguete voador mal concebido. Este é um ser que deve exibir os atributos tradicionais de Deus. Esta é uma conclusão verdadeiramente surpreendente.

Qualquer questionamento ou discussão sobre essa defesa da premissa dois, de que se o universo tem uma explicação para a sua existência, essa explicação é Deus, é feita à medida.

Discussão: mente e necessidade metafísica

Aluno: E se o ateu dissesse algo sobre a filosofia da mente - eles acreditam que a mente é apenas material, e se não houver neurônios em funcionamento, então não há mente e, portanto, é inerentemente física. Dr. Craig: É importante ver que este argumento que Leibniz está apresentando aqui é um argumento a favor de uma mente imaterial! Esta seria uma razão para acreditar que as mentes não são apenas físicas ou materiais como os cérebros, mas que são entidades imateriais. Porque essa é a única maneira de explicar a existência de um universo contingente. Este é de fato um argumento para a imaterialidade e a não-fisicalidade da mente. Agora, o ateu provavelmente não acredita em mentes como essa. Por isso, ele pode levantar objeções a isto. Ele pode tentar dar-nos as suas provas do materialismo ou do fisicalismo redutor. O teísta terá de responder a esses argumentos.

Mas não pode simplesmente pressupô-los. De outra forma, está cometendo petição de princípio de novo. Se ele apenas pressupôs que não pode haver uma mente então ele está cometendo petição de princípio, porque este é um argumento a favor dessa mente. Mas se ele tiver alguns argumentos a favor do fisicalismo redutor ou do materialismo, ótimo! Vamos ouvi-los, e veremos se podemos responder-lhes. Normalmente, os argumentos contra a existência da mente, percebi, basear-se-ão na cognição humana e no fato de, nos seres humanos, as mentes estarem tipicamente ligadas aos cérebros e de se afirmar que os estados cerebrais se correlacionam com os estados mentais e tudo mais. O problema com isso é que, na melhor das hipóteses, isso só provaria que somos criaturas físicas, não mentes. Mas isso não mostra que uma mente é impossível.

Vai ser muito difícil, penso, para o materialista ou ateu mostrar que não pode haver uma mente pessoal transcendente, imaterial que criou o universo. O máximo que ele vai fazer é talvez tornar esse tipo de dualismo implausível no que dis respeito às criaturas humanas. Mas depois precisaria de extrapolar isso para um criador cósmico, e não tenho a certeza de como seria capaz de o fazer. Entende? Está bem. Agora, havia aqui outra pergunta, penso eu, Drew. Aluno: Poderia clarificar a ideia de necessidade metafísica? Muitas pessoas ficam presas a isso. Se eu disser que "o universo existe e Deus não existe", não há uma contradição rigorosa. Não estamos contradizendo uma definição estipulada. Mas não queremos dizer "impossível" no sentido de dizer que é impossível mover-se mais rápido que a luz, é impossível criar uma máquina de movimento perpétuo. Portanto, não é.

Em qualquer uma das nossas categorias. Dr. Craig: Podemos contar com você para tornar as coisas mais complicadas do que queremos que sejam! O que ele está a apontando é que há diferentes tipos de possibilidade e necessidade. Por exemplo, um deles seria a possibilidade e a necessidade físicas. É fisicamente impossível acelerar um objeto através da velocidade da luz e fazê-la ir mais rápido que a luz. Isso é fisicamente impossível. É contra as leis da natureza. Mas não há impossibilidade lógica nisso. Poderia ter existido um universo com leis da natureza diferentes onde se podia acelerar algo à velocidade da luz. Isso seria um tipo de possibilidade de baixo nível e necessidade baseada nas leis da natureza. Por outro lado, há o que poderíamos chamar de possibilidade e necessidade lógicas estritas.

Aqui, para que algo não seja estritamente possível do ponto de vista lógico o seu contrário teria de envolver uma contradição.[2] Por exemplo, um homem casado e solteiro. Isso seria estritamente impossível do ponto de vista lógico, porque aí disse ele é casado e solteiro - são coisas rigorosamente contraditórias do ponto de vista lógico. O que os filósofos notaram é que há uma diferença de possibilidade e necessidade, diferente destes, que é normalmente chamado de possibilidade e necessidade lógicas amplas, por oposição a estritas. Por vezes, designa-se por possibilidade ou necessidade metafísica. E a ideia é aqui algo que pode ser realizável seria metafisicamente possível. Não basta estar livre de contradições. Isso mostraria que é estritamente logicamente possível, mas isso não mostraria que é efetivamente possível existir, que poderia ser metafisicamente possível.

Um dos meus exemplos favoritos é a ilustração que Alvin Plantinga dá: poderia o primeiro-ministro ter sido um número primo? Bem, obviamente que não. Agora, não há contradição lógica nessa afirmação, certo? O primeiro-ministro é um número primo. Não há uma contradição lógica rigorosa, mas é obviamente metafisicamente impossível que o primeiro-ministro seja um número primo. Se se pergunta o porquê, pense no fato de que os primeiros-ministros são agentes causais e um número primo, enquanto objeto abstrato, não é um agente causal. Já dissemos que os objetos abstratos não estão em relações causais. Portanto, é metafisicamente impossível que o primeiro-ministro seja um número primo embora não exista uma contradição lógica estrita. O que estamos falando aqui é de um ser que é metafisicamente necessário na sua existência. Deus é um ser metafisicamente necessário.

Isso não é refutado pelo ateísta ao apontar que a afirmação "Deus não existe" não envolve uma contradição lógica. "Deus não existe" não envolve uma contradição lógica estrita, assim como “o primeiro-ministro é um número primo” não envolve uma contradição lógica estrita. Mas isso não significa que, portanto, Deus não é um ser metafisicamente necessário. Deus é metafisicamente necessário na sua existência, apesar de não existir uma contradição lógica em dizer que Deus não existe. Portanto, é aí que Drew quer chegar. Ele quer que eu deixe claro que o que Leibniz está falando é de necessidade metafísica. Deus existe por necessidade metafísica. A forma como eu deduzo isso é que ele existe por uma necessidade da sua própria natureza.

Portanto, se estas duas premissas são verdadeiras que tudo o que existe tem uma explicação para a sua existência, seja pela necessidade da sua própria natureza ou por uma causa externa, e também é verdade que se o universo tem uma explicação para a sua existência, essa explicação é Deus então segue-se que Deus existe por uma necessidade da sua própria natureza. Ele é um ser metafisicamente necessário.

Continuidade e bênção

Na próxima semana vamos considerar uma última objeção ao argumento de Leibniz. Suponhamos que o ateu diz: "Está bem, retiro a minha objeção à premissa (1) e, em vez disso, vou dizer que o universo é um ser metafisicamente necessário. O universo existe por uma necessidade da sua própria natureza. O que é que podemos dizer em resposta a isto? Muito bem, vamos inclinar as nossas cabeças para a uma benção. “A graça do Senhor Jesus Cristo, e o amor de Deus, e a comunhão do Espírito Santo estejam com todos vocês.” Amém.

Aula de William Lane Craig. Publicação original: Reasonable Faith. © 2015 William Lane Craig. Tradução e edição em português: Fé Razoável. Transcrição da versão em português, revisada em 20/10/2026; citações bíblicas conferidas na NAA.