Resumo da equipe Fé Razoável, preparado com auxílio de IA
Craig apresenta razões para interpretar figurativamente as descrições antropomórficas de Deus em Gênesis 2 e 3 e examina aparentes diferenças na ordem da criação entre Gênesis 1 e 2. A discussão aborda teofania, leitura literal, metáforas, a estrutura de Gênesis e propostas de harmonização. A transcrição preserva as objeções dos alunos e a bênção final.
Antropomorfismo e teofania
Em nossa última sessão juntos, vimos que há muitos elementos em Gênesis 1-3 que, se tomados literalmente, pareciam ser manifestamente falsos, o que nos recomenda uma interpretação figurada. Entre os principais, certamente, estão as descrições antropomórficas de Deus, que são incompatíveis com o Deus transcendente descrito no capítulo 1. Quero dizer mais uma palavra sobre uma questão da semana passada: se não poderíamos considerar Gênesis 2 e 3 como uma teofania semelhante à aparição de Deus a Abraão nos carvalhais de Manre, em Gênesis 18. Há exemplos no Antigo Testamento, como Gênesis 18, em que Deus aparece a uma pessoa em forma humana.
Temos isso na aparição do Senhor a Abraão em Gênesis 18. Permitam-me sugerir, porém, duas razões pelas quais penso que Gênesis 2 e 3 são interpretados com menos plausibilidade como uma teofania do que como linguagem figurada. Em primeiro lugar, as qualidades antropomórficas do Senhor em Gênesis 2 e 3 não são apresentadas como uma teofania. Vejam como a linguagem da teofania aparece em Gênesis 18:1-2. O autor diz: "O SENHOR apareceu a Abraão nos carvalhais de Manre, quando ele estava assentado à entrada da tenda, no maior calor do dia. Abraão levantou os olhos, olhou, e eis que três homens estavam em pé diante dele." Em contraste, em Gênesis 2 e 3 não há nada de linguagem de teofania como essa — de Deus aparecendo a Adão e Eva, que erguem os olhos e o veem no Jardim.
Em segundo lugar, e penso que decisivamente, em Gênesis 2 e 3 Deus é descrito antropomorficamente mesmo quando não está aparecendo a Adão. Esse é o caso mais evidente na criação de Adão por Deus. Ao criar Adão, ele o forma do pó da terra e, depois, sopra em seu nariz o fôlego da vida, e Adão ganha vida. Isso claramente não é uma aparição do Senhor a Adão, porque Adão nem sequer está vivo nesse momento, e, ainda assim, Deus é descrito antropomorficamente. Um segundo exemplo seria a criação de Eva por Deus. Adão está inconsciente quando isso acontece.
Deus faz Adão dormir e então realiza nele essa cirurgia física para criar Eva. Portanto, novamente, isso não pode ser uma aparição a Adão, porque Adão está inconsciente. Parece-me que nenhuma dessas coisas é uma aparição do Senhor a Adão e que, portanto, essa linguagem antropomórfica é mais plausivelmente interpretada como figurada por natureza, e não como algo a ser tomado literalmente.
A ordem da criação em Gênesis 1 e 2
Além desses elementos da narrativa que, se tomados literalmente, são manifestamente falsos, também temos certas inconsistências prima facie (isto é, inconsistências à primeira vista) entre os capítulos 1 e 2 que, aparentemente, não preocuparam em absoluto o autor de Gênesis, como a ordem da criação das plantas, dos animais e do homem. Segundo Gênesis 2:5, não havia chuva e, portanto, não havia vegetação na Terra antes da criação do homem. Gênesis 2:5-7 diz: "Não havia ainda nenhuma planta do campo na terra, pois ainda nenhuma erva do campo havia brotado; porque o SENHOR Deus não tinha feito chover sobre a terra, e também não havia ninguém para cultivar o solo.
Mas uma neblina subia da terra e regava toda a superfície do solo. Então o SENHOR Deus formou o homem do pó da terra..." Segundo essa passagem, não havia chuva e, portanto, não havia vegetação antes da criação do homem. Mas, segundo Gênesis 1, Deus criou a vegetação no dia 3, antes de criar o homem no dia 6. Alguns comentaristas têm argumentado que, na verdade, não há inconsistência aqui quanto à vegetação anterior ao homem, porque Gênesis 2:5 não está se referindo a todos os tipos de vegetação; antes, está se referindo especificamente a apenas dois tipos de vegetação: espinhos e cereais.
Diz-se que estes surgiram da Terra somente depois da Queda, como consequência de Deus amaldiçoar o solo. Nessa interpretação, havia vegetação em abundância por toda a Terra antes da criação do homem, mas não havia espinhos nem cereais. Eles só surgem depois da Queda. Mas penso que essa harmonização é engenhosa demais. Nessa leitura, a razão dada em Gênesis 2:5 para a Terra não ter produzido espinhos e cereais deveria ter sido “porque o homem ainda não havia pecado”. Já que o mundo supostamente estava cheio de vegetação naquele tempo, a ausência de chuva e a ausência de um homem para cultivar o solo nada tinham a ver com isso.
Além disso, o homem recebeu a ordem de cultivar o Jardim antes da Queda — Gênesis 2:15 lhe dá a ordem de cultivar o Jardim — o que implicaria que o crescimento dos cereais não foi adiado até depois da Queda. Portanto, penso que é muito mais plausível entender que Gênesis 2:5 contempla uma distinção exaustiva entre plantas não cultivadas, de um lado, e plantas cultivadas, do outro, e, portanto, não havia vegetação naquele tempo. De modo semelhante, em Gênesis 1, Deus cria os animais antes de criar o homem, mas, em Gênesis 2:18-19, Deus cria o homem antes de criar os animais.
Gênesis 2:18-19 afirma: "O SENHOR Deus disse ainda: 'Não é bom que o homem esteja só; farei para ele uma auxiliadora que seja semelhante a ele.' Havendo, pois, o SENHOR Deus formado da terra todos os animais do campo e todas as aves dos céus, trouxe-os a Adão, para ver que nome lhes daria; e o nome que ele desse a todos os seres vivos, esse seria o nome deles." Teria sido muito fácil para o autor de Gênesis colocar o relato da criação do homem no capítulo 2 em conformidade com o relato de Gênesis 1, em vez de deixar essas aparentes inconsistências quanto à ordem da criação do homem e dos animais.
O comentarista judeu Umberto Cassuto diz que o autor de Gênesis não poderia ter deixado de notar o que ele chama de “uma contradição tão gritante” na ordem da criação dos animais, se tal contradição existe. Por isso, Cassuto rejeita a tradução harmonizadora do capítulo 2, versículo 19, segundo a qual os animais “ele já havia criado”, considerando-a indigna de séria consideração. Cassuto supõe que o gado, ou os animais domésticos, já deviam estar com o homem no Jardim, ao passo que os animais do campo e as aves do céu, por serem animais selvagens, não estavam no Jardim. Assim, o que o capítulo 2, versículo 19, contempla é o Senhor criando o que Cassuto chama de “espécimes particulares” desses animais selvagens para apresentá-los ao homem no Jardim.
Por exemplo, embora houvesse crocodilos fora do Jardim, não havia nenhum no Jardim; então Deus cria um espécime de crocodilo e deixa Adão lhe dar um nome. Havia hipopótamos fora do Jardim, mas Deus cria um espécime de hipopótamo no Jardim para que Adão lhe dê um nome. Havia leões fora do Jardim, mas Deus cria um espécime de leão no Jardim para que Adão lhe dê um nome. Deixo a cargo de vocês decidir se consideram essa uma interpretação plausível da passagem. O ponto principal continua sendo que, se o autor estivesse preocupado com a consistência, certamente teria evitado uma contradição tão gritante tornando um cenário como o imaginado por Cassuto evidente ao leitor e deixando-o muito mais claro.
Por que o autor foi tão indiferente a essas aparentes inconsistências? Bem, plausivelmente, porque não pretendia que sua história fosse lida de modo literalista. Dada a plasticidade dos mitos (e vocês se lembrarão de que isso se refere à sua variabilidade e às maneiras como podiam ser contados), eram possíveis diferentes maneiras de contar as histórias, desde que a mesma verdade fundamental fosse expressa. Alguma dúvida sobre esse fator para lermos as narrativas de maneira mais figurada? Sim.
Discussão sobre interpretação e metáfora
Aluno: É claro que não estudei essa literatura em hebraico, mas, apenas lendo a passagem em que ele fala sobre dar nomes ao gado, parece-me forçado interpretar isso estritamente como estando em conflito com a criação dos animais. Isso me parece um salto talvez justificado por uma motivação ulterior ao interpretar a linguagem, e talvez para justificar outras interpretações das Escrituras.
Dr. Craig: Francamente, surpreende-me que você diga isso, porque me parece que a leitura prima facie é que ele cria primeiro o homem e depois cria os animais e os leva até ele. Cassuto, como eu disse, afirma que isso é uma contradição gritante, se de fato há uma contradição aqui, e isso foi observado por todos os comentaristas de Gênesis.
Aluno: Não diz que criou, nem que primeiro os criou nem nada parecido naquele versículo sobre dar nomes. Então, não tenho certeza de onde haveria uma contradição entre a criação dos animais e uma segunda criação posterior, quando a segunda ocorrência não faz referência à criação.
Dr. Craig: Certo, bem, essa é a solução que Cassuto prefere — que não havia nenhum desses animais no Jardim e, assim, de fato, ocorre uma espécie de segunda criação desses espécimes para Adão nomear. Embora eu não saiba como refutar isso, penso que vocês precisam simplesmente se perguntar: essa é a interpretação mais plausível? Temos uma ordem diferente, ao que parece, com a vegetação, os animais e o homem, e, portanto, é preciso explicar por que a ordem é aparentemente contraditória.
Aluno: Parece-me que Gênesis 1 é mais uma ordenação sequencial da criação de Deus e que o capítulo 2 amplia certos aspectos da criação, sem necessariamente tentar vinculá-los a uma ordem ou cronologia. É aí que me parece estar o problema.
Dr. Craig: Certo, e esse é exatamente o ponto que estou defendendo.
Aluno: Eu veria isso como não estando em conflito com Gênesis 1 na sequência da criação, mas como se ele estivesse extraindo, no capítulo 2, detalhes da criação. Ele está tratando de alguns subconjuntos disso; uma ampliação das responsabilidades do homem.
Dr. Craig: Acho que está certo. Sim. Mas o estranho é que, quando ele faz essa ampliação, há uma ordem de criação diferente da que temos em Gênesis 1, em que primeiro temos a vegetação no dia 3, depois os animais terrestres no dia 6 e, finalmente, o homem como a coroa da criação, ao passo que, em Gênesis 2, temos primeiro o homem sendo criado no Jardim, depois a vegetação sendo criada e, então, os animais sendo criados e levados ao homem. Portanto, há pelo menos um conflito aparente aqui que precisa ser resolvido. Tendo a concordar com o que você acabou de dizer no início: ele não está preocupado aqui com a cronologia a ponto de importar se as coisas estão ordenadas cronologicamente ou são narradas na sequência exata.
Aluno: Concordamos com isso. Acho que, no segundo capítulo, ele não está tentando... ... ele pressupõe que essas coisas foram feitas e então seleciona aspectos delas para desenvolver em vez de dizer: “Estou ordenando isso novamente de maneira diferente de Gênesis 1.”
Dr. Craig: Certo. Mais alguém?
Aluno: Posso voltar à teofania? Eu só tinha algumas perguntas sobre isso. Primeiro: no capítulo 2, nunca li o texto nem entendi o capítulo 2 como implicando que ali houve uma teofania. Parece apenas que Deus está fazendo coisas em um lugar menor, e não apenas em escala mundial, como no capítulo 1, na escala transcendente. É somente naquela breve menção no capítulo 3 que diz que ele está andando por ali. Então, não sei se talvez haja comentários que sugiram que o capítulo 2 deve ser entendido como Deus realmente estando no Jardim, ajoelhado, fazendo um homem-castelo de areia.
Mas a outra coisa que eu queria sugerir também era que, mesmo no contexto de Gênesis, não acho... porque o senhor mencionou que, mais tarde, as teofanias são destacadas como “o Senhor apareceu a eles” dessa maneira, mas há um versículo em Gênesis 4:26 que diz: “Foi nesse tempo que se começou a invocar o nome do SENHOR.” Isso parece sugerir que a implicação é que, em algum momento, Deus era de fato visível às pessoas. Elas sabiam que ele estava ali. Ele estava por perto. Mas, algum tempo depois de Caim assassinar Abel e das consequências resultantes disso, Deus começou a ficar oculto para elas, e elas tiveram de começar a invocá-lo para encontrá-lo.
Dr. Craig: Deixe-me tratar desses pontos na ordem inversa. Não acho que esse último ponto seja, de modo algum, uma interpretação plausível. Acho que ali se está falando dos nomes de Deus. No capítulo 1, a palavra para Deus é Elohim, e então, no capítulo 2, o Senhor é apresentado — Yahweh Elohim. Acho que, quando ele diz que os homens começaram a invocar o nome do Senhor, isso significa o nome de Yahweh. Na verdade, essa é outra dessas aparentes inconsistências, porque, mais tarde, quando ele aparece a Moisés, parece que o nome divino tinha permanecido oculto até aquele momento em que Moisés recebe a revelação do nome divino.
Os comentaristas têm se esforçado muito para tentar entender isso. Quanto ao primeiro ponto, certamente concordo com você que o antropomorfismo no capítulo 2 é mais implícito e sutil, e ele só emerge de forma realmente incontornável no capítulo 3, quando temos Deus andando pelo Jardim na viração do dia, chamando Adão e procurando por ele, que se esconde entre as árvores. Mas, quando lemos o capítulo 2 à luz do capítulo 3, penso que então é muito plausível que o capítulo 2 também seja antropomórfico. Ele forma o homem do pó da terra e então sopra em seu nariz o fôlego da vida, e o homem de terra ganha vida.
Isso, penso eu, é uma descrição muito física, especialmente quando lida à luz do capítulo 3, que é incontornavelmente físico.
Aluno: Acho que simplesmente não entendo por que isso... mesmo que o capítulo 2 estivesse sugerindo uma teofania, não vejo por que isso seria de algum modo menos significativo do que Deus aparecer mais tarde a outras pessoas.
Dr. Craig: Talvez você não tenha entendido meu ponto. Estou dizendo que o capítulo 2 não é uma teofania, porque não havia ninguém a quem Deus estivesse aparecendo ali. Temos simplesmente uma descrição antropomórfica de Deus criando Adão e dando vida à figura de terra (estou tentado a dizer “estátua” — não sei que palavra usar), e ela ganha vida. Não há nenhuma aparição nesse ato, porque Adão ainda não está vivo. É por essa razão que penso que o capítulo 2 não é uma teofania, mas penso, sim, que é antropomórfico, isto é, descrito em termos humanos.
Aluno: Parece que o senhor não se importa que nós façamos comentários sobre a semana passada, então eu só queria dizer — a coisa que ficou comigo e me incomodou um pouco desde a semana passada é que acho que, em alguns aspectos, o senhor está representando incorretamente as posições da interpretação literal, de modo a fazê-las parecer especialmente tolas ou absurdas. Por exemplo, as pessoas que creem na exatidão histórica do relato de Gênesis não creem que o fruto da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal fosse algum tipo de fruto mágico que concedesse poderes sobrenaturais. Quero dizer, tratava-se simplesmente de desobediência.
Tudo o que sabemos sobre a Árvore é que, se eles comessem dela — como lhes foi dado livre-arbítrio, tinham a opção de desobedecer a Deus — e, quando desobedeceram a Deus, naturalmente lhes seria concedido o conhecimento do bem e do mal, porque não havia mal no mundo antes que o pecado entrasse neles.
Dr. Craig: E quanto à imortalidade? Parece-me que aí você definitivamente tem a ideia de que comer o fruto conferirá imortalidade ao seu corpo, e isso não vem de Deus, porque é contra a vontade de Deus. Ele diz, em substância: temos de mantê-los fora do Jardim, para que não entrem, comam do fruto e se tornem imortais. Então, para mim, parece um fruto mágico.
Aluno: Bem, há a Árvore da Vida e há a Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal. São duas árvores distintas. Estou me referindo à Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal. Isso não precisa ser interpretado de maneira tão literal, assim como não cremos que, quando é lançada a maldição sobre a serpente ou Satanás e se diz: “Este lhe ferirá a cabeça, e você lhe ferirá o calcanhar”, quero dizer, ninguém que crê na interpretação literal acha que isso esteja nos dizendo hoje como os seres humanos devem matar cobras quando as veem. Pode haver ali algum simbolismo e prenúncio evidentes na maldição, sem dizer que todo o acontecimento foi metafórico e nunca aconteceu.
É apenas um grande símbolo. Eu simplesmente não quero que a interpretação literal seja representada incorretamente; ao levá-la a um literalismo extremo, ela acaba parecendo tola e absurda.
Dr. Craig: Muito bem, parece então que o que você chamaria de interpretação literal está dando um passo na direção que estou defendendo — a saber, algum tipo de interpretação figurada ou metafórica. A questão seria, suponho, até que ponto alguém iria, mas isso é justo.
Aluno: Eu gostaria ao menos de terminar com duas perguntas rápidas que estão meio combinadas. Entendo que o senhor crê em um Adão e uma Eva literais, mas não crê que os acontecimentos ou os fatos que os cercam, ou os personagens anteriores a Abraão, sejam necessariamente literalmente verdadeiros. Então, acho que minha pergunta é: qual é o seu critério para decidir quais partes são literalmente verdadeiras e quais partes serão metáforas simbólicas?
Dr. Craig: Vou tratar disso daqui a pouco.
Aluno: Certo, então deixe-me apenas acrescentar esta pergunta, que talvez o senhor também possa abordar. Quanto às partes que o senhor de fato considera símbolos ou metáforas, sabemos do que elas são símbolos ou metáforas?
Dr. Craig: Vou tratar disso daqui a pouco.
Aluno: Se a Queda não aconteceu porque Adão e Eva comeram da Árvore, então como a Queda realmente aconteceu? Não entendo por que Deus nos daria todos esses símbolos e metáforas ao mesmo tempo em que nos deixaria totalmente sem saber o que realmente aconteceu nos acontecimentos reais.
Dr. Craig: Muito bem, acompanhe e veja se você fica satisfeito com o que vou compartilhar.
Aluno: Como é que dizer que Sete tem 912 anos pode ser uma metáfora ou símbolo de outra coisa sobre a qual não fazemos ideia? Ainda estou tendo dificuldade com isso.
Dr. Craig: Certo.
Aluno: Espero que isso não esteja muito fora do assunto, mas, tendo acabado de voltar do Oeste, do Colorado, e de estudar os indígenas, fiquei curioso. Os mitos deles, histórias da criação sobre o Grande Espírito e histórias sobre como os animais vieram a existir, e que Deus providenciou o búfalo e assim por diante para o sustento do homem, e o respeito deles pela natureza como resultado disso — eles viam Deus muito envolvido (ou o Grande Espírito) na natureza. Acho que minha pergunta é: eles têm seus próprios mitos, por assim dizer, de criação e origem. Existe, de algum modo, alguma correlação pela qual o homem primitivo (o homem pré-histórico), por meio da tradição oral, tenha recebido esses mitos, como em Gênesis, da tradição judaica?
Há alguns paralelos ou simbolismos? Sei que falamos do Egito, mas acho curioso que haja alguns elementos comuns em todos esses mitos e uma maneira como os grupos humanos os compreendiam, especialmente, creio eu, na cultura indígena. Não acho que eles os tomassem de modo tão literal quanto nós tendemos a tentar fazer no Ocidente, mas os viam como histórias importantes e verdadeiras de seu povo. O senhor acha que existe algum tipo de ligação, por assim dizer, com essa visão da criação primitiva?
Dr. Craig: Não temos como saber a resposta a isso, porque essas são tradições pré-literárias e, portanto, não são registradas por escrito até chegarmos aos antigos mitos babilônicos e sumérios, que datam de cerca de 3000 a.C., 2000 a.C., e então temos também essas histórias hebraicas. Essas estão entre as mais antigas. Mas, antes disso, você mencionou, creio eu, o homem pré-histórico — precisamente por ser pré-histórico, não sabemos.
Aluno: Estou pensando apenas na migração para a América do Norte e a América do Sul, há 2.000 anos, quando as tribos indígenas se estabeleceram, e as histórias delas são muito semelhantes entre as tribos, sobre a criação e o Grande Espírito. Parece apenas ser um tema comum.
Dr. Craig: Deixe-me dizer o seguinte. É muito difícil, como eu disse antes, estabelecer uma ligação causal entre essas coisas. Vocês se lembrarão de que descrevi essa aflição chamada paralelomania, em que os estudiosos, com frequência excessiva, veem semelhanças e então estabelecem ligações causais. Sou muito cético quanto a essa possibilidade. Mas, dito isso, penso que o ponto que você está levantando é válido — todos esses mitos têm certas características comuns nos grandes temas que ensinam. Há um relato da criação — de onde veio tudo? Há, com frequência, um relato da origem da humanidade — por que os seres humanos existem e qual é o propósito dos seres humanos?
A narrativa do Dilúvio é muito difundida pelo mundo entre diferentes povos, inclusive na cultura indígena. Portanto, há certos grandes temas que, penso eu, são relevantes para classificar o gênero ou o tipo de literatura que Gênesis 1-11 é.
Aluno: Acho interessante que muitos deles tenham uma espécie de guarda-chuva monoteísta, e me parece que, quando se avança na história, é que se entra mais no panteísmo...
Dr. Craig: Não sou antropólogo. Sei que essa tem sido uma questão muito controversa e debatida: o monoteísmo ou o politeísmo é mais primitivo? Não estou em posição de ter uma opinião sobre isso.
Aluno: Só para esclarecer, porque eu simplesmente não sei o que isso significa — quando o senhor diz que o texto é antropomórfico, o que está dizendo?
Dr. Craig: Vamos destrinchar essa palavra. A palavra “antropomórfico” vem de duas palavras gregas. Uma é anthropos, que significa “homem” ou “humano”, e depois morphē é a palavra para “forma”. Portanto, uma descrição antropomórfica é uma descrição de algo em forma humana. É isso que temos em Gênesis 2 e 3 — descrições antropomórficas de Deus, que sabemos, pelo capítulo 1, não ter forma humana; portanto, elas não podem ser literais, a menos que seja uma teofania de Deus aparecendo em forma humana.
Aluno: Eu sempre ficava confuso, porque sempre achei que teofania fosse justamente isso — vir em forma humana.
Dr. Craig: Não, penso que você consegue ver a diferença aqui. Teofania vem de outras palavras gregas que também são instrutivas. Theos significa Deus, e depois creio que seja phainó, que significa “aparecer”. Portanto, isso seria uma aparição de Deus a uma pessoa, e ele poderia aparecer sob diferentes formas, embora, muitas vezes nas Escrituras, Deus apareça em algum tipo de forma humana, como em Gênesis 18. Assim, uma é, por assim dizer, uma categoria linguística, e a outra é uma categoria fenomênica.
Aluno: Pode me cortar se eu estiver adiantando as coisas mas no assunto da metáfora, pelo que entendo, há de fato concepções concorrentes sobre as condições necessárias e suficientes para uma metáfora. Por exemplo, há o que se chama de concepção de força bruta. Uma concepção de força bruta diria que elas estão mais próximas de tornar algo verdadeiro (truthmaking). Há essa metáfora e há algo no mundo real que precisa corresponder a ela de alguma maneira. Depois há outras concepções, por exemplo, que dizem que, se tenho uma metáfora, talvez haja artefatos na metáfora. Não há nada na própria metáfora que corresponda ao mundo real.
Só quero saber onde o senhor se posiciona quanto a isso.
Dr. Craig: Não tenho uma posição sobre isso. Minha inclinação seria para a que diz que não é necessário haver uma coisa correspondente na realidade. Gostaria de conseguir pensar imediatamente, de cabeça, em uma metáfora que usamos.
Aluno: Estou pensando em uma neblina. A neblina que o senhor disse que subia do solo. Provavelmente não acho que isso corresponda a coisa alguma.
Dr. Craig: Não, eu estava tentando pensar em alguém que pudesse usar metáforas que não correspondam a algo, como quando as pessoas dizem que algo é uma confusão florescente e zumbidora. Não acho que exista na realidade algo como uma confusão florescente e zumbidora. É apenas uma espécie de maneira metafórica de descrever algo que não está claro. Certamente deve haver exemplos, se juntássemos nossas cabeças, de metáforas em que poderíamos pensar que não tenham referência concreta, como, por exemplo, “ela está com uma abelha na touca”. Isso parece bem literal à primeira vista, não parece? Refere-se a um inseto em um chapéu.
Ela está com uma abelha na touca. Mas não significa isso. Significa que ela está zangada ou irritada, ou algo assim.
Aluno: Mas, nesse caso, corresponde a alguma coisa.
Dr. Craig: Sim, exatamente. Então, minha inclinação seria dizer que poderíamos pensar em metáforas que não tenham esse tipo de referência concreta.
Aluno: Falando sobre metáforas, até onde o senhor acha que isso se estende no livro de Gênesis? Até chegar, digamos, à Arca de Noé?
Dr. Craig: Penso, sim, que os primeiros onze capítulos são uma espécie de ponto claro de ruptura. Todos os comentaristas de Gênesis observam que Gênesis tem uma estrutura tripartida, isto é, de três partes. De 1 a 11 temos a história primeva; depois disso, temos as narrativas patriarcais; e, por fim, temos a história de José, que encerra o livro. A história primeva (os primeiros onze capítulos) se destaca nitidamente das narrativas patriarcais por sua semelhança com mitos antigos e pelo emprego de motivos etiológicos, como fundamentar realidades presentes no passado remoto. Depois do capítulo 11, esses tipos de semelhanças e motivos simplesmente não existem.
Então, todos parecem reconhecer que os primeiros onze capítulos são separados nesse sentido.
Aluno: Esta é apenas uma pergunta simples. Na linguagem do versículo 19, diz: “Da terra o SENHOR Deus formou todos os animais do campo”. O senhor está dizendo que isso o coloca fora de sequência. No hebraico, se, em inglês, se dissesse: “Da terra o Senhor Deus havia formado todos os animais e então os trouxe até mim”, não é uma grande mudança, mas eu estava me perguntando se seria possível detectar isso no hebraico.
Dr. Craig: É permitido, mas não é detectável, penso eu. Lembrem-se de que citei Cassuto (ele próprio um comentarista judeu), que disse que essa alternativa não deve ser levada a sério. É apenas uma tentativa de harmonização, traduzindo mal a passagem para fazer parecer que Deus já havia formado os animais ao colocá-la no tempo verbal mais-que-perfeito. Agora, linguisticamente, sim, esse verbo poderia receber esse tipo de tempo mais-que-perfeito. Mas, quando se lê toda a história, quando se lê o contexto, essa é a melhor maneira de traduzi-lo ou é melhor simplesmente traduzi-lo no passado simples — isto é, agora este é o ponto em que Deus está criando os animais?
A maioria dos tradutores e comentaristas, penso eu, concordaria com Cassuto em rejeitar a tradução harmonizadora com base no contexto. É apenas um ponto linguístico isolado, à parte do contexto, que o verbo permitiria múltiplas formas de vertê-lo.
Aluno: Mas ele permite. E o capítulo 1 é claro: dia 1, dia 2, dia 3. Isto não é dia 1, dia 2, dia 3, e poderia usar o mais-que-perfeito, ou seja lá o que for. Então faria sentido que, já que ele os havia criado, os trouxesse.
Dr. Craig: Não acho que faça tanto sentido quanto lê-lo simplesmente sem o mais-que-perfeito, mas o ponto linguístico isolado está correto. Ele permite isso. Isso é verdade.
Aluno: Uma pergunta sobre a chuva, porque de fato diz que não choveu. Acho que, na semana passada ou na anterior, o senhor disse que as pessoas que liam isso conheceriam o ciclo da água e todas essas coisas, então não faria sentido escrever isso. Acho que, se alguém estivesse escrevendo para fazer parecer que isso se encaixa no que todos sabem, então, sim, isso está correto. Mas, se estivessem escrevendo: “Foi isso que aconteceu e foi assim que funcionou”, então ter algo como a neblina sendo usada para regar tudo, sem haver chuva, parece-me que, se você estivesse escrevendo para dizer: “Veja, era assim que funcionava antes”, diria que havia chuva.
Se estivesse inventando, diria que havia chuva. Mas, como diz: “Não, não havia chuva e havia neblina”, acho que poderíamos tomar isso como literalmente verdadeiro.
Dr. Craig: Penso, sim, que isso deve ser entendido, em certo sentido, literalmente. Ele está dizendo que não havia chuva. Mas questiono se o autor realmente pretendia que nós e seus leitores pensássemos que houve um período na história da Terra em que nunca tinha chovido sobre a face da Terra, porque ele entendia que, havendo rios e mares e evaporação, formam-se nuvens e vai chover. Quando ele se refere às águas de cima, no Antigo Testamento, isso se refere, penso eu, à chuva e às nuvens de chuva, e eles entendiam que era ali que estavam as águas de cima e de onde vinha a chuva.
Aluno: Tendo a rejeitar o uniformitarismo. Tendo a dizer que algo que aconteceu lá atrás e que estava sendo revelado poderia ser muito diferente da maneira como acontece hoje. Então isso não me incomoda tanto, acho eu.
Dr. Craig: Certo. Bem. Nosso tempo acabou e não quero ultrapassá-lo.
Bênção final
Então encerremos com uma bênção. E agora, que Deus Todo-Poderoso, onisciente, perfeitamente bom e onipresente, encha vocês com seu Espírito Santo para conhecerem e fazerem a vontade dele, e assim darem glória ao nosso Senhor Jesus Cristo, em cujo nome oramos. Amém.



