Excurso sobre a Criação da Vida e a Diversidade Biológica (Parte 20): Por Que Pensar que Gênesis 1-11 é Mito-História?

William Lane Craig · Seção 09 / Aula 20 ·

Resumo da equipe Fé Razoável, preparado com auxílio de IA

Craig aplica a análise do gênero mito-histórico às narrativas da criação, de Adão e Eva e da Queda. Ele apresenta como indícios de linguagem figurada os dias da criação, as descrições antropomórficas de Deus, a ausência de chuva, as árvores do jardim, a serpente e os querubins. O argumento procura reconstruir como o próprio autor antigo poderia compreender essas imagens, sem depender exclusivamente de objeções da ciência moderna.

Grande parte da aula consiste no debate com os alunos sobre teofania, serpente e Satanás, interpretação dos querubins, chuva e revelação progressiva. Craig reafirma Deus como autor último de Gênesis e responde afirmativamente à pergunta sobre um Adão e uma Eva históricos. Sua proposta distingue a existência de pessoas e acontecimentos do passado da possibilidade de as histórias serem narradas em linguagem metafórica.

Aplicação da análise de gênero a Gênesis

Com base no caráter metafórico, na plasticidade e na flexibilidade dos mitos, vimos, tanto por estudos antropológicos quanto pela literatura do Antigo Oriente Próximo, que os mitos nem sempre são mais bem interpretados de modo literalista. Agora queremos aplicar essas percepções a Gênesis 1-11. Quando consideramos as narrativas bíblicas que estão no centro do nosso estudo, a saber, a criação do mundo no capítulo 1 e a origem e a Queda de Adão e Eva nos capítulos 2 e 3, parece-me, então, que uma interpretação não literal dessas narrativas é muito plausível. Em primeiro lugar está a criação do mundo em seis dias consecutivos de 24 horas — uma descrição que não exige conhecimento da ciência moderna para ser reconhecida como metafórica. Já vimos, em nossas lições anteriores, razões para interpretar os seis dias de modo não literal. Em seguida, há a divindade humanoide que aparece nos capítulos 2 e 3, em contraste com o Criador transcendente dos céus e da Terra no capítulo 1.

A natureza antropomórfica de Deus, que é apenas insinuada no capítulo 2, torna-se incontornável no capítulo 3, onde Deus é descrito andando pelo jardim ao soprar a brisa do dia e chamando em voz audível Adão, que está escondido dele. Gênesis 3:8-9 afirma: “Ao ouvirem a voz do SENHOR Deus, que andava no jardim quando soprava o vento suave da tarde, o homem e a sua mulher se esconderam da presença do SENHOR Deus, entre as árvores do jardim. E o SENHOR Deus chamou o homem e lhe perguntou: ‘Onde você está?’” Lido à luz de Gênesis 3, o ato de Deus criar Adão em Gênesis 2 também assume um caráter antropomórfico. Aqui Deus é retratado (como a deusa mesopotâmica Nintur, moldando pedaços de barro em um ser humano, ou o deus egípcio Khnum, sentado à roda de oleiro, formando o homem) como alguém que molda o homem do pó da terra e depois sopra em suas narinas o fôlego de vida, para que a figura de barro ganhe vida. Não nos é dito se Deus formou os animais de modo semelhante quando: “Havendo, pois, o SENHOR Deus formado da terra todos os animais do campo e todas as aves dos céus...” (Gênesis 2:19), mas não podemos deixar de nos perguntar se eles não foram formados da mesma maneira que o homem.

Quando Deus tira uma das costelas de Adão adormecido, fecha o lugar com carne e, a partir dela, forma uma mulher, a história soa como uma cirurgia física que Deus realiza em Adão, seguida da formação de uma mulher a partir da parte do corpo extraída. De modo semelhante, dada a presença corpórea de Deus no jardim, as conversas entre Deus e os protagonistas da história da Queda — a saber, Adão, Eva e a serpente — parecem um diálogo entre pessoas fisicamente presentes umas diante das outras. O fato de Deus fazer roupas de peles de animais para Adão e Eva e expulsá-los do jardim volta a soar como atos físicos da divindade humanoide. Dada a natureza exaltada e transcendente de Deus descrita no relato da criação, o autor do Pentateuco não poderia ter pretendido que essas descrições antropomórficas fossem entendidas literalmente. Elas pertencem à linguagem figurada do mito.

Elementos fantásticos e linguagem figurada

Além disso, muitas características dessas histórias são fantásticas. Isto é, são manifestamente falsas, se entendidas literalmente. Portanto, estou usando aqui a palavra “fantástico” com precisão técnica. Dizer que algo é fantástico significa que é manifestamente falso, se entendido literalmente. Estou falando aqui de aspectos da narrativa que o próprio autor plausivelmente teria considerado fantásticos. Por exemplo, o capítulo 2 começa dizendo que, quando Deus criou o homem, nunca havia chovido sobre a Terra. Ora, isso parece fantástico. Os antigos israelitas compreendiam o ciclo da água, como é amplamente atestado em todo o Antigo Testamento. À luz da afirmação do capítulo 1 de que Deus havia separado as águas de cima das águas de baixo, é difícil acreditar que o autor pensasse que alguma vez houve um período na história da Terra em que ela fosse totalmente desprovida de chuva. Assim como as águas de baixo assumiram a forma de mares, rios e fontes, as águas de cima assumiram a forma de chuva. Portanto, uma Terra repleta de mares, rios e fontes (como Gênesis 2 descreve), mas sem chuva, parece fantástica até para um antigo israelita, dado seu conhecimento do ciclo da água.

Depois, há a descrição do jardim do Éden, com sua árvore da vida e a árvore do conhecimento do bem e do mal. Esses elementos são plausivelmente simbólicos. A ideia de um arboreto contendo árvores cujo fruto, se comido, conferiria imortalidade ou produziria um conhecimento moral súbito do bem e do mal deve ter parecido fantástica ao autor do Pentateuco. Tenham em mente que não estamos tratando de um fruto milagroso, como se Deus, por ocasião de alguém comê-lo, concedesse imortalidade ou conhecimento sobrenatural do bem e do mal a quem o comesse, pois isso contrariava sua vontade. Diz-se que o fruto produz seu efeito até mesmo contra a vontade de Deus. O jardim do Éden pode ter descrito um local geográfico real (plausivelmente o oásis do golfo Pérsico), mas, como o monte Olimpo na mitologia grega, esse lugar pode ter sido usado para contar uma história mitológica sobre o que aconteceu ali. Depois, há a notória serpente que anda e fala no jardim. Ora, ela é uma excelente personagem da história — maquinadora, sinistra, oposta a Deus, talvez um símbolo do mal —, mas não é plausível que fosse um réptil literal, como um que vocês poderiam encontrar no jardim de casa.

Pois o autor do Pentateuco sabia que serpentes não falam nem são agentes inteligentes. Mais uma vez, a personalidade e a fala da serpente não podem, como no caso da jumenta de Balaão, ser atribuídas à atividade milagrosa da parte de Deus, pois isso faria de Deus o autor da Queda. A serpente não é identificada como uma encarnação de Satanás. Em vez disso, ela é descrita simplesmente como o mais astuto dos animais selvagens que o SENHOR Deus havia feito — descrição incompatível com o fato de ela ser Satanás. Quando Deus finalmente expulsa o homem e sua mulher do jardim do Éden, ele “colocou querubins a leste do jardim do Éden e uma espada flamejante que se movia em todas as direções, para guardar o caminho da árvore da vida” (Gênesis 3:24). O que torna esse detalhe fantástico é que os querubins não eram considerados seres reais, mas fantasias compostas do corpo de um leão, asas de ave e cabeça humana.

O comentarista judeu Nahum Sarna, em seu comentário sobre o livro de Gênesis, observa que o motivo de figuras compostas de humano, animal e ave era difundido, sob várias formas, por todo o Antigo Oriente Próximo, e considera que ele se destacava tanto na arte quanto no simbolismo religioso, e que os querubins bíblicos parecem estar ligados a essa tradição artística. Os querubins exerciam múltiplas funções na tradição bíblica, como simbolizar a presença ou a soberania de Deus. Representações artísticas de tais criaturas eram encontradas no tabernáculo e no templo, inclusive no Santo dos Santos. Sarna destaca que eles são a única representação pictórica permitida no judaísmo, uma religião, em outros aspectos, contrária a ícones. Eles não violam a proibição de imagens porque são “produtos puramente da imaginação humana” e, portanto, “não representam nenhuma realidade existente no céu e na terra”. Assim, imagens deles podiam ser feitas no antigo Israel sem infringir o segundo mandamento, que proibia imagens das coisas do céu, pois os querubins não eram reais.

E, no entanto, aqui em Gênesis 3, eles são postos como guardas em um tempo e lugar da história (junto com uma espada giratória e flamejante), para proteger, por um período indeterminado, o jardim do Éden contra a reentrada do homem. Como os querubins eram considerados criaturas de fantasia e símbolo, não é como se o autor pensasse — como o realismo exigiria — que os querubins permanecessem à entrada do jardim durante anos a fio, até que ele fosse tomado pelo mato ou varrido pelo Dilúvio. Portanto, há vários elementos nessas narrativas que, creio eu, se interpretados literalmente, seriam manifestamente falsos, o que fornece bons fundamentos para pensar que elas devem, de fato, ser entendidas como discurso figurado ou metafórico. Alguma pergunta sobre esse ponto até aqui? Eric.

Objeções sobre teofania, serpente e querubins

Aluno: Estou um pouco confuso quanto ao motivo de Deus assumir forma antropomórfica no jardim ser algo impensável, considerando que ele faz a mesma coisa com Abraão pouco antes da queda de Sodoma e Gomorra. Dr. Craig: Sim, certo. Ali se fala do Anjo do SENHOR aparecendo a Abraão.[1] Certo? Mas aqui [no relato do jardim, Gênesis 3] não há nenhuma identificação desse tipo. Seria preciso pensar que foi isso que aconteceu: que houve algum tipo de encarnação. E suponho que isso não esteja contemplado no texto. Parece-me mais plausível interpretá-lo metaforicamente. Aluno: Na mesma linha, quanto aos anjos e talvez a Satanás como a serpente, isto pode parecer estranho, mas um dos meus interesses originais na área da apologética dizia respeito a assuntos paranormais: ouvir histórias de fantasmas, demônios e poltergeists, e isso veio de assistir a filmes demais. Mas o que descobri, quanto mais histórias ouvia, é que me parece que uma das capacidades que os demônios especialmente apreciam e talvez à qual se faça referência mais adiante em Gênesis, quando ultrapassam seus limites, é a capacidade de possuir seres vivos.

Sabemos que, ou pelo menos pelas histórias que pessoas do mundo inteiro contam, eles não possuem apenas pessoas, mas também animais. Assim como podem falar por meio de pessoas — como Legião falou diretamente com Jesus —, os demônios também podem falar por meio de animais, se assim escolherem. Também gostaria de destacar que não há nenhum detalhe no capítulo original dizendo que a serpente alguma vez teve pernas e andava. Deus apenas a amaldiçoa para que rasteje sobre o ventre. Dr. Craig: Sim, certo. Aluno: Mas fico pensando que, pela minha experiência, não me parece implausível que a serpente pudesse falar com Adão e Eva. Talvez eles achassem isso estranho - esse detalhe não nos é dado - mas não parece implausível diante das outras coisas que nos são ditas sobre anjos. E, quanto aos querubins... Dr. Craig: Bem, espere. Vamos tratar de uma coisa de cada vez. A pergunta é: É plausível interpretar isso como algum tipo de fenômeno paranormal? Acho que, nesse caso, você está introduzindo no texto noções modernas provenientes da sua própria experiência com fenômenos paranormais e coisas assim, em vez de considerar como isso teria sido entendido naquela época.

A serpente não é descrita como algum tipo de ser demoníaco, muito menos Satanás, algum deus ou coisa parecida. Ela é apenas o mais astuto dos animais selvagens que o SENHOR Deus fez. E, embora eu ache que a serpente possa ser um símbolo do mal, ainda assim o símbolo é o de um animal comum. Ela é apenas um dos animais selvagens ou animais do campo que Deus fez. Acho que essa é uma maneira mais plausível de entendê-la do que introduzir no texto esses fenômenos paranormais. Aluno: É absolutamente necessário que o autor de Gênesis exponha desde o começo e identifique a serpente como Satanás? Ou, se entendemos que Gênesis foi escrito no mesmo período, com a mesma compreensão cultural que, digamos, o livro de Jó, em que Satanás é claramente identificado como um ser que faz coisas muito específicas, então por que a serpente precisaria ser identificada especificamente como Satanás, se poderíamos inferir isso com bastante segurança? Dr. Craig: Mais uma vez, é a maneira positiva como a serpente é descrita, a meu ver, que nos faz hesitar.

Não é apenas a ausência de uma descrição da serpente como satânica ou demoníaca, mas a maneira como ela é descrita em termos puramente naturais, como um dos animais selvagens que Deus fez, e, de fato, o mais astuto entre eles, o que não seria compatível com o fato de ela ser algum tipo de demônio ou Satanás. Agora, você queria dizer algo sobre os querubins. Por que não diz o que queria dizer sobre isso? Aluno: Se alguém visse uma serpente falando, diria que provavelmente não era uma serpente comum, mas enfim. Quanto aos querubins, pelo que entendo, essas descrições que o senhor citou dos querubins, que vêm sobretudo dos profetas maiores — coisas com cabeça de leão, asas, corpo de homem e tudo mais —, para mim, essas visões proféticas são os elementos figurados que têm significado simbólico, enquanto, em relatos mais históricos e narrativos sobre anjos, eles parecem aparecer como pessoas. Dr. Craig: Deixe-me dar algumas referências. Eu as omiti porque não queria sobrecarregar a lição com muitas referências bíblicas. Lembrem-se de que eu disse que os querubins são representados no tabernáculo e no templo, até no próprio Santo dos Santos.

Portanto, isso não é literatura profética tardia. Trata-se de Êxodo 25:18-22 e Êxodo 26:31, e também de 1 Reis 6:23-29. Dada a proibição, em Israel, de imagens de qualquer coisa no céu e na Terra que fossem usadas no culto, é muito peculiar que houvesse estatuetas desses seres representadas no culto israelita, a menos que, como diz Sarna, a razão seja que elas não representam nada real e, portanto, não violariam o segundo mandamento contra imagens. Aluno: Quanto ao ponto sobre a serpente, eu estava pensando: se você vai interpretar isso de modo literalista, não terá também de se comprometer com a ideia de que os antigos israelitas acreditavam que as serpentes eram as mais astutas de todas as criaturas? Certamente eles provavelmente tinham uma compreensão dos animais melhor do que essa. Estou pensando em Jesus dizer que o grão de mostarda era a menor de todas as sementes. É claro que, ao fazer essa afirmação, ele não está tentando estabelecer um ponto literal sobre o grão de mostarda ser a menor de todas as sementes, mas está apresentando um ponto predominante ou geral a respeito do Reino de Deus.

Então penso que talvez, quanto à serpente, isso seja uma indicação de que não se trata... Dr. Craig: Sim. Acho que o ponto é bom. Eu não havia pensado nisso antes. Mas entendo o ponto que você está levantando, e valeria a pena examiná-lo. Quando se observam as serpentes no Antigo Oriente Próximo, elas são usadas como símbolos de uma ampla variedade de coisas, tanto boas quanto más. As serpentes podiam ser adoradas no Egito, mas também podiam representar o mal, poderes sinistros e coisas assim. Portanto, podiam ser consideradas astutas, perversas e assim por diante, mas você levanta um bom ponto quanto a se até mesmo essa afirmação não deveria ser entendida literalmente, mas apenas como parte da história. Aluno: Por onde vou começar? Vou começar pelas serpentes, já que estamos falando delas, mas seria preciso descartar grande parte do Novo Testamento, que identifica Satanás como atuando por meio da serpente. A própria serpente poderia ser... O texto diz que ela era a mais astuta de todas as criaturas.

Deus poderia estar atribuindo o estilo de seus movimentos e o modo como ela se esconde como algo que, enquanto instrumento, Satanás usaria para se aproximar de Eva, por causa da sutileza dos movimentos e assim por diante, não necessariamente por algo relacionado à própria serpente, mas por ser algo que Satanás usou. Mas, se o senhor falar de outras coisas, como os rios e assim por diante... Dr. Craig: Vamos uma coisa de cada vez. Quanto à serpente, a palavra ali traduzida como “astuta” ou “sagaz” é definitivamente uma propriedade mental. Isso não atribui à serpente apenas movimentos rastejantes em sentido físico. Isso atribui à serpente a propriedade mental de ser astuta, sagaz ou inteligente. Portanto, a serpente é claramente personificada como agente e fala. Assim, não acho que possamos atribuir esse adjetivo apenas aos movimentos de seu corpo. Agora, você queria dizer algo sobre ter chovido na Terra antes da criação do homem. Aluno: Só para concluir sobre a serpente, então o senhor diria que Satanás usou as sutilezas do físico para realizar coisas espirituais. Mas seria preciso negar grande parte do Novo Testamento, que fala da serpente enganando Eva no jardim.

Dr. Craig: Bem, isso é interessante. Há uma passagem, creio eu, em Coríntios, em que Paulo diz: “Temo que, assim como a serpente, com a sua astúcia, enganou Eva, assim também a mente de vocês seja corrompida.” Ele não diz: “assim como Satanás enganou Eva”. Diz: “a serpente”. Portanto, ele simplesmente cita a história da serpente no jardim e não diz explicitamente que era Satanás. Eu quase gostaria que ele tivesse dito, pois assim ficaria claro, mas ele apenas cita essa história sobre a serpente.

Chuva, dor e o relato da formação de Eva

Aluno: Há outras coisas em Apocalipse. Eu teria de examinar a concordância exaustivamente para ver quais referências à serpente existem. Mas, quanto à água, se você subir ao monte Hermom, onde Jesus disse a Pedro que as portas do inferno não prevaleceriam contra a igreja, há água que jorra do lugar que os pagãos chamam de portas do inferno e se torna um rio. Temos a mesma coisa, por exemplo, em Bennett Springs, no Missouri: um rio subterrâneo vem à superfície e se torna um enorme rio e corpo d’água. Portanto, isso não parece absurdo. E, quanto aos querubins... Dr. Craig: Bem, agora espere. Vamos com calma. Só porque existem fontes e aquíferos subterrâneos, o que Gênesis afirma — Gênesis 2 diz que uma fonte ou algo assim brotava da terra para regá-la —, isso não significa que seja plausível concluir que não havia chuva. Quero dizer, eles compreendiam o ciclo de evaporação, formação das nuvens e queda da chuva. É plausível que as águas de cima se referissem à chuva. Portanto, o simples fato de certamente existirem rios e fontes subterrâneos e coisas assim não torna plausível, a meu ver, que a Terra fosse totalmente desprovida de chuva e nuvens.

Aluno: Bem, também não acho que Gênesis diga especificamente que não havia chuva, mas que havia ocasiões em que essa água vinha do solo e se tornava... Dr. Craig: Sim, e é exatamente isso que estou questionando. Estou dizendo que esse detalhe da narrativa é fantástico, e creio que o autor antigo o teria considerado assim, dada sua compreensão do ciclo da água. Aluno: Mais uma coisa. Quanto à dor. Eu estava ouvindo um sermão sobre se havia dor antes da Queda. Isso se relaciona à retirada da costela, porque há duas referências depois da Queda. Deus diz: “Aumentarei em muito os seus sofrimentos na gravidez” — não que você não tivesse nenhum, mas eu os aumentaria. E a outra coisa seria: se ele fez Adão dormir para retirar alguma parte de seu DNA, e vamos chamá-la de costela ou seja o que for, algo que, no sentido moderno, poderia ser feito com clonagem, mas ele fechou o lado e pôs Adão em sono profundo. Então, se não houvesse de fato a possibilidade de dor, ou se Adão não sentisse dor, ele não teria precisado fazê-lo dormir para tirar algo de seu lado... colocá-lo em sono profundo para tirar algo de seu lado a fim de fazer Eva. Dr. Craig: Sim, acho que isso está absolutamente certo.

E esse não era o ponto que eu estava tentando defender. Meu ponto sobre a formação de Eva a partir de Adão era que, quando se lê isso no contexto dessa divindade humanoide andando pelo jardim ao soprar a brisa, procurando Adão, com Adão e Eva escondidos entre as árvores e assim por diante, a cirurgia realizada em Adão soa muito como uma operação física feita por esse Deus: ele o coloca sob anestesia geral, por assim dizer, para que não sinta nada, abre-o, retira a costela ou alguma parte do corpo, fecha novamente a incisão e então forma uma mulher a partir dessa costela. Isso soa como uma operação física em andamento. Para dizer que não é, seria preciso imaginar que Deus não está fisicamente presente ali, Adão adormece, uma incisão se abre em seu lado, uma costela flutua no ar e depois se transforma em uma mulher. Porque, lembrem-se, Deus é imaterial; ele é transcendente. Portanto, essa não seria, a meu ver, uma interpretação plausível da passagem.

Quando se lê no contexto do jardim, Deus andando pelo jardim, conversando fisicamente com pessoas, parece que a formação de Eva também é um ato físico, o que exigirá ou, como alguém mencionou antes, que Deus se encarne no capítulo 2, ou então que isso seja apenas linguagem figurada.

Inspiração, Adão e Eva e revelação progressiva

Aluno: Tenho um comentário rápido e depois duas perguntas de esclarecimento. Não ouvi muitas pessoas terem dificuldade em considerar isso uma teofania em Gênesis. Quero dizer, as pessoas dizem que Jesus apareceu como teofania várias vezes ao longo do Antigo Testamento: dentro da fornalha com Sadraque, Mesaque e Abede-Nego, e quando ele foi dizer que Isaque não deveria ser sacrificado. Parece que a maneira que faria mais sentido para ele interagir com Adão e Eva seria como uma teofania, assim como em outras partes do Antigo Testamento. Eu simplesmente não vi problema nisso. Quanto à serpente ser Satanás, parece que a maldição lançada sobre a serpente — quero dizer, qualquer interpretação que já ouvi dessa maldição a entende como uma maldição contra Satanás, quando diz: “Porei inimizade entre você e a mulher, entre a sua descendência e o descendente dela. ” Isso seria uma referência à luta contínua contra Satanás ao longo de todas as gerações, até Jesus, e à linhagem que conduz a Jesus. Parece apenas que a maldição lançada contra a serpente teria de ser contra Satanás, com base no conteúdo da maldição.

Dr. Craig: Bem, leia a maldição inteira contra a serpente, começando no versículo 14. “Por causa do que você fez, você é maldita entre todos os animais domésticos e entre todos os animais selvagens.” Foi assim que ela foi descrita. Certo? A mais astuta dos animais selvagens. “Você rastejará sobre o seu ventre e comerá pó todos os dias da sua vida.” Isso soa como uma explicação etiológica de por que as serpentes rastejam no chão: porque Deus as amaldiçoou. E então, você tem razão: “Porei inimizade entre você e a mulher, entre a sua descendência e o descendente dela; este lhe ferirá a cabeça, e você lhe ferirá o calcanhar.” Os comentaristas do Antigo Testamento divergem quanto ao significado disso. Tomado literalmente, descreve inimizade entre serpentes e seres humanos e o ato de pisar em uma para esmagar-lhe a cabeça e matá-la. Se você o toma literalmente, isso está claramente falando de uma espécie de serpente. Neste caso, na verdade, é a pessoa que quer entendê-la como Satanás quem a interpreta de modo mais figurado e metafórico, dizendo que se refere a Satanás. Estou aberto a isso — a que possa ser esse o sentido, especialmente se a serpente for símbolo de algo assim.

Aluno: Suponho que, se Satanás entrou na serpente, tomou conta dela, possuiu-a ou algo assim, não vejo problema em a maldição ser dirigida tanto à serpente em que ele entrou quanto ao próprio Satanás. Dr. Craig: Então, aos dois? Aluno: Sim. Mas, enfim, minha pergunta de esclarecimento é: Sei que, nas últimas semanas, o senhor traçou um paralelo entre as histórias de origem de outras culturas antigas e a história de origem de Gênesis. Então meu ponto de esclarecimento é: o senhor acredita que a história hebraica das origens veio do próprio Deus, ou acredita que os hebreus precisavam de uma história das origens e, por isso, também a inventaram? Porque, se acredita que eles simplesmente a inventaram, então ela não parece ser melhor do que a história de qualquer outra cultura antiga. Mas, se acredita que eles não a inventaram e que ela veio de Deus, então parece que o paralelo só vai até certo ponto, porque é preciso considerar a fonte. Em um caso, as pessoas têm de inventar tudo do zero... Dr. Craig: Isso se relaciona a uma pergunta levantada anteriormente.

Na compreensão cristã ortodoxa da inspiração, o autor de Gênesis — compreensão que obviamente afirmei em nossa aula — é, em última análise, Deus. A pergunta, então, é: Deus pode usar formas literárias, gêneros literários, que não sejam literais? E a resposta é comprovadamente sim! Basta ler os Salmos e ver poesia, ou ler o livro de Apocalipse. Há uma comparação interessante entre o primeiro livro e o último livro da Bíblia. O último livro da Bíblia é literatura apocalíptica judaica, repleta de imagens. Quando fala da besta que se rebelará contra Deus, não quer dizer algo como em A Bela e a Fera, da Disney: algum tipo de criatura semelhante a um animal. Isso é símbolo de algum líder político. Certo? E esses monstros de várias cabeças que saem do mar e tentam dominar a Terra representam Estados-nação, alianças e assim por diante. Portanto, é claro que Deus usa diferentes gêneros literários para comunicar sua verdade. O que estou pedindo é que considerem a possibilidade de que os primeiros onze capítulos de Gênesis pertençam a esse gênero literário chamado mito-história, que não exige uma interpretação literal, assim como, por exemplo, o livro de Apocalipse.

Mas, obviamente, estou afirmando que Deus é o autor dessa história. Aluno: Sei que o senhor traçou um paralelo com Apocalipse, mas a literatura e a linguagem apocalípticas constituem um gênero muito próprio; na verdade, o texto até diz especificamente que o dragão que sai do mar é Satanás ou o diabo[2]. Quero dizer, não é preciso chegar a essa conclusão por conta própria. O próprio versículo diz que isso representa Satanás ou o diabo. A leitura é completamente diferente. Mas, certo, meu último esclarecimento. O senhor acredita pessoalmente que houve um Adão e uma Eva literais, progenitores de toda a raça humana? Acredita que houve um Adão e uma Eva literais? Dr. Craig: Sim. Como eu disse, isso (Gn 1-11) não é mitologia pura. É mito-história. Assim, as genealogias pretendem mostrar que essas são narrativas ou histórias sobre pessoas que realmente viveram e realizaram feitos. Mas estou sugerindo que essas histórias podem ter sido contadas em linguagem metafórica e figurada, que não deveria ser interpretada de modo literalista, e dei vários exemplos disso nesta manhã. Aluno: A respeito da serpente.

Eu estava tentando dizer que, se Deus tentou comunicar conosco sobre um fenômeno espiritual, como, digamos, Jesus sendo batizado pelo Espírito Santo, que parecia uma pomba — embora, obviamente, o Espírito Santo não seja uma pomba, mas tenha parecido assim —, neste caso, trata-se de uma comunicação em que, creio, a mensagem principal de comer aquele fruto é que a consciência humana deixou de estar de acordo com Deus, e por isso se trata do conhecimento do bem e do mal, em vez de o bem e o mal serem definidos segundo a definição de Deus. Começamos a defini-los a partir de nossa própria perspectiva egoísta. Portanto, essa história transmite que, quando a consciência humana se afasta de Deus, não há salvação, porque somos guiados por nossa consciência, exceto quando uma nova consciência vem em Jesus Cristo e substitui a nossa. Não sei de que outra forma Gênesis poderia retratar essa ideia senão pelo que foi dito ali em Gênesis: o fruto do conhecimento do bem e do mal. Outra coisa interessante é que a escrita chinesa conservou muitas dessas histórias em seus radicais linguísticos. O pronome “isso” deriva de “serpente”.

Assim, no princípio, se descreviam você, eu ou isso, esse “isso” era uma serpente. Achei isso interessante. Dr. Craig: Certo, obrigado. Aluno: Não estamos hermeneuticamente obrigados a considerar a autoridade apostólica do Novo Testamento e voltar para obter os significados do Antigo Testamento? Porque sou muito favorável ao que o senhor está dizendo sobre o gênero literário e sobre todas essas culturas do Antigo Oriente Próximo com suas teorias, mas, se tomarmos, por exemplo, Isaías e observarmos o que Jesus ou os autores do Novo Testamento dizem a respeito, eles não achavam que era isso que Isaías queria dizer. Em Mateus: “Do Egito chamei o meu Filho.”[3] Quando ele disse isso, não achavam que era a isso que o Antigo Testamento se referia. Então, em Apocalipse — não querendo insistir até matar a serpente —, quando o autor diz: “a antiga serpente, que se chama diabo e Satanás”, posso entender por que voltamos ao texto, embora ninguém tivesse pensado que a serpente fosse literalmente Satanás.

Mas, por termos essa revelação progressiva, nós, cristãos, temos no bolso um deus ex machina que nenhuma outra cultura tem nessa revelação apostólica: “Ah, foi revelado progressivamente.” Então não podemos... Esse tal Sarna, suponho que não fosse cristão. Quando ele escreveu? Dr. Craig: Não, ele é judeu. Foi por isso que achei tão interessantes os comentários dele sobre os querubins. Aluno: Achei isso interessante, porque, quanto ao que o senhor disse, os judeus violavam a Lei o tempo todo. Todo o Antigo Testamento trata de como eles eram infiéis, portanto, é claro que poderiam ter coisas assim. Mas ele não tem o “poder mágico cristão” de voltar e dizer: “Ah, mas nossos apóstolos dizem isto.” Então nós, cristãos, não somos obrigados a voltar e reinterpretar essas coisas à luz do Novo Testamento? Dr. Craig: Sim, acho que isso é verdade. Acho que está correto. Embora os exemplos que você deu me levem a pensar que, de certa maneira, os autores do Novo Testamento podiam introduzir nesses textos coisas que originalmente não estavam ali, como “Do Egito chamei o meu Filho”.

A hermenêutica, nesse caso, seria que eles discerniam um nível diferente de significado ou uma interpretação diferente que não havia sido pretendida pelo autor original. Isso levanta todo tipo de questões difíceis pertinentes a esses assuntos. Não creio que as referências do Novo Testamento a Adão e Eva venham a invalidar o que disse nesta aula, porque se trata principalmente de uma interpretação teológica que Paulo apresenta em Romanos 5 sobre como o pecado entrou no mundo por meio de Adão e Eva — por sua escolha, sua Queda —, e que, portanto, houve tal casal, e que eles de fato desobedeceram a Deus e se afastaram. Mas o grau em que a história deve ser entendida de modo literalista, creio eu, permanece em aberto no Novo Testamento. Mas você certamente tem razão, em princípio, ao dizer que isso precisa ser levado em consideração.

Retomada da chuva e bênção final

Aluno: Há muita coisa a dizer, mas vou voltar à questão da chuva. Gênesis 2: as três principais interpretações parecem ser: uma delas é que se trata de uma história distinta de Gênesis 1. Outra é que se trata de uma história principalmente sobre o que aconteceu no sexto dia. E outra é que ela está em ordem consecutiva, ou segue a ordem de Gênesis 1. Sei que o senhor fez uma apresentação sobre isso não faz muito tempo, discordando dessa ideia. Inclino-me mais a pensar que é uma história distinta e que começa de modo semelhante a Gênesis 1, dizendo o que está errado. Não há planta do campo; não há planta da terra ali. Não há plantas boas nem plantas silvestres. Então o texto apresenta uma razão dupla para isso: Deus não havia mandado chuva e não havia ninguém para irrigar a terra. Depois há uma solução dupla: Deus essencialmente faz começar a chover e cria o homem. Portanto, acho que é uma história distinta, apenas em outra ordem. Assim, a expressão “não havia chuva” remete a um tempo em que Deus estava criando o ciclo da chuva de modo semelhante ao que fez no segundo dia.

Por isso, não vejo que eles considerassem isso fantástico; vejo mais como outra forma de contar uma história da criação, que talvez fosse posterior a Gênesis 1. Dr. Craig: Bem, isso se parece muito com o que acabei de dizer! É uma história distinta. Na próxima semana, falarei sobre os conflitos entre Gênesis 1 e 2 quanto à ordem da criação: vegetação, animais e homem. Sou favorável ao que penso ter entendido você dizer: que faz parte da plasticidade dos mitos permitir que sejam contados de maneiras diferentes e que não deveríamos pressionar essa narrativa a significar que, antes da criação dos seres humanos, nunca havia chovido na Terra. Isso, creio eu, seria fantástico até para esses antigos israelitas, que compreendiam, como você diz, o ciclo da água desde a criação das águas de cima e das águas de baixo. Muito bem. Foi uma boa discussão hoje. Encerremos com uma bênção. E, na próxima semana, examinaremos outras evidências do caráter não literal dessas narrativas.

E agora, que Deus Pai, fonte de toda bondade e vida, Deus Filho, nosso Redentor e Salvador, e Deus Espírito Santo, que nos enche e capacita para a vida diária, nos capacitem a viver de modo agradável a ele e a crescer no conhecimento dele por meio de Cristo, nosso Senhor. Amém.

Aula de William Lane Craig. Publicação original: Reasonable Faith. © 2019 William Lane Craig. Tradução e edição em português: Fé Razoável. Transcrição conforme a legenda em português do vídeo. Preparação da transcrição: 20/10/2026.