Resumo da equipe Fé Razoável, preparado com auxílio de IA
Craig distingue Adão literário de Adão histórico, verdade de verdade em uma história e uso ilustrativo de uso assertórico. Examina referências do Novo Testamento a Enoque, Janes e Jambres e à pedra que acompanhava Israel para mostrar por que a simples citação de uma narrativa não estabelece sua historicidade. A aula prepara a análise das passagens paulinas sobre Adão e termina com uma breve discussão com os alunos e uma oração.
Adão no Antigo e no Novo Testamento
Nos últimos meses, nós temos estudado a história primeva de Gênesis 1-11. Mas, é claro, há todo o restante das Escrituras que também precisamos considerar. Notavelmente, porém, apesar de toda a sua importância na teologia cristã, Adão quase não é mencionado no restante do Antigo Testamento fora da história primeva de Gênesis 1-11. Seu nome volta a aparecer no Antigo Testamento apenas em 1 Crônicas 1:1-24, no início de uma genealogia de Abraão que o autor simplesmente montou recortando e colando as genealogias de Gênesis 5 e 11. Na literatura judaica extracanônica, por outro lado, as narrativas de Adão e Eva são frequentemente empregadas para diferentes propósitos teológicos.
Estou falando aqui dos pseudepígrafos e apócrifos judaicos. Para lhes dar uma ideia da quantidade de literatura de que estamos falando, trouxe a edição em dois volumes de Charlesworth da literatura pseudepígrafa e apócrifa judaica, incluindo obras como 1 Enoque, 4 Esdras, Macabeus, A Sabedoria de Salomão, coisas desse tipo. Essa é uma literatura judaica intertestamentária que não está incluída no cânon do Antigo Testamento. Nessa literatura pseudepígrafa e apócrifa, vocês encontram Adão como uma figura teológica. Por exemplo, temos Adão como o homem moral paradigmático no livro de Sirácida e em Josefo. Temos Adão como modelo da observância fiel da Torá, da lei, no livro dos Jubileus.
Temos Adão como o pecador arquetípico no livro de 4 Esdras, Adão como a imagem do Logos divino em Fílon de Alexandria, e assim por diante. É digno de nota que, apesar dos vários usos teológicos dados a Adão e das várias interpretações teológicas a seu respeito, todos esses textos judaicos concordam em apresentar Adão como uma pessoa histórica, o primeiro ser humano a ser criado. Quando chegamos ao Novo Testamento, vemos a figura de Adão sendo amplamente empregada, sobretudo pelo apóstolo Paulo. Deixem-me ler para vocês os principais textos de Paulo a respeito de Adão. 1 Coríntios 15:21-22: “Visto que a morte veio por um homem, também por um homem veio a ressurreição dos mortos.
Porque, assim como, em Adão, todos morrem, assim também todos serão vivificados em Cristo.” Em 1 Coríntios 15:45-49, Paulo escreve: "Pois assim está escrito: 'O primeiro homem, Adão, se tornou um ser vivente.' Mas o último Adão é espírito vivificante. O que vem primeiro não é o espiritual, e sim o natural; depois vem o espiritual. O primeiro homem, formado do pó da terra, é terreno; o segundo homem é do céu. Como foi o homem terreno, assim também são os demais que são feitos do pó da terra; e, como é o homem celestial, assim também são os celestiais.
E, assim como trouxemos a imagem do homem terreno, traremos também a imagem do homem celestial." 2 Coríntios 11:3: "Temo que, assim como a serpente, com a sua astúcia, enganou Eva, assim também a mente de vocês seja corrompida e se afaste da simplicidade e pureza devidas a Cristo." E então a passagem mais importante, Romanos 5:12-21: "Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado veio a morte, assim também a morte passou a toda a humanidade, porque todos pecaram. Porque antes de a lei ser dada havia pecado no mundo, mas o pecado não é levado em conta quando não há lei.
No entanto, a morte reinou desde Adão até Moisés, mesmo sobre aqueles que não pecaram à semelhança da transgressão de Adão, o qual prefigurava aquele que havia de vir. Mas o dom gratuito não é como a ofensa. Porque, se muitos morreram pela ofensa de um só, muito mais a graça de Deus e o dom pela graça de um só homem, Jesus Cristo, foram abundantes sobre muitos! O dom, entretanto, não é como no caso em que somente um pecou. Porque o julgamento derivou de uma só ofensa, para a condenação; mas a graça deriva de muitas ofensas, para a justificação.
Se a morte reinou pela ofensa de um e por meio de um só, muito mais os que recebem a abundância da graça e o dom da justiça reinarão em vida por meio de um só, a saber, Jesus Cristo. Portanto, assim como, por uma só ofensa, veio o juízo sobre todos os seres humanos para condenação, assim também, por um só ato de justiça, veio a graça sobre todos para a justificação que dá vida. Porque, como, pela desobediência de um só homem, muitos se tornaram pecadores, assim também, por meio da obediência de um só, muitos se tornarão justos.
A lei veio para que aumentasse a ofensa. Mas onde aumentou o pecado, aumentou muito mais ainda a graça, a fim de que, como o pecado reinou pela morte, assim também a graça reinasse pela justiça que conduz à vida eterna, por meio de Jesus Cristo, nosso Senhor." Por fim, 1 Timóteo 2:12-14: "E não permito que a mulher ensine, nem que exerça autoridade sobre o homem; esteja, porém, em silêncio. Porque primeiro foi formado Adão, depois Eva. E Adão não foi iludido, mas a mulher, sendo enganada, caiu em transgressão." Sem dúvida, Sem dúvida, este é um conjunto muito impressionante de textos a respeito da figura de Adão, mas eles não devem ser tratados indiscriminadamente, para que não sejamos levados ao erro.
Adão literário e Adão histórico
Muitos estudiosos tentaram distinguir entre o que é chamado de Adão literário e o Adão histórico. Infelizmente, essa distinção nem sempre é traçada com clareza nem aplicada de forma consistente. O Adão literário é um personagem de uma história, especificamente das histórias de Gênesis 2-3. O Adão histórico é a pessoa que de fato existiu, o indivíduo real de quem, supostamente, as histórias tratam. Essa distinção entre o Adão literário e o Adão histórico implica uma distinção adicional entre verdade e verdade-em-uma-história. Uma afirmação S é verdadeira se, e somente se, S afirma aquilo que de fato é o caso.
Uma afirmação S é verdadeira-em-uma-história se, e somente se, estiver contida nessa história ou for implicada por ela. Assim, se eu disser, por exemplo, que Gilgamesh matou o Touro do Céu, minha afirmação, embora verdadeira-na-Epopeia de Gilgamesh, é falsa. Verdade-em-uma-história, porém, não exclui a verdade. Na Epopeia de Gilgamesh, há, ou estão implícitas, afirmações como “Gilgamesh foi um antigo rei sumério”, que são tanto verdadeiras-na-epopeia quanto verdadeiras. Assim, a questão relevante é se as passagens do Novo Testamento que li acima pretendem afirmar verdades ou meramente verdades-em-uma-história. Há alguma pergunta sobre essas distinções antes de prosseguirmos? Pois isso é fundamental.
Então, apenas para recapitular. O Adão literário é um personagem de uma história. O Adão histórico é a pessoa real, de carne e osso, que de fato viveu. Verdade-em-uma-história é uma afirmação estar na história ou ser implicada por uma afirmação da história, ao passo que verdade simplesmente afirma aquilo que de fato é o caso.
Uso ilustrativo e uso assertórico
Tendo essas distinções em mente, precisamos distinguir ainda entre um autor do Novo Testamento usar um texto de modo ilustrativo e o que chamarei de modo assertórico. Sei que essa é uma palavra feia, mas não consegui pensar em outra melhor para expressar o que quero dizer aqui. O uso ilustrativo de um texto e o uso assertórico de um texto. Usar um texto de modo ilustrativo é usá-lo meramente para fornecer uma ilustração, real ou imaginária, do ponto que o autor está tentando apresentar. Portanto, o uso ilustrativo de um texto é usá-lo para fornecer uma ilustração que pode ser real ou imaginária do ponto que o autor está tentando apresentar.
Esse uso ilustrativo de um texto não compromete quem o usa com a verdade do próprio texto, mas apenas com a verdade-em-um-texto. Assim, por exemplo, a mitologia grega, tão familiar para nós na cultura ocidental, é frequentemente uma fonte de ilustrações. Falamos, por exemplo, de algo ser um cavalo de Troia, ou de alguém ter um calcanhar de Aquiles, ou de alguém abrir uma caixa de Pandora, sem pensar que, com isso, estamos nos comprometendo com a realidade histórica dessas entidades míticas relevantes. Esse uso ilustrativo de um texto dá origem a uma distinção adicional entre aquilo em que a pessoa que cita um texto acredita e aquilo que essa pessoa afirma.
Talvez alguém que use a ilustração do cavalo de Troia acredite que tal instrumento de fato existiu e ajudou a mudar o rumo da Guerra de Troia; mas, estando certo ou errado, sua crença pessoal é irrelevante para o ponto que ele está tentando afirmar ou ensinar. Assim, um texto é usado assertoricamente, no sentido em que estou usando a palavra, somente quando quem o usa pretende ensinar a verdade daquilo que o texto diz, e não meramente a verdade-em-um-texto. Portanto, o uso assertórico de uma afirmação consiste em ensinar a verdade do texto, e não simplesmente a verdade-no-texto, e isso vale quer ele acredite que o texto seja verdadeiro, quer não acredite que seja verdadeiro.
Isso é bem diferente daquilo que ele está afirmando. Portanto, o uso ilustrativo de uma história consiste em usar uma história meramente para ilustrar um ponto e, como todos sabemos ao ouvir sermões de pregadores, muitas vezes as ilustrações são inventadas. Elas não tratam de coisas reais, mas não há problema nisso. Ainda assim, servem para ilustrar o ponto que o pregador está apresentando. Em contraste, se você está usando o texto assertoricamente, então está afirmando a verdade daquilo que está dizendo, e não importa se você acredita ou não na ilustração que está usando. Se você a está usando apenas de modo ilustrativo, então não está afirmando aquilo que a ilustração diz — ela está simplesmente servindo para ilustrar o ponto que você quer apresentar.
Eu faço essas distinções não para tentar escapar de compromissos por parte dos autores do Novo Testamento com o Adão histórico ou com a historicidade das histórias de Gênesis. Antes, essas distinções são importantes em nosso tratamento de muitas passagens do Novo Testamento que, se interpretadas assertoricamente, implicariam compromissos indesejados com entidades pseudepígrafas e mitológicas. Isso é muito mais importante do que apenas lidar com o Adão histórico ou com a história primeva. Como veremos, essas distinções são vitais para que não fiquemos comprometidos com entidades mitológicas e pseudepígrafas. Alguma dúvida sobre isso? Antes de eu dar alguns exemplos.
Judas, 2 Pedro e a tradição sobre Moisés
Vamos nos voltar para alguns textos fascinantes do Novo Testamento para dar exemplos desse ponto. Nos livros de Judas e 2 Pedro, encontramos exemplos do uso de textos literários extrabíblicos. Judas e 2 Pedro recorrem a esses textos literários não canônicos, e nesses livros encontramos uma ampla incorporação de material extrabíblico. Por exemplo, ao condenar os falsos mestres de sua época, Judas os contrasta com o arcanjo Miguel em sua disputa com o diabo pelo corpo de Moisés. Judas escreve nos versículos 9 e 10: "Contudo, nem mesmo o arcanjo Miguel, quando entrou em conflito com o diabo e discutia a respeito do corpo de Moisés, ousou pronunciar sentença difamatória contra ele.
Pelo contrário, disse: 'O Senhor repreenda você!' Esses, porém [os falsos mestres da época de Judas], quanto a tudo o que não entendem, difamam; e, quanto a tudo o que compreendem por instinto natural, como animais irracionais, até nessas coisas se corrompem." O problema aqui é que nenhum incidente como esse se encontra nas Escrituras do Antigo Testamento. Não há nada sobre uma disputa entre Miguel e o diabo pelo cadáver de Moisés. Mas, segundo Orígenes, um dos primeiros pais da Igreja, tal história se encontra no livro apócrifo judaico A Assunção de Moisés. Orígenes escreve: “No livro de Gênesis, a serpente é descrita como tendo seduzido Eva; a respeito dela, na obra intitulada A Ascensão de Moisés (um pequeno tratado, do qual o apóstolo Judas faz menção em sua Epístola), o arcanjo Miguel, ao disputar com o diabo acerca do corpo de Moisés, diz que a serpente, inspirada pelo diabo, foi a causa da transgressão de Adão e Eva.”
Isso vem da obra de Orígenes Sobre os Primeiros Princípios (3.2.1). Infelizmente para nós, a versão existente desse tratado, A Assunção de Moisés, é conhecida apenas por meio de um único manuscrito muito tardio e incompleto, que não inclui a história mencionada por Judas e Orígenes. Mas parece ter feito parte do folclore judaico, também conhecido pelo autor de 2 Pedro. Em 2 Pedro 2:10-11, ele diz: "Atrevidos, arrogantes, não temem difamar os gloriosos seres celestiais, ao passo que anjos, embora maiores em força e poder, não proferem contra essas autoridades sentença difamatória na presença do Senhor." Assim, temos aqui em Judas e 2 Pedro aparentes referências ao Moisés literário do livro A Assunção de Moisés, mas não ao Moisés literário de Gênesis.
Isso vem dessa obra apócrifa judaica.
Enoque e a historicidade
Mais uma vez, outro exemplo: depois de apresentar vários exemplos para ilustrar o perigo dos falsos mestres, Judas passa então a citar de fato 1 Enoque como se fosse autêntico. Em Judas, versículos 14 e 15, falando dos falsos mestres, Judas declara: "Foi a respeito deles que também profetizou Enoque, o sétimo depois de Adão, dizendo: 'Eis que o Senhor vem com milhares de seus santos, para exercer juízo contra todos e para convencer todos os ímpios a respeito de todas as obras ímpias que praticaram e a respeito de todas as palavras insolentes que ímpios pecadores proferiram contra ele.'” Esta é uma citação do texto grego de 1 Enoque 1:9, que diz: "Eis que ele virá com dez milhões dos santos para executar juízo sobre todos.
Ele destruirá os ímpios e censurará toda a carne por causa de tudo o que fizeram, daquilo que os pecadores e os ímpios cometeram contra ele." Judas cita o autor de 1 Enoque, que é um livro pseudepígrafo datado aproximadamente de 400 a 200 a.C., como se ele fosse idêntico ao Enoque da história primeva antediluviana, a sétima geração depois de Adão. Parece-me que esse texto é a reductio ad absurdum de argumentos excessivamente fáceis em favor da historicidade do Antigo Testamento com base na autoridade do Novo Testamento. Ao não distinguir entre o uso ilustrativo de um texto e o uso assertórico de um texto, aqueles que oferecem tais argumentos são levados a uma posição insustentável.
Isso é bem ilustrado pelo escritor Guy Waters. Waters escreve o seguinte: "Aqui Judas identifica 'Enoque' como descendente de Adão, na sétima geração a partir de Adão. Ele trata Enoque como uma figura histórica, que profere as profecias registradas nos versículos 14-15. O fato de Enoque ser identificado como 'o sétimo depois de Adão' não apenas confirma a historicidade de Enoque, mas também pressupõe a historicidade de Adão... Alguns argumentaram que Judas cita um livro que seus oponentes consideravam autoritativo, mas que Judas não considerava. Outros, de modo mais plausível, sugeriram que Judas considerava essas palavras uma declaração historicamente exata e autêntica do profeta Enoque, uma declaração que, na providência de Deus, foi preservada em 1 Enoque." Há duas alegações sendo feitas aqui na sugestão supostamente “mais plausível” de Waters.
A primeira é que Judas pessoalmente acreditava que as palavras citadas de 1 Enoque eram uma declaração historicamente exata e autêntica do Enoque antediluviano; e a segunda, que de fato, as palavras de Enoque foram, na providência de Deus, preservadas em 1 Enoque. A primeira dessas alegações é irrelevante, e a segunda é desesperada. Como vimos, um autor que usa um texto de modo ilustrativo pode ou não acreditar na factualidade da ilustração, e a utilidade da ilustração é independente da crença pessoal do autor. Portanto, se Judas está usando 1 Enoque de modo ilustrativo, como parece plausível, então suas crenças pessoais sobre a historicidade de Enoque são simplesmente irrelevantes.
A sugestão adicional de Waters de que uma tradição oral proveniente do Enoque antediluviano foi preservada ao longo de milhares de anos até chegar aos ouvidos do autor do pseudepígrafo 1 Enoque dificilmente pode ser considerada plausível. Se Judas está usando os exemplos de modo ilustrativo, e não assertórico, então provas excessivamente fáceis da historicidade das narrativas do Antigo Testamento fracassam. O fato de uma interpretação assertórica de Judas 14 nos obrigar a concluir que em 1 Enoque 1:9 ouvimos a voz autêntica do Enoque antediluviano é algo que, penso eu, deveria fazer qualquer teólogo do Novo Testamento refletir seriamente.
Janes, Jambres e a pedra no deserto
Outro exemplo fascinante vem de 2 Timóteo 3:8. Advertindo contra hipócritas religiosos, Paulo diz: “E do mesmo modo que Janes e Jambres resistiram a Moisés, também estes resistem à verdade. São homens que têm a mente totalmente corrompida, reprovados quanto à fé.” Novamente, essas figuras, Janes e Jambres, não aparecem no Antigo Testamento; mas são amplamente conhecidas no folclore judaico como os magos sem nome da corte do faraó que se opuseram a Moisés em Êxodo 7:11, 22, realizando milagres falsificados. A referência do Novo Testamento aqui em [2 Timóteo] se assemelha mais de perto ao relato apresentado no Targum Pseudo-Jônatas, uma obra judaica posterior.
O Targum Pseudo-Jônatas diz: “Então o faraó convocou os sábios e os feiticeiros; e Yanis e Yambris, os feiticeiros que estavam no Egito, também fizeram o mesmo com os encantamentos de suas adivinhações.” Isso vem do Targum Pseudo-Jônatas. Orígenes, o mesmo pai da Igreja mencionado antes, refere-se a um texto grego apócrifo chamado O Livro de Janes e Jambres, e existem fragmentos etíopes e gregos dessa obra. As tradições por trás dessa obra talvez fossem conhecidas na comunidade essênia de Qumran, porque são mencionadas nos Manuscritos do Mar Morto. No chamado Documento de Damasco, entre os Manuscritos do Mar Morto, encontramos o seguinte: “Moisés e Arão ainda continuavam em sua função... ainda que Belial [isto é, Satanás], em sua astúcia, tivesse colocado Janes e seu irmão em oposição a eles” (5.17-19).
Uma desconcertante variedade de tradições contraditórias a respeito de Janes e Jambres surgiu dentro do judaísmo. Nas tradições que empregam os nomes hebraicos da dupla, que são presumivelmente mais primitivas, não há disputa de mágicos com Moisés. Em vez disso, eles simplesmente discutem com Moisés e depois acompanham o exército do faraó na perseguição aos israelitas. Então voam magicamente sobre o mar Vermelho e por fim são mortos por Deus ou por Moisés. Em contraste, nas tradições que apresentam seus nomes gregos, retransliterados para o hebraico, vemos que a dupla serve na corte do faraó, perde para Moisés numa disputa de mágicos, como resultado se converte ao judaísmo e depois vai para o deserto com os israelitas!
O estudioso do Novo Testamento Koji Osawa diz a respeito dessas figuras: "Elas passaram a ser vistas como exemplos de pessoas más no judaísmo, de modo que seus nomes passaram a ser usados em diversas situações, sem restrição de tempo ou lugar. Isto é, aqueles que registraram as tradições judaicas incluíram Janes e Jambres em histórias de qualquer época para retratar alguém como uma pessoa má no judaísmo, comparando essa pessoa a Janes e Jambres e assim enfatizando a pecaminosidade daqueles que se opõem a Deus." Portanto, penso que seria muito imprudente supor que, ao recorrer a essas figuras bem conhecidas para ilustrar a religião corrompida, Paulo pretende afirmar a historicidade dessas duas figuras literárias (seja qual for sua crença pessoal).
Por fim, um último exemplo é a alusão de Paulo em 1 Coríntios 10:4 à Pedra que acompanhava os antigos israelitas em suas peregrinações pelo deserto. Paulo escreve: “Todos beberam da mesma bebida espiritual. Porque bebiam de uma pedra espiritual que os seguia; e a pedra era Cristo.” Os comentaristas geralmente veem aqui uma referência a uma lenda judaica baseada em Números 21:16-18, a respeito de um poço milagroso que tinha a forma de uma rocha e que acompanhava continuamente Israel, fornecendo-lhe água fresca no deserto. Essa lenda, que depois floresceu no judaísmo rabínico posterior, está documentada já no tratado do primeiro século chamado Antiguidades Bíblicas, do pseudo-Fílon.
Antiguidades Bíblicas afirma: "Quanto ao seu próprio povo, ele os conduziu ao deserto: por quarenta anos fez chover pão do céu para eles, e lhes trouxe codornizes do mar, e fez surgir para eles um poço de água que os seguia... a água de Mara foi tornada doce e os seguiu no deserto por quarenta anos (10.7; 11.15)." Assim, a tradição, de alguma forma, sem dúvida remonta ao período pré-cristão, e Paulo retoma essa tradição extracanônica para identificar a Pedra como Cristo, que sustentou Israel durante toda a sua permanência no deserto. Com base nesses exemplos, penso que podemos ver como é ingênuo argumentar que, só porque algum autor do Novo Testamento se refere a uma figura literária, encontrada no Antigo Testamento ou fora dele, então essa figura é afirmada como uma pessoa histórica, muito menos que realmente seja uma pessoa histórica.
Precisamos prestar muita atenção ao contexto para determinar se o autor do Novo Testamento não apenas acredita na historicidade da pessoa mencionada, mas afirma sua historicidade, em vez de apenas usar a figura de modo ilustrativo. Novamente, usar uma figura de modo ilustrativo não implica que a figura não seja histórica; isso apenas interrompe provas excessivamente fáceis de historicidade.
Discussão e oração
Agora, há algum comentário ou pergunta sobre esse ponto neste último minuto, mais ou menos? Duran.
Aluno: Então o senhor diria que seria prudente, nos casos da menção a Enoque em Judas e a Janes e Jambres, permanecer, por falta de palavra melhor, agnóstico quanto a esses detalhes ao tentar decidir apenas se são ilustrativos ou históricos, na ausência de outros dados? Acho que isso seria mais difícil com Adão nas passagens sobre Adão, mas especificamente com essas menções menores.
Dr. Craig: Eu diria que você precisa ser agnóstico a respeito disso simplesmente olhando para o texto de Judas. Mas, quando você considera a fonte da citação de Judas (a saber, 1 Enoque), a ideia de que isso seja uma declaração autêntica e histórica do Enoque anterior ao Dilúvio, que de algum modo foi transmitida e preservada, é absurda. Assim, com base nisso, eu diria que não apenas devemos ser agnósticos, mas devemos dizer que isso não é uma referência à pessoa histórica.
Aluno: O que eu também quis dizer é considerando igualmente a fonte, mas, se entendemos a Bíblia como divinamente inspirada, então talvez — talvez — esse único detalhe indique algo que foi historicamente verdadeiro. E, mesmo que não possamos confirmar isso propriamente, esses detalhes não parecem contradizer nenhum outro detalhe que temos a respeito de Enoque. O mesmo vale para o detalhe sobre os arcanjos.
Dr. Craig: Não acho que o autor do Novo Testamento citaria algo que estivesse em contradição com o Antigo Testamento. Mas, assim como posso citar ficção ou outros tipos de histórias para ilustrar um ponto, penso que os autores do Novo Testamento, sob inspiração divina, podem fazer a mesma coisa. Eles podem citar essas ilustrações do folclore e do mito judaicos sem com isso se comprometer com a historicidade dessas coisas.
Aluno: Bem, é claro, eu concordaria.
Dr. Craig: Nosso tempo acabou, então preciso encerrar. Vamos então encerrar com uma palavra de oração. Pai, obrigado por este tempo que passamos juntos nesta manhã. E, enquanto lidamos com essas passagens difíceis, oramos para que nos ajudes a pensar com clareza a respeito delas e sobre a interpretação adequada da tua palavra, e então como isso se aplicará às referências do Novo Testamento a Adão. E agora entregamos a ti a semana que se inicia e oramos para que nos guies durante ela. Em nome de Jesus, amém.



